Obras roubadas criam nova polémica


5 de Novembro, 2014

Fotografia: Divulgação

O actual presidente do Congresso Mundial Judaico, Ronald Lauder, pediu ao Kunstmuseum de Berna para não aceitar “a herança artística” de Cornelius Gurlitt, filho de um negociante de arte que colaborou com os nazis.

Cornelius Gurlitt escondia em casa centenas de obras de alguns dos maiores nomes da arte que, apesar da sua morte em Maio, aos 81 anos, não são exibidas em público, pois quem o fizer corre o risco de ser processados judicialmente. 
O presidente do Congresso Mundial Judaico disse ao jornal alemão “Der Spiegel” que receber as mais de mil obras de arte de autoria de Pablo Picasso, Claude Monet ou Henri Matisse “pode desencadear uma avalanche” entre os potenciais herdeiros espoliados, pois a proveniência dos quadros não está devidamente esclarecida.
“O museu prejudica-se a si e às pessoas de Berna se aceitar estas pinturas”, alertou Ronald Lauder, que referiu que se isso suceder passa a ser “um museu de arte roubada”. Ronald Lauder, que deu uma entrevista conjunta com a ministra da Cultura da Alemanha, Monika Grütters, pediu ao Governo deste país que promova numa investigação às obras de arte roubadas aos judeus pelos nazis, especialmente as que fazem parte de colecções de museus. “É importante que se encontrem os seus herdeiros legítimos”, salientou.
Monika Grütters disse que o Governo alemão está já em contacto com o Kunstmuseum de Berna, o mais antigo museu da Suíça e escolhido por Cornelius Gurlitt para acolher a colecção de arte que escondeu durante anos em sua casa.
“Estou convencida de que chegamos a uma solução boa e razoável”, disse o responsável.
No ano passado as autoridades alemãs descobriram, na cidade de Munique, no apartamento de Cornelius Gurlitt,mais de 1.400 obras de arte, entre as quais de Henri Matisse, Marc Chagall, Paul Klee, Picasso, Otto Dix, Emil Nolde, Albrecht Dürer, Pierre-Auguste Renoir e Canalletto.
Depois disto, as autoridades descobriram que Gurlitt, filho de Hildebrand Gurlitt, famoso historiador e negociante de arte que ajudou o regime nazi a vender no estrangeiro obras confiscadas aos museus europeus e extorquida aos coleccionadores judeus, escondia ainda mais obras noutro apartamento, em Salzburgo, Áustria.
Inicialmente foram descobertas 60 obras, mas, em comunicado, o advogado do alemão revelou haver mais 238 escondidas no mesmo local. Depois de ter demonstrado pouca vontade em devolver estas obras, Cornelius Gurlitt, que morreu em Maio, criou um site para contar toda a história das peças “para de alguma forma permitir que os possíveis lesados as encontrassem.
Cornelius Gurlitt estabeleceu um acordo judicial com o Governo alemão, pelo qual se comprometia a ajudar a identificar e devolver os quadros aos legítimos herdeiros. Em contrapartida, as autoridades acederam em devolver-lhe parte da colecção que o pai adquirira legalmente.
Uma equipa de especialistas nomeada pelo Governo alemão e pelas autoridades bávaras já concluíra que pelo menos 380 pinturas tinham sido saqueadas pelos nazis.
Outras obras foram entretanto reclamadas e por isso a colecção doada ao museu de Berna já não é a mesma que foi encontrada.
A direcção do Kunstmuseum ainda não comentou às declarações de Ronald Lauder, mas quando em Maio soube que Cornelius Gurlitt doara a colecção ao museu, reagiu com surpresa.
Na altura, a direcção do museu informou que estava surpreendida com a decisão e garantiu que “nunca, em qualquer momento, manteve qualquer relação" com o coleccionador alemão.
A instituição museológica chegou a reconhecer ainda que este legado, cujo valor, segundo os especialistas alemães, pode atingir os mil milhões de euros, “coloca um conjunto de questões espinhosas, nomeadamente de natureza jurídica e ética".
O caso do coleccionador Cornelius Gurlitt relançou o debate sobre a restituição de obras retiradas aos judeus durante o regime do III Reich.
A Alemanha assinou a Declaração de Washington, em dezembro de 1998, na qual 44 países se comprometeram a detectar e restituir as obras de artes que foram apropriadas pelo regime nazi.

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