Cultura

No fervor da canção política

Jomo Fortunato |

Pelo simbolismo cultural e político, magnitude da intervenção musical, de efeito mobilizador de massas, consistência criativa e número de álbuns gravados, na fase da independência de Angola, é legítimo considerar o agrupamento “Kissanguela”, como sendo a mais importante formação musical do período áureo da canção política.

Canções de Mário Silva tiveram uma importante função mobilizadora
Fotografia: JA

Pelo simbolismo cultural e político, magnitude da intervenção musical, de efeito mobilizador de massas, consistência criativa e número de álbuns gravados, na fase da independência de Angola, é legítimo considerar o agrupamento “Kissanguela”, como sendo a mais importante formação musical do período áureo da canção política.

São desta época os clássicos “Valódia” e “Massacres de Kifangondo”, de Santocas, “Estrangeiro” e “Atu mu ngila”, de Santos Júnior e “Ministro Gatuno”, um tema de pendor humorístico do Kissanguela, interpretado pelo cantor e compositor Calabeto. Deste período ficou-nos a marca de uma música romântica, nos seus motivos melódicos, e, verdadeiramente eficaz, nos seus propósitos textuais e políticos.
São de Mário Silva os versos da canção “Camarada”: Eu vou fazer um poema/ que não tem problema/ sei que você gosta de rumba/ rumba fazendo revolução/ camarada tenha atenção/ que o povo quer/ uma só nação/ a luta continua/ na mata e na rua/ camarada... camarada... camarada... um tema, com um rico esquema rimático, que ficou muito conhecido na época da revolução popular.
De facto, o agrupamento Kissanguela, que surgiu em 1974, ano imediatamente anterior à independência, congregou vários cantores e compositores que se encontravam dispersos, na sequência do encerramento dos principais estúdios de gravação: Belmiro Carlos (viola solo), Manuel Claudino (viola baixo), Cristiano Veloso (órgão), Nito (viola solo), Adolfo (viola ritmo), Juca (bateria), Hugo (saxofone), Beto Pederneira (trompete), Alfredo (trompete), Candinho (tumbas), Tolingas (percussão) e as vozes de Santos Júnior, Artur Adriano, José Agostinho, Filipe Mukenga, Tonito, Avozinho, EI Belo, Fató, Carlos Lamartine, Jorge Varela, Tino diá Kimuezo, Calabeto e Mário Silva foram as grandes figuras que marcaram o “Período Kissanguela”, fase de uma grandiosa odisseia musical, que começou no interior da JMPLA.

Percurso

Mário Pedro Silva, também conhecido por Marito, nasceu no dia 31 de Julho de 1954, em Luanda, e concluiu os estudos primários na Escola da Missão de São Paulo, dando sequência à sua formação média na Escola Industrial de Luanda.
Embora tenha integrado o agrupamento “Jovens do Prenda” e “Luanda Show”, como guitarra ritmo e intérprete, foi no agrupamento “Kissanguela”, formação que o elevou ao apogeu a canção política angolana, em 1974, que Mário Silva consagrou o período mais importante da sua carreira.
As canções de Mário Silva, tal como a generalidade das canções do Kissanguela, tiveram uma importante função mobilizadora, numa altura em que Mário Silva encontra, no Kissanguela, os músicos Ângelo Quental, em fase de substituição pelo guitarrista, solo, Belmiro Carlos, Massangano, na guitarra ritmo, Manuel Claudino, no baixo, Candinho na percussão e Tolingas na voz e na dikanza.

Digressões

A primeira grande digressão do Kissanguela, com Mário Silva, acontece na fase das independências de Moçambique e S.Tomé, em 1975. Mário Silva integra, no mesmo ano, a caravana presidencial do Dr. Agostinho Neto, que o levou a Cabo Verde e Guiné Conacri . Em 1976 visita a Argélia e Bulgária, e participa, em 19823, no Primeiro Festival da Canção política, no Huambo, um evento denominado “Um canto elementar para Agostinho Neto”.

Influências na música de Mário Silva

Embora a música de Mário Silva acuse influências da tradição do cancioneiro angolano, de matriz religiosa, é possível detectar pontos de contacto com a estética de Pablo Milanês e Sílvio Rodriguez, dois expoentes da música cubana, surgidos com a revolução. Silvio Rodriguez e Pabo Milanês são dois cantores cubanos contemporâneos, de grande impacto internacional, criadores, juntamente com Noel Nicola e Leo Brawer, do movimento da Nova Trova Cubana. Sílvio e Pablo, dois compositores que influenciaram a trova angolana, têm a capacidade de sintetizar o intimismo e os temas universais, com a mobilização e a consciência social e política. Importantes elementos de aferição e análise que encontramos na intencionalidade da música de Mário Silva.

Discografia do Kissanguela

A análise da discografia do “Kissanguela” revela-nos o perfil de uma formação musical, fortemente comprometida com os desígnios políticos da época. No alinhamento das canções do primeiro LP do grupo, “Vitória Certa”, sem Mário Silva, encontramos as canções: “Tuakuá Divua”, da cantora Fató, “Avante o poder popular”, do Calabeto, “Invasores de Angola”, do Santos Júnior, “Ormãla Vanque, uma canção popular, recolha de José Agostinho e Filipe Mukenka, “Kitadi kiá Ngola, de Santos Júnior, “Tchikolõna”, popular de José Agostinho e Filipe Mukenga, “Poema”, de Jorge Varela, “Enu Ilumba”, de Calabeto, “Ministro Gatuno”, agrupamento Kissanguela, “Estrangeiro”, de Santos Júnior, “Noite Longa”, José Agostinho e Filipe e Rumo à Independência, do agrupamento Kissanguela.
Em 1974, Mário Silva grava o tema “Ngola, ngola” a primeira canção registada por Mário Silva com o agrupamento Kissanguela. Seguiram-se, depois, os temas: “Camarada” “Rumo ao socialismo”, e “Tua na Ngola”, registados, respectivamente, nos LP’s “Agrupamento Kissanguela”, “Rumo ao Socialismo”, e “Progresso, disciplina, produção, estudo”, títulos discográficos que revelam, por si só, o compromisso político e partidário de Mário Silva, enquanto militante activo do MPLA.

Tempo

Multimédia