Zé Maria Boyoth leva música angolana a Pequim

Altino Matos |
2 de Outubro, 2014

Fotografia: Cedida pelo músico

Zé Maria Boyoth, famoso pela sua composição “Tia Madia”, que marcou a década 90, ao tomar conta de espaços das rádios e salões de festas, actua este mês na China, o gigante do Oriente, marco de uma cultura milenar que impressiona, desde o folclore até ao que há de mais extraordinário na modernidade artística.

A China explora hoje, em matéria artística, a indústria do entretenimento, como muitos países ocidentais, que têm o campo do espectáculo como fonte de rendimento financeiro e espiritual, capaz de elevar a economia e o orgulho cultural. Aliás, muitos críticos de arte internacionais fizeram largos elogios aos criadores chineses pela forma extraordinária como conseguem actuar, tanto na área do canto como na área das artes cénicas, mantendo, sempre, a originalidade.
Foi esse espírito de grande sensibilidade artística que deu origem ao Festival Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, a decorrer de 21 a 30 deste mês, em Pequim, através do qual os chineses pretendem manter desperto o sentido de preservação das expressões mais puras e profundas dos povos.
Zé Maria Boyoth reconhece a grandeza do festival e, para corresponder à iniciativa, vai levar à China testemunhos das sanzalas angolanas, ricas em ritmos virgens, que fazem parte do seu reportório, tão peculiares como o conjunto de histórias imortalizadas na voz de Teta Lando, que soube elevar o “orgulho da gente do quimbo” e reconheceu de forma aberta e orgulhosa a grandeza da “negra de carapinha dura”.  Durante a sua estadia em Pequim, o músico exibe os seus dotes em dois espectáculos, com a duração de uma hora e hora e meia. Boyoth, como é tratado, já pisou palcos nas duas Coreias, na Rússia e na Ucrânia, onde teve a oportunidade de actuar com músicos de várias nacionalidades.
Para este festival, que vai já na sua sexta edição, o compositor, que domina instrumentos como bateria, kongas, marimba e violão, vai ser acompanhado pela sua banda, composta por um percussionista (Master Fred), viola baixo (Vando Moreira), duas vozes de coro (Master Fred e Caló de Jesus), duas bailarinas (Maria e Nany), e um engenheiro de som (Sebuca).

Um percurso versátil


Boyoth começou muito cedo a ter uma paixão natural e profunda pelos ritmos da terra, fruto da sua sensibilidade artística, que acabou por dar lugar à exploração de géneros como suku, ndómina, búkula, kutitila, kilapanga e semba. Em 1993, publicou o primeiro álbum com o título “Surukuku”, em 1998 o disco “Jogo Mágico”, e em 2010 “Bênção”.  O álbum “Surukuku” assenta em ritmos do folclore do Cuanza Norte, onde nasceu. Em “Jogo Mágico e “Bênção”, o compositor de “Tia Madia” anda por estilos vários, como kizomba, na qual, apesar de demonstrar uma boa performance, não se sente como peixe na água. Zé Maria Boyoth regressa ao seu espaço artístico, onde mantém a exploração de ritmos folclóricos.
“Desenvolvo ritmos tradicionais, através de sonoridades e instrumentos modernos”, explica o músico, para acrescentar que, desta forma, contribui para a preservação do folclore. “Quero chegar a todas as idades, para preencher o campo de exploração musical”, salienta.
O músico confessa que se sente mais valorizado no estrangeiro, “talvez porque o nosso mercado artístico tem falta de um acompanhamento mais cuidado”. Para Boyoth, “é notável a ausência da passagem de testemunho dos músicos consagrados para os da nova geração”.
A falta de divulgação, de acesso às editoras e da concertação de ideias e troca de experiências são alguns dos “males” que prejudicam a concepção de projectos e a actuação de músicos, caracteriza Boyoth, que acredita em dias melhores no mundo da arte e do espectáculo.
“Estou a fazer a minha parte, centrado na ideia de que do meu pouco fica uma contribuição valiosa para a música e cultura nacionais”, disse o músico. Zé Maria Boyoth pensa que com a figura do empresário ou agente artístico, os músicos, compositores e letristas vão alcançar novos espaços, porque estes agentes conseguem promover espectáculos e criar as dinâmicas necessárias à carreira de qualquer homem de arte, como os poucos que estão no mercado dão provas.
Na China, o músico e compositor vai aproveitar para estreitar laços artísticos e comerciais, a pensar em próximas ocasiões. Zé Maria Boyoth deixou bem claro que está consciente que a vida de um músico é uma constância de realidades e ilusões, que deve ser bem aproveitada, mesmo quando o sistema de gravação e divulgação ainda não consegue acompanhar a dinâmica artística.

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