Cultura

Njinga Mbande continua a inspirar historiadores

Manuel Albano |

Os mitos e verdades criados à volta da fascinante e complexa vida da soberana Njinga Mbande, morta a 17 de Dezembro de 1663, devem continuar a ser motivo de pesquisa, defendeu ontem, em Luanda, o historiador e director da Biblioteca Nacional de Angola.

Nzinga Mbande
Fotografia: Edições Novembro

Em declarações, ao Jornal de Angola, sobre as celebrações dos 354 anos da morte da soberana, a serem assinalados amanhã, João Lourenço destacou o facto de que muito da história sobre Njinga Mbande foi escrito na perspectiva do conquistador, deixando algumas verdades de parte.
Como exemplo, explicou o historiador, em alguns registos e livros espalhados pelo mundo, Njinga Mbande é descrita como uma pessoa “antropófaga”, alguém que comia carne humana, o que não é verdade.
Na sua opinião, o militar português António de Oliveira Cardonega (1623-1690) que escreveu sobre a História Geral das Guerras Angolanas e que também lutou contra a soberana do Reino do Ndongo e da Matamba, ocultou algumas verdades nos seus registos sobre Njinga Mbande.
Outro motivo pelo qual João Lourenço defende a realização de mais pesquisas sobre a soberana é o facto de existirem muitas informações dispersas nos arquivos holandeses, franceses, ingleses e do Vaticano. Com todos esses arquivos espalhados pelo mundo, de acordo com João Lourenço, vai continuar a existir motivações e interesse de pesquisadores e historiadores em publicar livros e teses sobre Njinga Mbande. A vida e a obra da soberana, afirmou o director da Biblioteca Nacional, têm sido contadas de ângulos diferentes, por angolanos e estrangeiros. “Acontece que no estrangeiro, em função das estruturas e condições, regista-se em mais quantidade trabalhos publicados, essencialmente no Brasil e Portugal em torno do tema”, disse João Lourenço.
O director da Biblioteca Nacional destacou os trabalhos desenvolvidos e publicados por historiadores angolanos, com destaque para Rosa Cruz e Silva e Adriano Parreira, bem como os de fim de curso de estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e do Instituto Superior de Ciências da Educação (Isced), sobre a soberana, que normalmente são teses de licenciatura e de doutoramento, que depois são publicados em livros.
Actualmente, explica o historiador, o que tem existido é uma “releitura” dos registos sobre Njinga Mbande durante o período da conquista e colonização. “Os estudos feitos e desenvolvidos hoje, com base nos documentos existentes, visam analisar sobre alguns mitos acerca da heroína.”
João Lourenço disse existir diferenças nos registos documentais do antigamente, relativamente sobre o que se escreve actualmente sobre a temática, sobretudo porque se deve ter em consideração quem os documentou. “Não vamos esperar que um texto do Cardonega venha a vangloriar Njinga Mbande, particularmente, porque retratava a história do seu inimigo.”
Segundo o historiador, o que Cardonega escreveu em parte é válido, mas é necessário que os historiadores e pesquisadores façam uma análise “crítica interna das fontes.”
Como soberana do Reino do Ndongo e da Matamba, o historiador defende uma contínua divulgação, não apenas dos seus feitos, como de outras figuras indeléveis que marcaram a resistência dos angolanos contra o regime colonizador.
Objecto de vários estudos e publicações, a lendária soberana angolana, disse João Lourenço, deve continuar a ser recordada, não apenas no país, mas em outras partes do mundo. “Ela foi uma estadista que se destacou no seu tempo, pelo facto de ter chefiado dois reinos e ter estabelecido relações internacionais com os holandeses e o Vaticano.”
Ao contrário de alguns registos documentais, João Lourenço afirma que Njinga Mbande nunca foi derrotada, porque, enquanto esteve viva, sempre manteve o seu estado independente e conseguiu chegar a vários acordos de paz com os portugueses entre 1656 e 1659, colocando fim à beligerância entre Portugal e os reinos da Matamba e do Ndongo.

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