Cultura

Novas tendências na carreira musical de Voto Gonçalves

Jomo Fortunato

Embora alguns géneros musicais tenham sido mais resistentes à inovação, o facto é que a intenção de aprimoramento instrumental, visando a modernização, afectou a obra de muitos cantores angolanos, sobretudo os provenientes ou influenciados pelos então chamados “Conjuntos de música moderna’’.

Cantor Voto Gonçalves experimenta novo género da contemporaneidade musical angolana
Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

Voto Gonçalves, que começou a cantar, em 1961, com apenas doze anos, gosta de afirmar, com muita convicção, que o seu “primeiro palco foi o Bairro Operário”. Note-se que, nos anos cinquenta, eram muito comuns as tertúlias musicais nos musseques e zonas adjacentes, uma prática cujas consequências foram pedagógicas, no sentido da aprendizagem dos primeiros conceitos musicais que, por um processo de habituação, vieram a consagrar, Voto Gonçalves, no interior do ambiente efervescente da Música Popular Angolana.
O seminarista, Antero Gonçalves, pai de Voto Gonçalves , tocava violino e órgão, uma prática que proporcionou o gosto e foi apurando a sensibilidade musical do futuro cantor. Conhecido como Tony Redding, pela rouquidão do timbre vocal, afeição e colagem, comparativa, à música do cantor norte-americano, Otis Redding, Voto Gonçalves mudou-se, em 1964, para o Bairro Cruzeiro e começou a aprendizagem do violino com jovens entusiastas que integravam, “Os rocks” e ‘Os electrónicos’’, grupos luandenses de inspiração pop/rock.
Entusiastas como, Zé Andrade, Zan, Manuel Faria de Assis e Gerónimo Belo, jovens amantes do jazz, violão e da Música Popular Brasileira, foram os seus companheiros do Bairro Cruzeiro. À época, Voto Gonçalves integrou os “Roling Star’s’’ e os “New Lover’s”, designados “Conjuntos de música moderna”, na condição de viola ritmo e baixo. Vum-Vum - pai do rock angolano e intérprete dos clássicos, “Muzangola” e “Xéxéxé Kangrima”, influenciou, pelo seu estilo dinâmico e roqueiro de estar na música, a forma de cantar de Voto Gonçalves.
Filho de Antero Gonçalves e de Maria da Conceição de Oliveira, António Jesus de Oliveira Gonçalves, Voto Gonçalves, nasceu em Luanda, Musseque Pedrosa, bairro Marçal, no dia 12 de Fevereiro de 1949.

Conjunto

Em 1969, Voto Gonçalves cumpriu o serviço militar, destacado no município da Muxima e fundou, como guitarra solo, ainda no exército colonial português, o conjunto ’’Makaku Muxima’’, com Manuelito, guitarra ritmo e baixo, Gimba, vocal, Alfredo Fute Buza, vocal, Lombinho, bate-bate, Milá, percussão, e Perinhas, dikanza, um momento que marcou a viragem de Voto Gonçalves do universo da música rock para a Música Popular Angolana, enveredando por um segmento enraizado nos valores da estética musical luandense. Embora tenha sido uma formação circunscrita aos meios de animação do exército, o conjunto, “MakaKu Muxima”, acabou por fazer apresentações fora do ambiente militar, em espaços como, Maxinde, União de S. Paulo e Ginásio, locais de recreação muito conhecidos na época colonial.

Colaboração

Depois de cumprido o serviço militar, em 1973, Voto Gonçalves colaborou com o conjunto os Kiezos, uma experiência que resultou na gravação, nos estúdios da Rádio Nacional de Angola, de temas de intervenção, que evocavam o patriotismo e a esperança de uma África melhor, como “Ngola Iami”, “Kolenu África, “Zenu Boba” e “Nga bite Mualeba”, importantes sucessos de Voto Gonçalves, que iniciam a entrada do cantor, de forma prestigiante, no universo da canção política.

Sucesso

O encontro com o conjunto os “Kiezos” marcou o início da carreira, a solo, de Voto Gonçalves com aparições em vários concertos, sobretudo na cidade de Luanda. No entanto, será na última fase de existência do agrupamento os “Merengues”, do carismático guitarrista Carlitos Vieira Dias, que Voto Gonçalves gravou uma das mais lindas canções da sua carreira, “Caminho incerto’’, da qual respigamos os seguintes versos: Nesta estrada tão longa/ Tudo parece não ter fim/ Nesta tarde chuvosa/ O tormento veio até mim/ Não é a chuva que incomoda/ Nem a estrada por ser longa/ o que dói é esta dor/ que de novo acordou/ tento fugir de tanta dor/ com este agir, nada vai mudar/ Em todo este caminho/ tudo é tão triste/ Embora eu vá sorrindo/ Embora eu siga incerto/ Porém não voltarei atrás/ Tento fugir de tanta dor/ porque você, meu bem, jamais me amará /Tento fugir de tanta dor/ com este agir, nada vai mudar, nada vai mudar...um sucesso, com letra de João de Barros e música do cantor, que coloca Voto Gonçalves na vanguarda dos grandes intérpretes da Música Popular Angolana.

Temas

O texto das canções de Voto Gonçalves abordam, na generalidade, a conflitualidade social, em “Mambos da vida”, o amor, a infância, a ousadia da juventude, a religiosidade, a memória de entes falecidos, um dos exemplos mais emblemáticos foi a homenagem à sua falecida mãe, Maria da Conceição, na canção “Mama Sessá”. O ciúme e a conflitualidade amorosa, em “NgaManico”, e o recurso à tradição, em “ Onongombe’’, um tema tradicional da região da Humpata, uma importante recolha feita no dia 19 de Março de 1979, por Voto Gonçalves.Na canção “Esperança do Amanhã’’, com letra e música de Voto Gonçalves, escrita numa linguagem referencial e directa, o compositor augura “novos tempos” para o seu país, Angola. “O passado é para esquecer porque a vida vai melhorar, vaticina o cantor. “Vendo e sentindo’’, com letra de Antero Gonçalves, pai do cantor, tem como base textual avulsas reflexões humanistas e solidárias. Quando o meu pai escreveu esta canção, estava envolvido numa atmosfera religiosa: “Pagar o mal com o bem”, amar o que se detesta e chorar pelo que se despreza, eram princípios que o meu pai defendia. Nesta altura ele tinha dezoito anos e estava no seminário, é uma singela homenagem ao meu pai”, recorda Voto Gonçalves.

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