Valorização da tradição pela estética da modernidade

Jomo Fortunato |
13 de Julho, 2015

Fotografia: Arquivo Ndaka yo Wiñi

Embora seja um cantor e compositor inserido num mundo globalizado, e de fácil acesso à informação, Ndaka yo Wiñi reutiliza os meios virtuais das novas tecnologias da comunicação, em benefício dos valores artísticos da tradição, num processo ousado de inclusão e fusão com a estética da modernidade.

Tem estado cada vez mais nítida a linha divisória entre a Música Popular Angolana de consumo imediato, visando fundamentalmente desígnios de mercado, e os processos de criação musical que, embora fora do sucesso comercial, apelam à qualidade, pela investigação do cancioneiro, valorizam as línguas nacionais, e optam por construções harmónicas, e melódicas mais elaboradas.
A personalidade artística de Ndaka yo Wiñi, enquanto cantor, compositor, e pesquisador cultural, é o resultado da herança cultural da sua família, da e da vivência em comunidade, primeiro na Catumbela, comuna onde nasceu, província de Benguela,e depois no Bocoio, Huambo, município do Cuima, terra da sua mãe, Balombo, e Ganda, local onde se deslocou, muitas vezes, a mando dos padres, seus professores no seminário, para pesquisas, quando era estudante. É importante reter que, em todas estas regiões, abundam muitos rítmos e uma tipologia diversa de  danças: tchipuete, lundongo, ondjando, ukongo, mandjata, ndjando, cisonsi, sulula, e  nyhato, géneros que cumprem sempre uma função social, no interior das comunidades. 
Ndaka yo Wiñi teve os seus primeiros contactos com a música nestes ambientes, desde tenra idade, sobretudo nos momentos em que presenciava os rituais e cerimónias tradicionais, aspectos culturais que constituiram o substrato cultural que solidificou a sua carreira artística.

Genealogia

Filho de Ceverino Ndaka e Madalena Kassapi, Adriano Xavier Dokas, Ndaka yo Wiñi, nasceu na cidade do Lobito, província de Benguela, no dia 5 de Janeiro de 1981. Pelo facto de ser neto, paterno, de um percussionista, Hafona Tchimbakoko, e de uma bailarina tradicional, Paulina Jamba, da parte materna, e pelo facto da sua mãe, Madalena Kassapi, ainda cantar e dançar, Ndaka yo Wiñi acredita que terá herdado, no interior da genealogia da própria família, o sinal genético da sua personalidade musical.

Primórdios


A verdadeira entrega à música de Ndaka yo Wiñi aconteceu em Cabinda, província onde se refugiou, em consequência da guerra, em 1997, e conheceu um grupo de amigos que fundam a “Banda ngonji”, da Direcção Provincial da Cultura local, formação que interpretava sucessos de canções nacionais, internacionais,e, essencialmente, o cancioneiro  tradicional. Da “Banda ngonji” fizeram parte: Alberto Zau (vocal e guitarra ritmo), Alex Kiwi (piano e voz, actual pianista da Banda Chamavo), Ângela (vocal),e Estevão (baixo).
Entretanto, o grupo foi-se desmembrando, e, na sequência, conheceu um amigo que lhe apresentou os trabalhos do rapper americano Tupac Amaru Shakur, com o qual ficou completamente fascinado e a partir desse momento passou a cantar rap. Ndaka dedicou-se igualmente à realização de eventos culturais em Cabinda, para além de ter formado um grupo denominado “Academia negra”, responsável pela constituição do primeiro núcleo dos rappers de Cabinda.
Num processo contínuo de evolução, Ndaka yo Wiñi juntou à tradição segmentos de jazz, blues, soul music, ritmos latinos, reggae, folk, bossa nova, funk, e afro-beat, num processo que denomina, Tradicional Contemporâneo e Fusão. Embora cante em inglês, português, e possua noções básicas de kissolongo, fiote, e kimbundo, é no umbundo, sua língua materna, que exalta, com maior frequença, o amor, crítica social, e exortação para a assumpção de atitudes sociais correctas.
Em palco, Ndaka yo Wiñi apresenta-se sempre munido de uma cabaça na mão, que representa, pelo simbolismo, a herança cultural dos ancestrais africanos, a que se junta a encenação da sua performance corporal, “algo que se aproxima de um acto mágico”, segundo as suas palavras.

