Cultura

O homem do laboratório musical

Desconhecido de grande parte do público, é, todavia,uma das personagens mais conhecidas pelos operários da música angolana. Ilídio Brás é o mentor do Espaço Brasom, um autêntico laboratório quando o assunto é o ensaio de projectos musicais.Local de eleição para ensaios e gravação de muitos artistas angolanose estrangeiros, no Espaço Brasom já nos pudemos cruzar com estrelas mundiais como ManuDibango, Jimmy Dludlu, Tito Paris, além dos ídolos nacionais Elias DyaKimuezo, Bonga, Waldemar Bastos, Eduardo Paim, Euclides da Lomba, Paulo Flores, Afra Sound Stars, Jovens do Prenda, Eddy Tussa e tantos outros.

Fotografia: DR

As salas do espaço em referência satisfazem até as mais exigentes estrelas internacionais e têm sido igualmente preferência dos nacionais pela sua localização no Miramar, no quarteirão da Maternidade Augusto Ngangula.
O interesse pelo Espaço Brasom surgiu depois de várias idas ao local para contactar artistas e promotores culturais e da forma elogiosa como estes falavam do seuproprietário, Ilídio Brás. O show dos 25 anos de carreira de Nelo Paim,que aconteceu no Miami Beach no dia 25 de Janeiro, e muito recentemente, o concerto intimista de Carlos Lamartine, na noite da última Sexta-feira Santa, foram ocasiões em que Ilídio Brás nos foi contando a sua história.
A vivência nos frenéticos bairros Marçal e Operário foi fundamental na aproximação de Ilídio Brás ao meio músical angolano. Homem de cultura e empreendedor do ramo, desde muito cedo, ainda na raiz do seu contexto familiar, ficou ligado à música. No Marçal, os irmãos realizavam festas no conhecido Salão do Terraço, onde a presença de artistas era frequente.
Ilídio Brás, o mais novo de muitos irmãos,fica ainda mais próximo do meiomusical quando o cantor Voto Gonçalves entra para a família, ao conquistar o coraçãoda sua irmã. Voto Gonçalves tornou-se muito mais que um cunhado, chegou a fazer o papel de pai e introduziu o rapaz nos ensaios do Conjunto Sexta Cadência, que mais tarde passou a chamar-se Contacto.
Na época Voto Gonçalves, que vivia no Cruzeiro, era também conhecido por interpretar OttisRedd. Nos finais da tarde ia ao Bairro Operário para pegar o cunhadinhoe o levar aos ensaios. Dentre alguns colegas do cunhado, Ilídio Brás recorda o saudoso José Machado, Jorge Carneiro, Adriano, Nando Almeida, Rogério e Lopes, que dominavam os ambientes culturais luandenses, antes da independência.
Ilídio Brás reconhece que o 11 de Novembro de 1975 não apenas trouxe a mudança do regime politico: o campo artístico também foi afectado pelo desacelerar na produção e na actividade musical, assim como pela dificuldade de aquisição de música estrangeira. Nessa fase, mais uma vez, o kota VotoGonçalves foi determinante, quando dois anos depois da Dipanda vai a Lisboa para visitar os paise no regressotrazuma aparelhagem mono-bloco que além do rádio tinha uma parte para leitura de cassete. Com esta engenhoca aproveita as músicas que faziam sucesso nos programas radiofónicos Para-Jovem, Peça que Nós Transmitimos, e outros da Rádio Nacional de Angola, e começa a gravar cassetes musicais que serviam, numa primeira fase, para animar os ambientes familiares e mais tarde o círculo alargado dos amigos.

