O abstracto sobre o "Concreto" de Sérgio Brazão

Vladimir Prata | Namibe
17 de Maio, 2016

Fotografia: Franco Kiala | Namibe

“Concreto”, a exposição fotográfica de Sérgio Brazão, aberta ao público sexta-feira última, na cidade do Namibe, e que está patente até ao próximo dia 19 do mês corrente, marca o início de uma série de manifestações periódicas que o núcleo experimental Just In Case.

Labo pretende levar a cabo em prol das artes contemporâneas.
A amostra é apenas o extracto de uma colecção de mais de 40 fotografias criteriosamente seleccionadas pelo curador Carlos Major e que foram feitas em um edifício em construção numa das artérias da capital da província que ostenta o deserto mais antigo do mundo e um portentoso mar com praias paradisíacas.
Ou seja, Sérgio Brazão podia ter milhares de opções para explorar a sua veia artística e o olhar clínico sob a sua objectiva, mas escolheu “infiltrar-se” numa obra para perceber o que há de belo sobre o betão armado, bruto e ainda cru.
Fotografar concretos não é, porém, uma corrente nova na arte de captar imagens. Carlos major faz referência à revista “Concrete Concept”, uma publicação mundial que documenta um conjunto de edifícios brutalistas construídos com este tipo de material e que certamente serviu de aporte para Sérgio Brazão.
“Contempla os estáticos labirintos concretos duma elevação arquitectónica, em pleno centro urbano, apoiada e fixada num terreno arenoso sem qualquer excepção rochosa. Sérgio rodeia-a, com o único fim de explorar e obter sucessivamente imagens baseadas nos cenários ocasionais abandonados pelos operários e técnicos, criando a brutalist urban picture”, escreve o curador.
Mas   fotógrafo Sérgio Brazão vai muito além do concreto. O artista procura dar uma beleza que para muitos pode não existir, nem nas cores mortas, nem tão-pouco nas luzes baixas que as suas fotografias apresentam. A primeira impressão que deixa é a de que se está diante de uma série de imagens sem sentido, ou talvez com sentido abstracto, de difícil percepção. De repente, o expectador mais atento vê-se diante de um puzzle, tal é a forma como decidiu montar os fragmentos fotografados. Daí o convite a sentar-se e apreciar com profundidade, para que cada um descubra, por si mesmo, o que de belo há num certo abstracto sobre o concreto.
“Fintar a luz e deixar o disforme edifício ser a fonte inspiradora, com a acumulação, intervenção, relação, atitudes e comportamentos de pessoas, materiais e de máquinas. Serpenteando o Concreto, do espaço térreo ao terraço, recolhe fotografias de situações que propõem a questionar o valor estético-imobiliário destas imagens que traduzem a solidez do edifício”, refere ainda o curador.
As imagens captadas pelo artista foram rapidamente percebidas como um projecto bastante específico e com fluidez. Carlos Major que se encontra à frente do movimento experimental Just In Case.Labo decidiu então arrancar o seu projecto que visa dinamizar a arte contemporânea com o trabalho de Sérgio Brazão, e de forma inteligente e subtil concebeu a exposição “Concreto” que, segundo fez saber, deverá percorrer outros centros urbanos nacionais e estrangeiros.
O núcleo Just In Case.Labo pretende ser uma plataforma móvel de artes visuais, designer e arquitectura, que se desloca regularmente para diferentes e extensivas intervenções urbanas, invocando residências artísticas, com manifestações periódicas individuais e colectivas, colaborando com instituições públicas e privadas, coleccionadores, museus, galerias e empresas. 

Perfil do artista


Eduardo Sérgio Dolbeth e Costa da Silva Brazão nasceu no Namibe, em 1970, onde vive e trabalha como fotógrafo freelancer. Começou a fazer fotografias artísticas no princípio dos anos 80, inicialmente com uma Yashica que herdara do pai, com o obturador avariado mas que acabou concertando, depois com uma Olympus que despertou nele o fascínio pelo retrato humano e paisagístico, com preferência por natureza morta.
Mais tarde  trabalhou como repórter de fotografia de automobilismo, motocrosse e karting. Também fotografou eventos recreativos, culturais e moda. De 1994 a 2013, trabalhou como fotógrafo para o arquivo da Direcção Provincial do Namibe da Cultura.
Tem forte experiência em técnica de laboratório fotográfico. Actualmente, trabalha para a pesquisa Mussungo Bitoto, sobre arte contemporânea Mbali, para o Museu Provincial do Namibe.
Sobre Sérgio Brazão, escreve Carlos Major: “Criou fascínio pelo retrato humano e paisagístico, com preferência por natureza morta. Anteriores experiências orgânicas tornaram-se reflexo do Concreto (Cimento).
Entre a oportunidade da ocasião à evolução cénica, das estruturas em betão, cuja intromissão, escapadelas e feixes de luz equivocam cada instante, é a matriz que Sérgio Brazão, enriqueceu nas suas pesquisas e nos exibe com o intuito de influenciar “opinion makers”, a observar beleza na robustez do crescimento dum edifício.”

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