Cultura

O prémio Sagrada Esperança

Jomo Fortunato |

Na cerimónia de entrega do Prémio, realizada quarta-feira, a Secretária de Estado da Cultura, Maria da Piedade de Jesus, realçou, no seu discurso, a importância da distinção nos seguintes termos:

Capa da obra vencedora da edição 2016 do Prémio Literário Sagrada Esperança em homenagem ao primeiro Presidente da República António Agostinho Neto
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

“O Prémio Literário Sagrada Esperança, instituído pelo Ministério da Cultura, através do Instituto Nacional das Industriais Culturais, na década de 80, está inserido nas acções do Programa do Ministério da Cultura no domínio do incentivo à criação literária e do gosto pelo livro, propósitos inscritos na Política Cultural Angolana.  Desde a sua criação tem-se concretizado, em nosso entender, a publicação de obras que no conjunto transmitem uma nova vaga de legitimação discursiva, a promoção e a reprodução do imaginário cultural angolano, o que valoriza e engrandece a literatura nacional. A atenção que se deve dar ao livro enquanto veículo de aquisição de informação e de cultura, assim como as suas diversas manifestações culturais, tais como prémios literários, têm sido referenciadas pelo Titular do Poder Executivo. Daí a necessidade do renovado compromisso em trabalhar com os sectores  da sociedade, cuja actividade está intrinsecamente ligada ao livro, com vista a caminharmos de mãos dadas no sentido de reforçar o sentimento nacional, neste e nos outros domínios da cultura das “mentes”, parafraseando Sua Excelência Presidente da República no discurso sobre o Estado da Nação.”
O prémio literário Sagrada Esperança, promovido pelo Ministério da Cultura, através do Instituto Nacional das Industriais Culturais, e pelaFundação Dr. António Agostinho Neto, com apoio do Banco Caixa Geral Angola,foi instituído em 1980, em homenagem ao primeiro Presidente de Angola, evisa incentivar a criação literária entre os autores nacionais, desencadear, de forma sistemática, uma nova vaga de legitimação discursiva para o conhecimento, consolidação e defesa da angolanidade.
O Prémio Literário Sagrada Esperança integra os géneros romance, novela, conto, poesia, dramaturgia, ensaio e crónica, e substituiu o concurso “Camarada Presidente”, que compreendia os géneros poesia, prosa e teatro, lê-se no regulamento.
Entre os seus objectivos consta ainda a promoção dos valores literários inerentes a produção e a reprodução do imaginário cultural das comunidades sócio culturais que constituem o povo angolano e identidade cultural angolana, promovendo  o enriquecimento do universo simbólico e do imaginário da língua portuguesa através do discurso literário. 
No fim do texto de apresentação do livro, António Fonseca, membro do júri, argumentou o seguinte: “esta obra do Alberto de Oliveira Pinto, para lá do que já foi dito, virá ajudar a “separar as águas” entre a literatura angolana e a literatura colonial, sendo por isso um instrumento precioso para aqueles que virão a escrever a História da Literatura Angolana, assim como para aqueles que terão a seu cargo no futuro escrever a História de Angola, com todo o rigor que se impõe, do mesmo modo que permitirá iluminar as mentes quanto à Nação Angolana em cujos fundamentos se encontram a nossa história e a nossa cultura, cuja diversidade é como a dos afluentesque fazem a força do Rio Kwanza”.

Temas
No seu texto de apresentação do livro “Imaginários da História Cultural de Angola”de Alberto Oliveira Pinto, António Fonseca, refere-se às diferentes abordagens do livro: “trata-se de um conjunto de abordagens, um conjunto de textos que, percorrendo a história do esclavagismo e as influências angolanas para lá do Atlântico recuperadas para a literatura, com incidência no que o autor designa como “imaginários românticos”, assim como as inequívocas influências brasileiras na História de Angola e na sua literatura, desde o romance precursor “Scenas de África”, de Pedro Félix Machado, a Luandino Vieira, cujas influências de Guimarães Rosa são evidentes, passando por outras influências e outros autores, percorrendo ciclos da história do Kongo, a que se associa a enigmática e problemática figura de Luís Lopes Sequeira, associado à batalha de Mpungu-a-Ndongo, à campanha do Libolo e, à mais referenciada,  à célebre Batalha de Ambwila, de 1665, de que no final fica como facto histórico a decapitação do Rei do Kongo e o início da ocupação efectiva do espaço que viria a ficar integrado no chamado “Congo Português”, percorrendo o Corredor do Kwanza, em que o autor nos dá informações históricas importantes e se detém sobre o percurso biográfico de Mwen’Exi Njinga Mbande, a nossa querida Rainha Njinga Mbande, importa dizer que Mwen’Exi é a designação dos titulares máximos do poder no contexto de língua kimbundo, dizíamos, e se detém sobre o percurso biográfico de Mwen’Exi Njinga Mbande.”

Teses
A par dos temas já enunciados, o autor, ainda segundo António Fonseca, “remete-nos igualmente para contradições e mistificações quer do processo colonial, quer da luta de libertação nacional, que do processo pós-colonial de Angola, quer para algumas questões candentes que povoam o nosso imaginário e provocam acesas discussões nos nossos dias, nomeadamente as teses da “crioulidade” e do “luso-tropicalismo” que, a par das novas correntes , “autóctonistas” e da chamada “Angola profunda”, parecem querer fazer morada entre nós, contraditoriamente, no país independente.
Sendo embora discordante quanto à exclusão de Alfredo Trony da Literatura Angolana, para situá-lo na literatura colonial, por semelhança a de “Scenas d’África”, por  ter sido usada como veículo de propaganda colonial”.

  Aspectos pertinentes do prefácio de Irene Alexandra Neto

Irene Alexandra Neto, filha do Primeiro Presidente de Angola, escreveu o prefácio da obra “Imaginários da História Cultural de Angola” de Alberto Oliveira Pinto, datado de Maio de 2017, que, pela pertinência e correcção de imprecisões históricas, reproduzimos um extracto:
“A tarefa não me foi fácil dada a proximidade real e imaginária aos protagonistas citados, mas também em função da simpatia e admiração que nutro pela obra do Prof. Alberto Oliveira Pinto, tal não me impedindo de divergir de algumas das suas reflexões.
Não farei uma crítica literária nem política a um dos livros escolhidos para representar os imaginários nacionalistas mas permitir-me-ei ser congruente. É assim que evidencio a falta de precisão na ficcionalização da nossa realidade histórica pelo Prof. Manuel dos Santos Lima, na citada “Os anões e os mendigos”. Manuel dos Santos Lima foi o primeiro-oficial negro do exército português.
Desertou para lutar pela independência de Angola, inserido no MPLA, de 1961 a 1963. Em 1963, desentendeu-se com a liderança de Agostinho Neto e deixou o MPLA. Entendo algumas das dúvidas relativas ao nosso passado recente mas não concordo com as esclavagistas e hieráticas penitências que nos impedem de considerar, ainda hoje, os africanos como seres capazes. Simplesmente capazes”.

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