Cultura

“Os Negros” estreia amanhã

O Teatro GRIOT, em co-produção com o São Luiz Teatro Municipal, estreia a temporada do espectáculo “Os Negros”, de Jean Genet, com encenação de Rogério de Carvalho, a partir de amanhã até 15 deste mês, na Sala Luís Miguel Cintra do São Luíz Teatro Municipal, em Lisboa.

Actores negros com raízes na África lusófona durante os ensaios do espectáculo
Fotografia: Edições Novembro

À partida, “Os Negros” parece ser uma peça de carácter ideológico, mas esta obra do escritor francês Jean Genet é muito mais do que isso. Como diz o encenador Rogério de Carvalho, “é um jogo teatral que coloca em permanente confronto a realidade e a ficção” onde não se vislumbra qualquer libelo directamente anti-racista.
Com um elenco constituído por 13 actores negros com raízes na África lusófona, nesta peça traduzida por Armando Carvalho, podemos encontrar uma reconstrução feita por negros dos rituais brancos em oposição à ancestralidade da vivência negra.
No elenco da peça, constam os nomes dos actores Angelo Torres, Binete Undonque, Cleo Tavares, Gio Lourenço, Igor Regalla, Júlio Mesquita, Laurinda Chiungue, Matamba Joaquim, Mauro Hermínio, Orlando Sérgio, Renée Vidal, Sandra Hung e Zia Soares.
A cenografia é garantida por José Manuel Castanheira com assistência de Pedro Silva; luz de Jorge Ribeiro; figurinos de Catarina Graça com execução de Aldina Jesu; adereços de Mónica de Miranda; desenho de som de Chullage; voz e elocução de Luís Madureira; fotografia de Sofia Berberan e Mário César;  teaser de David Cardoso; apoio à produção Underground de Railroad e  produtora executiva de Urshi Cardoso.
Em “Os Negros”, é evidente a presença de uma crítica feroz ao confronto entre as civilizações branca e negra nos seus primórdios. “Do ponto de vista ideológico, a sensação que tenho é que a peça incomoda tanto os negros como os brancos”, contou ao Jornalismo Porto Net (JPN) o encenador Rogério Carvalho. Os Negros. Treze actores negros. Uma peça escrita por um branco. Para um público de brancos. Mas afinal o que é ser negro? O que é ser negro quando não se vive num país negro? E antes de tudo, qual é a cor de um negro?
O espectáculo delineia uma configuração topológica, constituída por  três patamares, dispostos verticalmente:  o espaço onde se situa a corte e a Rainha, que representa o espelho do domínio do colonizador; o espaço onde se situa a Felicidade, uma negra imponente; e a plataforma de base, que representa os colonizados, ocupada pelas restantes personagens. Esta estrutura topológica define as relações de poder entre as personagens e é nela que se constrói o espaço do drama, onde as vozes, os coros e os risos orquestrados dos negros conferem ao espectáculo o grotesco, atingindo as fronteiras da paródia. Uma urdidura complexa, que se constrói numa atmosfera de ritual, de cerimónia, numa espécie de liturgia paródica. 
Levada à cena pela primeira vez em 1959, a peça “Os Negros” já foi interpretada em algumas ocasiões por actores brancos. Para o encenador, a peça “é mais genuína” se o elenco for constituído por negros. “O texto destina-se a actores negros porque explora toda a força da sua expressão. Se fosse interpretado por artistas brancos obrigava-os a uma adaptação, pelo que haveria mais dificuldade”, sublinha Rogério de Carvalho.
A produção da peça é do Teatro GRIOT, companhia que se dedica a explorar temas relevantes para a construção e problematização da “emergente identidade europeia contemporânea”, tendo como eixo principal a relação entre o africano e o europeu.
“O que é dito pelos actores nunca é a certeza de um acontecimento que se tenha realizado”, acrescenta, reforçando a seguir a subjectividade da peça e o significado das máscaras. “O negro é a figura do preto visto pelo branco, enquanto o preto é de facto a sua cor e identidade.” Acrescentou que “o espectador tem de estar muito atento... seguir o que é dito... A linguagem aparece como primeira matéria. Não é apenas um instrumento de comunicação”, explica. É teatro contemporâneo, o que temos aqui. Um clássico do teatro contemporâneo, aliás.
“Os Negros” vai estar em cena de a partir de amanhã até ao próximo dia 15, de quarta-feira a sábado, às 21h00, e ao domingo, 8 de Outubro, às 16h00.

  Mostra “Fora de Cena” de Mónica de Miranda

“Fora de Cena”, que coabita com o espectáculo “Os Negros”,  integra uma exposição fotográfica e um vídeo que usa, de forma abstracta, as imagens inspiradas por Os Negros de Genet e do Teatro GRIOT.
A imagem é aqui uma construção ritualística meta-teatral, entre o documental e o ficcional.
De Mónica de Miranda, com entrada livre, a instalação coabita com o espectáculo “Os Negros”, podendo ser visitada uma hora antes do início de cada sessão. Mónica de Miranda é uma artista e pesquisadora. O seu trabalho é baseado em temas de arqueologia urbana e geografia pessoal. Mónica possui um diploma de Arte Visual da Camberwell College of Arts (Londres, 1998); um mestrado em Arte e Educação no Instituto de Educação (Londres, 2000) e um doutorado em Arte Visual da Universidade de Middlesex (Londres, 2014). Ela recebeu o apoio da Fundação para Ciência e Tecnologia. Actualmente, está a desenvolver o seu projecto de pesquisa: Post-archive no CEC (Centro de Estudos Comparados, Universidade de Lisboa). Mónica é uma das fundadoras do projecto artístico de residências Triangle Network em Portugal e fundadora do project Hangar (centro de pesquisa artística em Lisboa, 2014). Foi nomeada para o prémio Novo Banco Photo e exibida no Museu Berado (Lisboa, 2016). Mónica também foi nomeada para o Prix Piclet Photo Award (2016). Ela também exibiu na Photo Paris (Paris, 2013), Arco (Madrid, 2013), Arco Lisboa (Lisboa, 2016).

Tempo

Multimédia