Cultura

Narrativa ficcional em “Além da Noite” de João Tala

Jomo Fortunato

João Tala revelou as motivações e conteúdo de “Além da noite”, que será apresentado terça feira, às 18h30, pelo escritor Ernesto Daniel, nos seguintes termos, “Duas histórias à volta do quotidiano, acontecimentos candentes no espaço e no contexto do pós-guerra imediato, que vão destapando sequelas daqueles tempos em que foram os tumultos.

Autor mudou o panorama literário angolano com a publicação do livro “A forma dos desejos”
Fotografia: DR

Nesta obra reafirmo a tendência ficcional que revitaliza, tal como foram outras histórias publicadas nos meus livros, a temática do pós-guerra no contexto afim, quase mesmo obsessiva. É como narrar uma trajectória alucinada onde, enquanto autor fui-me deixando estar. São noites de aventura, boémia, desequilíbrios, um processo de adaptação social dos personagens, mas também um modo de estar com sonhos, delírios e fantasias. É uma obra que progride num estilo franco, móvel, entre o prosaico e o poético. Porém, a ficção vai além dessas noites onde os personagens caminham de encontro ao leitor”.
João Tala mudou o panorama literário angolano com a publicação de “A forma dos desejos”, livro que inaugurou uma forma inusitada de construção poética, em que a memória da palavra, mesmo fora do verso, potencia múltiplos universos de significação, estimulando infinitamente o imaginário e as experiências íntimas do leitor.
As palavras do poeta sobre o leitmotiv, ou seja, o fio condutor da sua escrita, dão pistas importantes para a compreensão do seu processo criativo: “Reflicto a emanação de processos que dotam a palavra de uma existência própria, através de vias abertas, a partir de pulsões do inconsciente. Tais pulsões resultam de várias vivências humanas, com valor na história e nas emoções, no amor e ódio. No domínio dos sentidos vão conformar a própria subjectividade, dotando a palavra de uma carga simbólica, “stressante” mesmo, por causa das exposições sócio-profissionais em actividades que dão motivação existencialista: fui soldado enfermeiro, tendo servido nos espaços e cenários de guerra, formei-me em medicina, percorri com alguma profundidade o interior da Lunda-Norte como médico militar, levando assistência e meios médicos não só às tropas, mas, igualmente, às populações afectadas, factos que me foram marcantes, e se destacam ainda em muitos dos meus conteúdos. São estes os meus antecedentes, sobre os quais acrescento as minhas leituras e o exercício permanente no sistema de criação e realização estética. Estes são, contudo, alguns pormenores de entre vários momentos de referência no processo da minha forja literária”.
Filho de Tala Sebastião Joaquim e de Bernarda Simão António, João Tala Sebastião Joaquim nasceu em Malanje no dia 19 de Dezembro de 1959. Médico de profissão, na especialidade de medicina interna, e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), João Tala iniciou a actividade literária no Huambo, onde cumpria o serviço militar, tendo sido, ainda na mesma cidade, co-fundador da Brigada Jovem de Literatura, Alda Lara, em 1980.

Medicina
O exercício da medicina vem influenciando momentos importantes da criação literária de João Tala, visíveis em determinados títulos dos seus poemas. Seleccionamos, de forma arbitrária, uma sequência de títulos, com os quais podemos inferir diferentes fases da existência humana: “Colheitas uterinas”, pode simbolizar o nascimento, “Tontura”, existência atribulada, “Psiquiatria I e II”, a possível ou impossível terapia da loucura, “Obituário”, a morte definitiva, e “Me reconstruindo”, a liberdade, reconstrução ou a ideia cristã de ressurreição celestial.

Temas
Influenciado pelas vivências em cenários de guerra, os percalços da existência humana no tempo, constituem temas recorrentes na obra literária de João Tala. Vejamos o poema “Psiquiatria II”, do livro “Rua da Insónia, um manifesto de inquietações”: Todos me acham que sofro de miséria/ faço de cada história um reboliço./ Mas devagar essa cicatriz banal eu escrevo;/ esse ardil de loucos é um poemário;/ um documento daquelas minhas dores./ Tudo vai mal, dizem. Tudo vai ! /Vai a raiva tão simples como fazer perguntas;/ vai de passada qualquer maluco palpitando/ [muita gente/ e vão outros palpitando os relógios/ [automáticos:/...tic-tactic-tactic-tac.../ Os tique-taques nascem das nossas bocas/ Bocas dissolvidas. Noites volémicas./ Os sentidos moídos na rua dos atritos.
A morte por miséria, e questões muitos actuais como a “coisificação” da vida humana, são temas lavrados no poema, “Obituário”, do mesmo livro: “Onde ouvidos repetem pequenas ruínas/ sobra o revólver sobre dias túmidos/ para decretar morte é como ninguém/ para aumentar áfricas laboratoriais e/ o latifúndio//depois dá um tiro na cabeça da história/ tal como tropeça no meu palavrão/ sem nada para acrescentar à morte/ sem nada para contar à vida/ sem ser nunca o nome da multidão.
Distinções
Um dos poetas mais importantes da poesia contemporânea, João Tala foi distinguido com o prémio Primeiro Livro pela UEA, União dos Escritores Angolanos e primeiro lugar dos Jogos Florais do Caxinde, em 1999, com a obra poética “A forma dos desejos”. O escritor foi ainda agraciado com Menção Honrosa do Prémio Literário Sagrada Esperança, edição 2000, com o livro "O gasto da semente", Grande Prémio de Ficção, edição 2004, pela UEA, com o livro de contos, “Os dias e os tumultos” e o Grande Prémio de Poesia, em 2005, com o livro, “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos”, pela UEA.

Livros
Indiciando uma clara consistência produtiva, sobretudo ao nível da criação poética e alguma narrativa ficcional, João Tala publicou: “A forma dos desejos” (poesia, 1997, UEA), “Gasto da semente” (poesia, 2000, INALD), “A forma dos desejos II” (poesia, 2003, UEA), “Lugar assim” (poesia, 2004, UEA), “Os dias e os tumultos”(2004, contos, UEA), “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos” (poesia,2005, UEA), “Surreambulando” (contos, 2007, UEA), “Forno feminino”, (poesia, 2010, Kilombelombe), “Rosas & munhungo”(contos, 2009, UEA), “Rua da insónia, um manifesto de inquietações” (poesia, 2013, UEA) e “Além da noite” (Editora Rangel, 2019).

Tempo

Multimédia