Cultura

Oratória e rigor metodológico na poesia de Bendinho Freitas

Jomo Fortunato

O Memorial Dr. António Agostinho Neto  inaugurou, quarta-feira última, no âmbito da programação cultural do primeiro semestre de 2018 , o projecto “Textualidades, conversa com leitores”, espaço de tertúlia entre autores e leitores, em que já estão agendados  os poetas João Tala, próximo dia 30 de Março, Lopito Feijó, 27 de Abril,  João Maimona, 25 de Maio,  e Amélia Dalomba, a 29 de Junho, escritora que encerra, no primeiro semestre, o ciclo “Textualidades”.

Escritor Bendinho Freitas abriu o programa “Textualidades, conversa com leitores” no Memorial Dr. António Agostinho Neto
Fotografia: Paulo Mulaza|Edições Novembro

O projecto “Textualidades, conversa com leitores”pretende motivar, igualmente, a aparição de novos actores no processo de comunicação literária, criando um espaço de tertúlia, onde os autores desmitificam a sua imagem perante os que querem saber mais sobre o percurso literário, conteúdo das obras e processo criativo dos escritores, na sua relação com os leitores reais ou virtuais.
Segundo Bendinho Freitas, “A pitoresca etnia das palavras”, poesia, UEA, 2016, obra central do debate, “é reflexo de uma produção artística elaborada entre o período da guerra civil e o pós-guerra, 1995 a 2010. No entanto o poema “Lema”, denuncia o estilo inicial do autor, ou seja, muitos dos poemas não perderam a actualidade, apesar do período em que foram escritos. Embora exista uma heterogeneidade temática, há um destaque para o erotismo, humanismo, amor sensual versus amor pelo seu país, consubstanciado na paixão pelo seu povo e valorização das belezas naturais de Angola”.
Em relação ao uso da linguagem, Bendinho Freitas é peremptório, “Na poesia que faço, não tento ser arauto da pureza ou vernaculidade da língua, pois, às vezes, transgrido a norma da língua com o uso de estrangeirismos, sobretudo em frases já assimiladas pela língua portuguesa, e neologismos.

Apresentação
As palavras em línguas nacionais ou próprias do português de Angola, constituem elementos que contrariam o princípio da pureza nos meus textos poéticos. Socorro-me muitas vezes da unidade, clareza, concisão no uso da linguagem metafórica”.
A oratória e rigor metodológico a que nos referimos no título, referem-se  à forma  como o poeta Bendinho Freitas estruturou a sua apresentação, cativando o público com uma linguagem simples, mas não “simplista”, o que revelou um domínio da complexidade da sua obra.   Aliás, entendemos “a simplicidade como sendo o controlo da complexidade”, ou seja, não é simples quem quer. A simplicidade é apanágio de poucos artífices da palavra. Na sua apresentação, Bendinho Freitas começou por uma abordagem geral sobre o seu livro, o percurso da  produção criativa, breves rasgos sobre a nota do autor, as faculdades estéticas dos textos propostos, as funções exercidas pelos poemas, a qualidade da linguagem e dos versos, musicalidade, características que se destacam nos textos em função da tipologia poética e o estilo individual do autor versus estilo de época.

Musicalidade
Em relação à melodia dos versos, Bendinho Freitas tenta buscar um variado e agradável encadeamento de sons, resultantes do número, escolha e boa colocação de palavras, adoptando suavidade e variedade. O poeta evita as dissonâncias, junção de duas ou mais palavras que resulta em cacofonia, hiato ou monotonia.
O ritmo é um outro elemento que o poeta procura incutir nos seus textos literários, ou seja, investe na justa medida e proporção das partes do verso, resultando num andamento regular. Outro recurso é a harmonia, concordância da sonoridade das palavras com a coisa, ideias e sentimentos a que se referem. Resumindo, há uma ênfase na expressão, linguagem conotativa, pessoal e emotiva, recriação da realidade e ambiguidade, entendida como recurso criativo. “A minha poesia, em versos livres, não se dissocia do meio em que vivo, dos meus antepassados e dos poetas actuais, bem como da poesia mundial, características comuns em obras de muitos autores contemporâneos”, remata o poeta, que revela influências da poesia de João Maimona, Ana Paula Tavares, Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Ernesto Lara Filho.


Autor
Filho de Samuel Eduardo e de Sofia Miguel, Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu no dia 25 de Maio de 1971, em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da UAN, Universidade Agostinho Neto, leccionou história em algumas escolas secundárias e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário, em Luanda . Funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos, com passagem pelos sectores da construção e comércio, Bendinho Freitas publicou o livro “ A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016. Em 2000, publicou, para além de poesia, “Crónica da agonia imprevista” e “Tchifole, o menino dos olhos cor da noite”, vítima da guerra civil ocorrida em Angola, no extinto Suplemento Vida Cultural do Jornal de Angola.  

“Limar para uma poesia de incontinências” de Xosé Lois Garcia

“Limar para uma poesia de incontinências”é o título do prefácio de Xosé Lois Garcia, prestigiado poeta e ensaísta espanhol, que escreve , a dado passo, oseguinte:
 “Por vontade de Bendinho Freitas, o poeta brasileiro Manuel Bandeira irrompe neste poemário com três versos que enquadram a linearidade formal e estética que o poeta angolano recolhe do famoso poema de Bandeira, “Poética”, e que encontramos no seu livro “Libertinagem”, uma espécie de manifesto e advertência com que modulou o vital do  chamado  Modernismo  brasileiro.  Bendinho Freitas faz  seu,  o  primórdio  para anunciar um novo ditame para a poesia angolana, ao destacar estes versos de Manuel Bandeira: Estou farto do lirismo comedido/do lirismo bem comportado (…) Quero antes o lirismo dos loucos. 
Um intróito muito activo para advertir-nos das propostas que encontraremos depois. Neste poema de Bandeira avisa-se de outros temários poéticos, ao dizer: “Estou farto do lirismo namorador/Político Raquítico/Sifilítico… para terminar: “Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbedos/ o lirismo difícil e pungente dos bêbedos/ o lirismo dos clowns de Shakespeare”. A afinidade de Freitas com Bandeira estabelece-se na compostura de mudar o modelo estético que predomina na poesia do seu país, ou sugere apenas o anunciado do que o leitor vai encontrar neste livro. E já no primeiro poema, A vida, o poeta faz uma declaração existencial, formulando essa polaridade no significado das coisas, na ordem que a metamorfose marca e concentra, nos seus poemas herméticos e esse encanto de explorar a vida desde o pensamento marcante do poeta, com versos tão diligentes como os últimos do referido poema: “A vida/ É polo norte perdendo luz/ a caminho da derradeira escuridão/ É um ciclo levantando e recomeçando/ no corte da meta existencial”.
Ociclo existencial écrucial nestepoeta,quandoabordaumatemática queprocessa variadosestágios davidahumana e, também,oferecenão poucasinsinuações davida amorosa”.É assim, profundamente crucial, filosófica e reflexiva, a poesia de Bendinho Freitas.

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