Canções

Muitas das canções de Ndaka yo Wiñi sustentam parábolas, e têm muitas vezes um foco proverbial. Fazem parte do seu reportório as canções: “Ombembwa”, palavra que significa a paz, e seus efeitos, e aborda a justa distribuição da riqueza, e o que fizemos para dignificar a paz conquistada, “Evamba”, aborda um ritual de circuncisão, “Ndi kalikenda”, tema que retrata um juramento amoroso, “vou me enterrar se a amada não aparecer”, “Ohele”, temor do amor, é daquelas relações em que o homem se empenha, e recebe, em troca, a traição, “Ndjolela”, nome fictício de um momento de alegria, e felicidade, de tudo o que nos é grato,  “Passuka”, acorda, deperta, canção inspirada no dia do trabalhador, é uma alerta para apostarmos no trabalho, “Vakaile”, termo que caracteriza o julgar dos tempos, não julgar os tempos no conflito geracional, “Sandombwa”, fala de uma relação incestuosa entre um tio e uma sobrinha, o cantor aconselha, “é importante conhecer as famílias antes de casar”, “Sokolola”, depois da guerra, temos que pensar na reconciliação,  “Ukolo”, tudo tem solução, a vida é feita de escapatórias, “Toke pi”, até quando o sofrimento, canção em que o cantor aconselha a sociedade, para o culto do bem, “Tchove tchove”, aqui o compositor valoriza e respeita, a propriedade, tanto a nossa, como a do outro, “Lombolola”, incentiva o diálogo entre os humanos, “Akunlu vendamba”, é a solicitação da sabedoria dos mais velhos, para salvar as crianças acusadas de feitiçaria, um problema dos adultos, não das crianças, e “Culili vali”, não chores mais, uma homenagem à mãe do cantor, canção que aborda a época das colheitas.

Concertos


Presença frequente em espaços intimistas de divulgação musical, em Luanda, Ndaka yo Wiñi passou, de 2013 a 2015,  pelo “Doobahr”, “Caminhos do som ao vivo”, concerto inspirado no programa homónimo da Rádio FM, “Bakama bar” em alusão ao mês da África, Espaço Bahia, integrado no projecto “Música nossa”, Miami Beach, participação especial no concerto do cantor namibiano Elemotho, vencedor do prémio descoberta da música em França. Ndaka yo Wiñi passou também pelo ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação, num concerto em alusão à jornada científica de Linguas Umbundo, Kimbundo,Kikongo e Cokwe. De referir ainda o concerto do forum empresarial, realizado no HCTA, Talatona, com o cantor e compositor, Gabriel Tchiema, e a cantora, Selda. Nos últimos anos participou no “Festa da música”, na marginal de Luanda, uma realização e produção Aliance Française, e num concerto no Elinga Teatro, com a participação dos músicos: Toty Sa´med, Helder Mendes, Gari Sinedima, e Jack Nkanga. Importante referir a soberba participação especial de Ndaka yo Wiñi no aclamado concerto de Gabriel Tchiema, realizado no Cine Atlântico, no dia 19 Junho de 2015.

Depoimento

José Esteves Cacunga, amigo e produtor executivo do “Olukwembo” (cabaça) primeiro disco de Ndaka yo Wiñi, a sair em breve, falou do perfil artístico do cantor, nos seguintes termos: “Conheci o Ndaka yo Wiñi em 2011, antes do último Festival de Jazz de Luanda, numa ocasião em que ele tocava no Bar, “Oito e dezoito”. Nesta altura tínhamos uma banda residente, chamada “Smoth wave”,  na qual o manager, Gil, era o mesmo do Ndaka yo Wiñi. Notei, nesta altura, que ele tinha muito potencial, no entanto aconselhei-o a deixar a banca, onde trabalhava, se quisesse prosseguir uma verdadeira carreira musical. Seguiu o meu conselho e dedicou-se, de facto, à música. Neste momento ele está extremanente desenvolvido como artista, enquanto “performer”, e possui um controle total do palco e do público, mesmo com cadeiras vazias. Tive esta percepção quando levei-o a Expo Milano, na Itália, onde ele só com percussão e voz conseguiu atrair, e retirou vivos aplausos da plateia. Depois fez um espectacular improvisso com a Banda Residente, ainda em Itália, sem ensaio. Estamos a gravar o seu primeiro disco, “Olukwembo”, está muito bom, e daqui a cinco meses sai o single promocional. Se o futuro da música angolana for a qualidade, uma das apostas será, inequivocamente, a de Ndaka yo Wiñi”.

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