O poeta da esperança das Ilhas


26 de Julho, 2015

Fotografia: Lusa | Direitos reservados

A União dos Escritores Angolanos (UEA) apresentou aos familiares e escritores de Cabo Verde as mais sentidas condolências pela morte do poeta, intelectual e diplomata cabo-verdiano Corsino Fortes, ocorrida sexta-feira na sua terra-natal, a cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, aos 82 anos.

Corsino Fortes vai ser sepultado com honras oficiais e a bandeira de Cabo Verde foi colocada a meia-haste durante dois dias em todo o país, anunciou o primeiro-ministro José Maria Neves.
Foi “um homem bom, poeta singular com lugar de destaque na literatura cabo-verdiana, poeta de pão e de fonema, foi meu professor de português no primeiro ano dos liceus, na Praia, ímpar, um amigo em todas as circunstâncias”, disse o Presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca.
“Corsino Fortes era um homem plural e, parafraseando o poeta, poderia dizer que ‘Morreram Corsino Fortes’, um poeta, um grande intelectual e um grande criador, governante, diplomata, empresário, magistrado, Combatente da Liberdade da Pátria. Um homem de uma elevada estatura moral e política, um patriota, com uma grande generosidade e um grande amor por Cabo Verde e um homem muito elegante que deu um contributo enorme para Cabo Verde, mas silenciaram-se os sinos,  nascem novas luzes que hão-de alumiar-nos os caminhos do futuro para realizarmos os sonhos do poeta que é ver um Cabo Verde moderno, desenvolvido. Um Cabo Verde onde todas e todos vivem com dignidade”, afirmou Carlos Fonseca.
O Ministério das Relações Exteriores de Cabo Verde enalteceu ontem as qualidades de Corsino Fortes  como diplomata “de primeira hora”, salientando que o poeta soube representar o país “com raro garbo e brilhantismo”.
“Corsino Fortes, diplomata de primeira hora de Cabo Verde, soube representar com raro garbo e brilhantismo o nosso país como um dos seus primeiros Embaixadores, em especial em Portugal onde foi o primeiro Chefe da nossa Missão Diplomática”, recordou em comunicado o ministro cabo-verdiano das Relações Exteriores, Jorge Tolentino.
Corsino Fortes faleceu dois dias depois do lançamento do seu último livro “Sinos de Silêncio – Canções e Haicais”. O poeta é um dos maiores nomes da literatura lusófona e cabo-verdiana em particular, com a sua trilogia “Pão e Fonema” (1974), “Árvore e Tambor” (1986) e “Pedras de Sol & Substância”.
No passado dia 6 de Julho, no âmbito das comemorações do 40.º aniversário da Independência, foi-lhe atribuído pela Academia Cabo-Verdiana de Letras o Grande Prémio Literário Vida e Obra.
O poeta nasceu em 1933, tendo ficado órfão, sem meios para frequentar a escola, pelo que foi trabalhar como aprendiz e ajudante de ferreiro e, mais tarde, como ajustador de máquinas. Mesmo sem ir à escola, Corsino Fortes era leitor assíduo, frequentador da biblioteca municipal.
Em 1961 embarcou para Lisboa, onde estudou Direito. Foi na Casa dos Estudantes do Império (CEI) que bebeu nas tertúlias literárias e culturais os conceitos sobre a emancipação dos povos coloniais.
Completou o curso superior em 1966 e exerceu cargos jurídicos em Angola. Após a Revolução dos Cravos em 1974 em Portugal, Corsino assumiu a representação do PAIGC em Angola, entre 1974 e 1975, e depois a de embaixador de Cabo Verde na pátria de Agostinho Neto.
Presidiu à Associação dos Escritores de Cabo Verde entre 2003 e 2006. Considerado por muitos críticos o maior poeta das Ilhas, príncipe ou poeta maior de Cabo Verde, Corsino Fortes mudou o ângulo de abordagem da estrutura temática da literatura com a introdução de elementos simbólicos do universo insular, projectando o sujeito de esperança contra o das migrações. Corsino foi para os utilizadores da língua portuguesa um configurador da memória colectiva de um grupo, pelo uso marcante de uma linguagem da consciência histórica, fruto da independência do povo de Cabo Verde.

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