Cultura

O show que não foi visto

Analtino Santos

O show, que de acordo com a produção visava celebrar os 28 anos de carreira de um grupo que não está no activo há uma década, aliás esse facto esteve na base de uma das grandes polémicas que antecedeu o mesmo, proporcionou um olhar para alguns aspectos do nosso incipiente showbiz e ao programa dos agentes com responsabilidades nas actividades culturais em datas de celebração nacional.

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

A produção do concerto foi inteligente, ao escolher o 4 de Abril como a data de realização, celebrando assim o feriado dedicado ao Dia Paz e Reconciliação Nacional, enquanto os agentes oficiais e outros produtores tiraram proveito do feriadão para descansar.
Um outro feito é que conseguiram reunir na Baía de Luanda uma das maiores assistências públicas dos últimos anos, tendo contribuído para isso ingressos com preços populares, muito aquém dos habituais valores monetários que às vezes superam o salário mínimo nacional,
Uma marca como os SSP, sem actividade regular e notória, conseguiu mobilizar apoios e fazer uma campanha de marketing que estrelas, ou seja marcas, no activo não fazem ao ficar no conforto dos concertos chiques.
Isto ajuda a repensar o nosso entretenimento. Também podemos nos ater à forma como os SSP, nesta época de novos paradigmas, mobiliza empresas privadas e alguns serviços públicos, quando as nossas autoridades ligadas à cultura nem mesmo para a maior festa popular, o carnaval, consegue reunir a plenitude dos apoios pretendidos. Fazendo recurso a um“olhar com olhos de café” enxergaremos que grande parte das empresas potencialmente patrocinadoras são de marimbondos que hipocritamente dizem apoiar a cultura, quando na verdade serviram-se sempre dela para engrossar as suas contas bancárias.

Outras leituras

O facto do concerto ter sido transmitido em directo no canal público de televisão também levantou algumas inquietações entre muitos contribuintes, pelo facto de outros eventos de real interesse público não mobilizarem tantos meios de cobertura mediática e não merecerem mesmo tal honra. No mesmo dia, o acto oficial do Dia da Paz e da Reconciliação Nacional não esteve na agenda da transmissão em directo.
Os SSP, grupo que marca várias gerações, tem em Big Nelo um exemplo no que concerne à arte de gerir uma carreira. São muitas as qualidades deste músico, mas ressaltamos aqui o seu lado camaleónico, que em diferentes fases do seu trajecto o põe a fazer alianças oportunísticas mas altamente rentáveis com outros músicos, tudo isso potenciado com o uso de jargões facilmente assimiláveis pelo grande público.
Este foi o olhar para as rimas que não foram cantadas, muito menos exploradas, num concerto que valeu muito mais pela emoção do que pela performance dos quarentões com pinta de putos. O grupo SSP, durante duas horas, actuou a solo e partilhou o palco com outros artistas, com o suporte da banda MozAngola, uma formação que reúne moçambicanos e angolanos.
Os nosss votos são que nos feriados e ou momentos de celebração nacional artistas, autoridades e promotores façam espectáculos de massas com preços acessíveis, seguindo o exemplo dos SSP.

 

 

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