Cultura

Noites de escangalho com Ary

Analtino Santos

Duas noites de escangalho, com Ary no palco do Show do Mês, deixaram os “showistas” rendidos ao seu perfume musical. O roteiro musical começou com “Paga que paga”, que fala do indivíduo que era bom pagante fora de casa enquanto os filhos no lar nada tinham, e encerrou com o tema sobre violência doméstica “Betinho”, com outros, pelo meio, a destaparem outras vivências do quotidiano.

Fotografia: DR

A importância de uma apresentação familiar no relacionamento esteve patente na música “Tónico” e o ciúme e o medo em “Não me faças desistir”. Duas das primeiras canções da carreira de Ary não “escaparam”: “Meu grande amor” e “Não pergunta muito”, também conhecida por “Meu patrão”, proporcionaram um recuo de cerca de uma década. 

Mig, convidado, fez uma canjinha no seu grande sucesso “Maka mami”. Ary, vestida a bessangana, devidamente “produzida” pelo grupo carnavalesco União Mundo da Ilha, partilhou também o palco com os Nguami Maka, grupo de música ancestral, que deram o seu toque típico em “Nguxi” e “Manazinha”, dois temas muito conhecidos nas vozes de Belita Palma e Dina Santos.
Acácio pisou também o palco e, sem a companhia de Ary, brindou o público com “Siluvangui” e “Abigbedoto”, adaptações de temas africanos que conquistaram as pistas angolanas. Ary, de regresso ao palco, revisitou temas de outros, nomeadamente “Tá amarrado”, composição de Kintino, “Deception” de Lutchiana Mabulo e “Despedida de lar”, de Beto Cruz.
Seguiram-se momentos em que Ary recuperou músicas que definiram a sua carreira: “Monami”, “Mona kinguixi” e “Candinha”, esta original de David Zé, que era a canção de ninar do filho da cantora. A interpretação de “Nem às paredes confesso”, “Para uso exclusivo” e “Amor roubado”, ou seja, o fado de Amália Rodrigues, o samba de Alcione e a balada do moçambicano Guilherme Silva, provou a versatilidade de Ary.
O tema “Assim é que é” teve uma recepção tímida por parte da plateia, que reagiu de modo diferente em relação aos sucessos “Escangalha”, “Carta de amor” e “Funge na cachupa”, cantados em uníssono e com forte vibração.
Na primeira noite era visível o esforço da artista para ajustar-se ao formalismo da sala, “kanjonjando” o seu lado irreverente. Mas na recta final surgiu o momento, como diriam os brasileiros, “liberou geral”, com muita festa e espontaneidade, as marcas da actuação de Ary: a miscelânea que juntou “Ngapa” dos Irmãos Almeida, “Esse madié” de Eduardo Paim e “Betinho” da própria Ary, não deixou ninguém indiferente.
Yark Spin foi o solista em destaque, na ausência do Mestre Teddy. Pepelo fez o que habitualmente tem sido responsabilidade de Yark Spin e também solou em alguns temas, numa banda onde Mayo Bass preencheu as cinco cordas de Mias Galheta, o principal baixista do Show do Mês. Os jovens Benny nos teclados, Alexandre na percussão, o trio dos coros Raquel Lisboa, Neide da Luz e Tchilo, a secção de cordas, e Jack na bateria, comprovaram a aposta da produtora Nova Energia em jovens instrumentistas, sob o olhar atento do experiente percussionista Xico Santos e supervisão do trio de sopristas cubanos.

Constatação
Não é fácil montar um concerto com uma artista com tantos sucessos e parcerias marcantes. Titica partilhou criativamente com Ary “Pelo menos 50”, Baló Januário produziu “Papá fugiu”, que consagrou Ary ao fazê-la conquistar, pela segunda vez, o Top dos Mais Queridos. Heavy C foi determinante na carreira da musa ao assinar sucessos como, por exemplo, “Não me faças desistir”. Ary fez dueto com Yuri da Cunha em “Não pergunta muito”. Tudo isso e as parcerias da cantora, em estúdio ou em palco, com Puto Português, Karina Santos, Paulo Matomina, Kyaku Kyadaff, e outros, dão prova da sua extrema sociabilidade e extroversão. Que tem reflexos, naturalmente, na diversidade, abertura e plasticidade da marca Ary.
A artista tem os seguintes discos publicados: “Sem substituição”, “Crescida mas ao meu jeito” e “10”.

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