Cultura

O showman e o saxofonista: charme e história em palco

Matadi Makola

Ao vê-los em palco, quase todos ficam boquiabertos quando se lembram que Dibango é um jovem de “apenas” 85 anos e Bonga é um kandengue de “somente” 76 anos.“Estamos juntos há muito tempo e foi a França que nos abriu para o mundo. Participei no álbum dele ‘Wakafrica’ e já fizemos de tudo juntos, até música para cinema, [trabalho] de que fomos bem pagos”,resumiu Bonga.    

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

A condição informal de ser “embaixador da música angolana” foi bem expressa em 2015 pelo “kandengue atrevido” Yuri da Cunha, que então não se poupou de emoção ao entoar um tributo a que intitulou “Obrigado, Kota Bonga”, incluído no seu álbum de originais “O Intérprete”. 

Em meados daquele mesmo ano o Coliseu de Lisboa testemunhou, numa actuação ao vivo, com Bonga em palco, Yuri da Cunha a ditar em verso: “…faz o estrangeiro admirar o meu semba de natureza…”

Bonga, comovido, a estampar um largo sorriso, ora acenava para o público ora levava a mão ao coração, visivelmente rendido ao canto de Yuri, que, já terminada a música, enfatizou: “Ao mestre, eu desejo muita saúde e muita paz. Que os nossos filhos possam consumir Bonga”.

Ao vivo, Bonga transmite essa intemporalidade na sua música, mas é a sua performance, de garantido showman, que aviva ainda mais o carinho do público por ele.

A noite no Centro de Conferências de Belas (30-12-18) ficou marcada exactamente por um Bonga a quem recai na plenitude o título de “o grande showman da nossa praça”. Em palco, Bonga não só reaviva memórias da pedagogia dos musseques do seu tempo, sintetizada no seu slogan “etu mu dietu” (entre nós), como contrasta o que analisa ser o cúmulo da presunção na suposta etiqueta da frase “Sou gente de boas famílias”. 

Numa vertente de crítica de costumes, de dikanza em punho, com a banda a tocar algo ao fundo, Bonga pensa em voz alta dirigindo-se à plateia: “Mas afinal, o que é isso de vir das boas famílias? O que quer dizer? Que é mais fino? Que tira mais do que os outros?”, pra grande risada do público. 

Por outro lado, um pouco a denunciar mais o homem que o artista, prova ser um justiceiro ao reagir com um sorriso e um cordial “Muito obrigado” quando alguém lhe tece rasgados elogios, mas jamais tolera que as pessoas chamem simplesmente Betinho Feijó, nem mesmo os jornalistas. Mal ouve, não importa o que esteja a fazer, pára para rectificar: “Não, não, não! Não é assim! É professor Betinho Feijó!”.

Também traz a fina análise na ponta da língua, e sobre a condição “frentex” das mulheres, brinca: “As mulheres estão tão à frente que já não cantam ‘o caombo é que pica’. Elas cantam já ‘aonde é que pica, aonde é que pica’”, para delírio das mulheres no CCB, tanto que umas lacrimejaram de tanto rir. 

A dikanza, sua marca, foi reverenciada pelo público no registo “Mona Ki Ngi Xica”, quando Bonga usou toda a poesia nostálgica do seu poderoso dom de criar onomatopeias. Elevado, de olhos fechados, beiço esticado, agarrado à dikanza, Bonga fez a sua melhor imagem da noite. Sem outra opção, ao público só restava levantar-se e agradecer em pé. 

O showman fez de tudo, até lançou um desafio a quem, da plateia, não se continha de tanta emoção e gritou: “O maioral”, e Bonga, em tom de gozação, respondeu-lhe: “Mas quem é esse aí?! Se estivesses na minha pele, hoje, aqui no palco, não irias conseguir de tanto teketar”, para mais risada do público, e claro está, mais palmas.

Aliás, dado que tinha junto de si as congas, aproveitou o momento para dar um recado a um jornalista que se entusiasmou por nunca o ter visto a tocar congas e debitou a frase que não caiu bem ao artista e que teve o direito de ser reproduzida no momento, com toda a carga de ironia jocosa que lhe é característica: “Ele deu o ar da sua graça tocando batuques”, escrevera o articulista. “Eh! Eu fiquei bwé admirado!”, dizia Bonga, para outra grande risada do público. 

Obviamente, ao revelar a sua relação com a dikanza, era certo que chegaria a Euclides de Fontes Pereira “Fontinhas”, a quem dedica uma música no álbum “Hora Kota”, raiando-lhe o verso “…Na Liga Nacional, uma fonte genial…”

Se semba e kimbundu são sinónimos, Bonga puxou logo o exemplo de Cesária Évora na consistente defesa da sua identidade. “Grande mulher, exigia tradutor para o seu crioulo, sinal de grande respeito à sua língua. E dizia que Cabo Verde não tem arranha-céus mas tem mar e morna”. 

Entretanto, ao voltar ao semba, partilhou com os presentes o caricato episódio de ter tocado em grandes paradas americanas e, decerto por insuficiência de informação, houve quem insistisse em cunhá-lo: “This is the blues”. Bonga largava, segundo o próprio, um “muxoxo estaladiço”, e só depois respondia: “Não é bem assim. Isto é semba. E o semba já existia antes da América ser América”, levantando a possibilidade de que é historicamente  aceitável que o blues possaser semba e não o semba ser blues. 

Por um dia ter dito, ao actuar no palco do Muzongué da Tradição, a sumptuosa frase de que “o semba é uma maneira filosófica de ser e de  estar”, desta vez, provocado pelo autor destas linhas, tendo em vista que está a ser congeminada a intenção de propor o semba a património imaterial da humanidade, determinou: “Lancei um apelo a todos nós, responsáveis, sobre o que devemos fazer para que o semba esteja vivo e connosco. Daí, sendo angolano, é responsabilidade de todos mantê-lo vivo, prioritariamente os artistas, dado que são eles que o executam”. 

“O Maioral”, como uma vez o intitulou João Paulo Ganga, trouxe no repertório da sua actuação no CCB o registo “Marimbondo”, que causou uma pequena agitação na plateia, num misto de risos e comentários. Bonga disse: “Essa expressão ganhou outra vida pela boca do Presidente da República, João Lourenço. Porque o povo gosta dele, quase tudo que ele manifesta tem peso na balança”, e acrescentou: “Eu fui picado por alguns marimbondos, aqui mesmo em Luanda, quando tinha cajueiros, coqueiros, imbondeiros”, para grande risada da plateia. 

 

Dibango, o charmoso

Dibango é também conhecido como o “Leão de África”. Mas a sua dose acentuada de charme desperta atenção da mídia cor de rosa, que muitas vezes o coloca na posição de ser um homem bastante atraente. De trato simples, um relógio, um anel doirado, os seus inseparáveis óculos, uma camisa feita de pano africano e uma segura voz que impõe ordem. Os seus movimentos denunciam uma certa solenidade principesca, raramente são bruscos e improvisados. 

Está em palco com o à-vontade de quem está na sala da sua casa a ver televisão calmamente, livre das tribulações do dia-a-dia. Não força o público a aceitá-lo, nem demonstra fazer um esforço em agradar o público. Com ele parece ser tudo natural.

“Papa Groove” tinha apenas aquecido a plateia. Seguiram-se “Doula Serenade”, “Perfum des Iles”, “Soma Loba”, “Argentina”, “Oh! Koh!” e a sua “indefensável” “Soul Makossa”. 

 

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