Ngonguita Diogo a poesia em disco

Jomo Fortunato|
15 de Dezembro, 2014

Fotografia: Santos Pedro

Com o CD de poemas “E assim virei Maria” a ser lançado no dia 20 de Dezembro de 2014, na Mediateca de Luanda, Ngonguita Diogo inicia um ciclo de registo discográfico dos seus recitais, socorrendo-se da música e de várias vozes convidadas, dois recursos que complementam o processo de declamação e representação de treze poemas, criteriosamente seleccionados pela autora.

Dividida entre a poesia e a ficção narrativa, Ngonguita Diogo possui o mérito de memorizar os textos que recita e o seu nome figura  entre as declamadoras angolanas mais referenciadas, pela versatilidade no uso de técnicas  peculiares de expressão, consubstanciadas na atitude interpretativa perante o ritmo da declamação. O âmbito da generalidade da sua escrita,  de focalização sociológica, responde a preocupações de natureza pedagógica, política,e, fundamentalmente, humanística. 
Declamar, uma arte nem sempre dominada pela maioria dos poetas, exige destreza e habilidade nos gestos, sobretudo nos casos  em que o poema é representado, critério rigoroso na  selecção do poema, e plasticidade na modulação vocal, aspectos que, no seu conjunto, Ngonguita Diogo, domina com assinalável versatilidade.
Sobre as características dos seus recitas, Ngonguita Diogo disse o seguinte, enquanto declamadora: “A ideia é criar interesse pelo texto, e os meus poemas pretendem sempre proporcionar ou, na melhor das hipóteses, despoletar emoções. Para que tal desiderato ocorra, emprego a língua com liberdade e beleza, acentuando, muitas vezes, o sentido metafórico das palavras, pelo timbre e sonoridade da voz”.

Percurso


Filha de Domingos João Diogo e de Adelina Alfredo Diogo, Etelvina da Conceição Alfredo Diogo, Ngonguita Diogo, nasceu no dia 04 de Maio de 1963, no  Município do Cazengo, Província do Kwanza Norte, e concluiu os estudos primários no Uíge, Província onde, em 1975,  começou a dar os primeiros passos no domínio da literatura. Logo depois da independência, em 1976, Ngonguita Diogo arrebatou um prémio como declamadora com o poema de intervenção, que a seguir transcrevemos, misturando elogio da natureza, com libertação:  Uíge sagrado solo, onde brota o café / Pela ambição dos teus invasores / Lágrimas amargas por ti verti/ Nos sete meses em que a paz fugiu / Porque as FAPLA não estavam aqui!... Daí empreende várias tentativas com a intenção.
Em 2004 começou a escrever com alguma solidez criativa,  tendo publicado os seus poemas no “Vida e Cultura”, Suplemento de artes e letras do Jornal de Angola e no Semanário “ O Independente”.  Voz poética da Rádio Cazenga, Ngonguita Diogo, é membro do Movimento Lev’arte, desde 2006,  e tem participado em colóquios literários e sessões das “Makas a quarta-feira” na União dos Escritores Angolanos. Formada em administração de empresas, publicou “No Mbinda o ouro é sangue” (conto, 2010), “Weza a princesa” (infanto-juvenil, 2010), “Sinay” (romance, 2011), “A minha baratinha (infantil, 2011),  e “Acudam Maria do rangel” (romance, 2013).

Estrangeiro

Ngonguita Diogo esteve em Salvador da Bahia, no Brasil, a convite da União Baiana de Escritores e participou do IV Encontro de Escritores Baianos (ENEB) que aconteceu nos dias 10, 11 e 12 de Julho de 2014, na ocasião a escritora participou numa mesa redonda sobre literatura africana, e tem poemas publicados na “Revista Omnira da Baía”, e espera publicar os seguintes livros: “Os seios que desafiaram o mundo”,  “A morte do prazer em chamas”, “Zavula”, “Nas pedras de um reencontro”, e “Enlouquecido por amor”.

Infantil


Sobre a poesia e a infanto-juvenil, Ngonguita Diogo pensa o seguinte: “Gosto da emoção dos recitais de poesia, tenho consciência da importância da literatura infanto juvenil, ponto de partida em que fui crescento até à maturidade da narrativa ficcional. Naturalmente que o valor daquilo que escrevo depende dos meus leitores.
No entanto, em relação à literatura infantil, é fundamental que as crianças tenham  contacto com os livros desde tenra idade, acostumando-se com sua textura, seu formato, cheiro e universo de possibilidades, ou seja, a leitura enriquece a visão do mundo das crianças. Estes três universos de produção literária têm sido para mim um exercício prazeroso, considerando que sou neta de uma exímia contadora de histórias, e carrego a veia poética do meu pai, privilégios que, associados a algum atrevimento da minha parte, fizeram de mim o que sou”.

Feminino


A escritora defende, por exemplo, que a literatura escrita por mulheres não tem diferenças contrastivas, em relação à génese, comparados aos textos escritos por homens, sobre o assunto disse o seguinte: “Sei que a “Literatura feminina” é aquela que se refere ao estudo geral de escritoras do sexo feminino, ou a literatura voltada para o público feminino em geral. A “Literatura feminina” também pode ser usada para designar a literatura dirigidas às mulheres, independentemente do sexo de quem escreve. Sei que no Brasil a “Literatura de mulherzinha” possui, muitas vezes, um sentido pejorativo. Não acho que haja diferença entre a literatura feita por mulheres em relação aquela que é feita por homens, julgo que, se houver alguma diferença, não será por causa do género, mais sim pela natureza do pensamento, pelo rítmo ou pela ousadia de quem  escreve, independentemente de quem escreve”.

Lançamento

Em “E assim virei Maria”, Ngonguita Diogo dá voz a um conjunto de textos poéticos de sua autoria, dos quais registou: “Alembamento” e “A cor da minha vaidade”, com participação especial de Inácia Adelaide, “O meu mundo perfeito”, “Tropeços”, da autora e Omalã Ofeka, com participação de especial de Daniel Cassul, “E assim virei Maria”, poema que dá título ao CD com participação especial de Júlio Gil, e revisita os poemas, “Não me peças sorrisos” e “Bamako”, de Agostinho Neto, “Encantamento” e “Ngongo” de Mário Arsénio, “África que observo com os dedos”, de António Gonçalves, “Choro livre” de Luís Rosa Lopes, com  participação especial de Inácia Adelaide, “Batuque Mukongo”, de Fragata de Morais, com participação especial de Júlio Gil e Madal.

Depoimento


Ngonguita Diogo fez o seguinte depoimento sobre o CD “E assim virei Maria: “Na complexidade dos meus desejos vou buscando sonhos, penso no extremo, agarro o que me mobiliza, investigo, o meu cérebro está sempre activo e crio para saciar a  fome. Sou poeta, sou artista, tenho sonhos e este CD é a concretização de um deles.
Em “E Assim virei Maria” estão as nossas raízes e tradições, os conflitos pelo qual passamos até atingirmos a independência, os nossos lamentos, o que perdemos, a esperança que ainda nos acompanha, a fé, a solidariedade, a beleza africana e as conquistas conseguidas através de lutas ideológicas e bélicas. É uma amostra de África e particularmente de Angola, na poética de grandes mestres da literatura”.

capa do dia

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