Oferta de sonho

Um outro momento memorável, que não quis deixar de partilhar, aconteceu quando o irmão, ligado à aviação civil, deixa o país para fazer um curso de superação. Nos dias derradeiros da formação, para agradar ao irmão em que todos reconheciam não apenas o gosto peculiar pela música, mas o interesse em arquivar e registar a mesma, solicitou-lhe que indicasse algo que lhe fosse útil e que ele pudesse adquirir para lhe ofertar. Ilídio Brás sugeriu um aparelho Sharp 300, novidade na época, com blocos separados: um gira-discos, rádio, bloco para cassetes, amplificadores e duas colunas com 35 watts de potência. Com a aparelhagem vieram discos de vinil,com destaque para o reggae que estava a conquistar a juventude com as estrelas maiores Bob Marley, Peter Tosh e Jimmy Cliff, a música cabo-verdiana com Bana, Tubarões e Tulipa Negra, e outras novidades musicais.
As responsabilidades e o reconhecimento por parte dos familiares e amigos não o fazem descansar e aposta no equipamento e no acervo, para satisfazer e agradar aos convites para festas de contribuição, aniversário, casamento e actividades de empresas estatais. Ilídio Brás lembra que nesta fase, em meados dos anos 80, um outro amigo estava no ramo, Víctor de Almeida. Este hoje evoluiu, também, para o negócio de estúdio, sala de ensaios e espaço para concertos.
É no cenário dos anos 80 que Ilídio Brás entra na génese dos primeiros dancings em Luanda, com destaque para o Paralelo 2000,com o primo Nelo. Lembra ainda o Macieira, o Bambix e outras casas que passaram a preencher o fim-de-semana e a ajudar a contornar o apertado cerco do então vigente recolher obrigatório. Ilídio Brás também cedia material, pois gravava as músicas que recebia directamente da França, Alemanha, Portugal, Inglaterra, Brasil, Jugoslávia, dentre outros pontos do globo onde possuía fornecedores. Dentre os clientes, destaca boates como o Xeque, Animatógrafo e outras que animavam o ambiente dos boémios da capital.
A música ao vivo voltou a estar presente. Voto Gonçalves, depois da passagem por várias formações, se estabelece no Semba Tropical, na altura um dos conjuntos com maior variedade de estilos. Na época era frequente a presença de artistas como Joãozinho Morgado, Botto Trindade, Candinho, Sanguito, dentre outros. Estes contactos forjaram e fortaleceram os laços de amizade. O jovem Ilídio passa a tocar nos eventos onde a música ao vivo estava a cargo do Semba Tropical e como já alugava aparelhagem de som e tinha contactos com promotores de espectáculos, numa determinada altura passou a agenciar actuações para o Semba Tropical.
Infelizmente surgiu a desintegração da formação e o aparecimento de outras, como as bandas Welwitschia, Maravilhae outras, que tentavam combater o refrear do movimento músico-cultural. A aposta na formação académica surgiu em paralelo com esta fase, mas, como o agora engenheiro sempre teve a música como hobbie, logo que teve a situação pessoal um pouco mais estável voltou a fazer o que lhe fazia ferver o sangue.
Gosta de ficar rodeado de artistas, de tal forma que deu o apoio ao filho para tocar percussão, tendo como professores, numa primeira fase, Raul Tollingas e depois o grande Joãozinho Morgado. Hoje, para sua satisfação, o filho Bucho é considerado um dos poucos que bebeu directamente dos mestres dos tambores.

Tributo aos mestres

Em 2007 Ilídio Brás faz um tributo a Joãozinho Morgado no Centro Recreativo e Cultural Kilamba, que resultou na edição de um DVD e proporcionou um encontro de gerações, onde os então emergentes Yuri da Cunha, Matias Damásio e Ary partilharam experiências e momentos inolvidáveis com André Mingas, Carlos Burity, Voto Gonçalves e experientes instrumentistas.
O promotor tem um projecto na forja que consiste na produção de um CD e um DVD da cantora Garda, uma pioneira da música angolana.
O homem que já promoveu concertos intimistas, no Espaço Brasom, de Dionisio Rocha, Robertinho, Teddy (com guitarras de ouro) e Carlos Lamartine, foi também o produtor do concerto dos 25 anos de carreira de Nelo Paim, no Miami Beach.
Ilidio Brásdiz estar aberto a iniciativas de outros, como aconteceu com um leque de vozes femininas que cantaram temas nacionais com arranjos de Jazz, numa proposta de Afrikkanitha. O espaço, onde numa sala podemos encontrar gente ligada ao Show do Mês, Duetos N’Avenida, Jovens do Prenda eTito Paris, dentre outras figuras, projectos e iniciativas que optam por ensaiar lá, foi aproveitado para um encontro, ornamentado com muita feijoada, de artistas e entusiastas da música angolana. O próximo evento,muito provavelmente, será um encontro em palcode dois mestres da dicanza: Zé Fininho e Raúl Tollingas.
Enfim, este é o retrato possível de Ilídio Brás, um engenheiro da Sonangol que tem, quase permanentemente, encontro marcado com a música e os seus fazedores. Apesar do não reconhecimento pelas autoridades ligadas ao Ministério da Cultura, o homem afirma que a sua maior satisfação tem sido o reconhecimento a confiança dos artistas.

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