Nobel reconhece a ''música'' dos seus livros


15 de Outubro, 2014

Fotografia: DR

O escritor francês Patrick Modiano, vencedor do prémio Nobel da Literatura deste ano, disse ter ficado surpreendido com a distinção da Academia Sueca, mas considerou-a como um reconhecimento da “música discreta” que são os seus livros.

Em entrevista dada ao site da Academia Sueca, a primeira desde que soube da distinção, Patrick Modiano contou que estava na rua quando soube da novidade, mostrando-se surpreendido por ter sido o escolhido deste ano.
“Nunca pensei que isto me pudesse acontecer, estou muito tocado, cheio de emoções”, reagiu o autor, para quem escrever é algo natural que começou a fazer muito novo. “É algo que faz parte da minha vida desde o início”, continuou.
Quando questionado sobre o livro da sua obra que sugeriria àqueles que ainda não o conhecem, Patrick Modiano disse não ser capaz de escolher por ter “a sensação de estar sempre a escrever o mesmo livro”. “De forma descontinuada”, explicou. “É como se eu parasse para fazer um intervalo e então depois continuasse com a próxima etapa do mesmo livro.”
“O que quero saber são as razões pelas quais me escolheram”, disse Modiano, repetindo: “Tenho a impressão que escrevo o mesmo livro há 45 anos”.
Para o francês, receber o Prémio Nobel da Literatura “é irreal” por todas as memórias de infância que guardas. Lembra-se, por exemplo, de quando Albert Camus foi o vencedor. “Devia ter uns 12 anos. Parece-me irreal ser agora confrontado com as pessoas que sempre admirei”, acrescentou.
O escritor informou que em Dezembro vai a Estocolmo para receber o Nobel, juntamente com a sua família, a quem dedicou o prémio.
A Academia Sueca atribuiu o Nobel da Literatura ao escritor pelo facto de a sua “arte da memória evocar os mais inefáveis destinos humanos e desvelar o mundo da ocupação”. A ocupação alemã da França durante a II Guerra Mundial é um tópico recorrente na obra de Modiano.

Editoras e opiniões

A directora da editora Gallimard, Anne Ghisoli, reconheceu que a decisão da Academia Sueca de atribuir o Nobel ao francês Patrick Modiano “foi uma surpresa” e espera que “o prémio favoreça a reputação global de um dos mais consumados escritores” publicados pela editora. “É um mestre da escrita sobre a memória e a ocupação, que assombra e alimenta a sua obra”, disse, chamando igualmente a atenção para uma dimensão do autor que é menos vezes referida: a de um “cronista de Paris, das suas ruas, do seu passado e do seu presente”.
Este prémio vem também demonstrar, defende, que “apesar do ambiente depressivo que se vive hoje”, “a ficção francesa contemporânea está bem e de saúde”. “São boas notícias, num país muitas vezes obcecado com as suas glórias passadas”, explicou. 
O crítico Yannick Pelletier sublinha ainda que o escritor pratica uma “arte da indefinição e da dualidade”. “Os seus protagonistas são muitas vezes seres paradoxais”, disse.
“É um autor reconhecido internacionalmente, mas nunca foi um autor popular, que vendesse muito em lado nenhum”, disse Manuel Alberto Valente, que publicou vários títulos de Modiano em sucessivas editoras portuguesas, da D. Quixote e da ASA à Porto Editora, que publicou em 2011 o romance “Horizonte”. 
Manuel Alberto Valente não tem dúvidas de que Modiano “é uma das grandes vozes da literatura francesa”, e se os seus livros não são best sellers, adiantou, é talvez “devido à sua escrita, a que a crítica francesa chama ‘a pequena música de Modiano’, e pela sua obsessão com o tema da memória”.
Para Manuel Alberto Valente, um caso em que essa “arte da memória” a que se referiu o secretário da Academia Sueca conflui exemplarmente com o interesse de Modiano pelo período da ocupação nazi de Paris é “Dora Bruder” (1997), que a Asa publicou com o mesmo título. Mas o tema está já presente nos seus primeiros romances, informalmente conhecidos como a “Trilogia da ocupação”.
“Nunca o conheci pessoalmente, é um homem muito avesso a viagens e a encontros sociais. Convidei-o várias vezes para vir a Portugal, para o lançamento dos livros, mas nunca foi possível. Mas conheci-o através das leituras, já nos anos 80”, conta, satisfeito mas não completamente surpreendido com este Nobel. “Sempre achei que era uma voz completamente distinta no panorama da literatura europeia e que, mais cedo ou mais tarde, seria reconhecido”, disse.
O que mais distingue este escritor, acrescenta, é a sua temática: “Praticamente aborda sempre o mesmo tema, que é a memória e a importância que a memória tem na vida do ser humano, o que conduz para um subtema também recorrente, que é a ocupação de Paris durante a II Guerra Mundial.”
O editor dá como exemplo disto o romance “Dora Bruder”. “A obra gira sempre em torno desta obsessão com a memória, esta é a sua marca criativa mais pessoal.”
Além disso, sublinha, a crítica francesa também costuma referir-se ao seu estilo de escrita como uma “pequena música”. “Não é um autor de grandes alaridos. A sua escrita é antes como uma música suave. É uma voz muito elegante, subtil e discreta. Não é um autor que atraia multidões, está muito longe do troar de tambores que caracteriza muita da literatura contemporânea”, comenta.

Vendas na Net


“Dora Bruder”, um dos livros da autoria de Patrick Modiano, está à venda nos sites de vendas em segunda mão portugueses a partir de dois euros. Com tendência a aumentar desde que se sabe que o autor é o novo prémio Nobel da Literatura.
O romance “Dora Bruder” é o que tem mais exemplares à venda nestes sites.
Nascido em 1945, o escritor não viveu a II Guerra, mas esta sua fixação temática tem óbvias raízes nas suas próprias origens. Os pais conheceram-se na França ocupada. A mãe, a actriz belga Louisa Colpeyn, era tradutora quando conheceu Alberto Modiano, um italiano de origem judaica que viveu a ocupação com uma falsa identidade (Henri Lagroux) e parece ter sido protegido por personalidades influentes na elite francesa pró-nazi.

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