Cultura

“Ossos do ofício” encerra programa de exposições

Francisco Pedro

A criatividade artística de António Ole volta hoje, às 18h30, no Camões - Centro Cultural Português, com mais uma exposição individual, “Ossos do Ofício”, para encerrar a programação deste ano de um dos mais concorridos espaços de artes plásticas, da cidade de Luanda.

Além de pintura a exposição, que abre hoje no Instituto Camões, inclui fotografia e instalação
Fotografia: DR

Uma vez mais, o mestre brinda-nos com as suas predilectas expressões artísticas: pintura, fotografia e instalação, numa mostra que se estende até 19 de Janeiro de 2019, quiçá, um brinde de Natal e de Ano Novo para os apreciadores de artes plásticas.
Com “Ossos do Ofício”, António Ole presta uma homenagem à memória dos  que já partiram, porque “os mortos desaparecem, mas renascem na nossa memória.”
Ruy Duarte de Carvalho, Herberto Hélder e José Rodrigues são alguns dos nomes que sobressaem nesta galeria de memória e evocação, pelo registo,  que permanece vivo na nossa memória, do trabalho criativo e do seu profundo humanismo.
Segundo o artista, “é inevitável que, ao chegar a este patamar, cinquenta e tal anos a trabalhar em artes visuais, me ocorra agora rever algumas aventuras recentes, outras mais antigas, embora isso não faça parte da minha praxis habi-tual. Detenho-me pouco a olhar para trás.”
Lembrou que, ao longo do tempo, encontrou então essa ligação íntima entre a realidade e a matriz poética que lhe dá alimento, que lhe dá cimento.
Considerou que a arte, às vezes, também se faz a partir de quase nada, daquilo que se pressente apenas, em menor escala daquilo que é racional ou austero. “Ossos do Ofício, dirá!”, argumentou.
São cerca de 50 obras, parte delas inéditas, uma quantidade de obras que coincide com meio século de árduo trabalho, aventuras, conquistas de prémio, reconhecimento nacional e internacional e, acima de tudo, muito prestígio e mestria técnica, conceitual e filosófica.
A estética dos seus trabalhos dispensa apresentação. Inédito, é dos poucos pintores africanos e angolanos cujo resultado da paleta provém de uma autêntica criação de pigmentos naturais, tanto para colorir desenhos em papel como para estampar telas gigantes.
A arte moderna e contemporânea estão de mãos dadas em toda a criação do artista. Parece um duelo entre essas duas correntes, mas, ambas apresentam-se de maneira homogénea, difícil de o espectador desconjuntar uma da outra.
“As ideias e narrativas fluem, os materiais consolidam-se. O desenho persiste, na tábua/memória em traços muito leves na superfície intocada. Nada disto estava previsto”, ressaltou. Citado em mais de trinta colecções, artista plástico, fotógrafo e realizador de ci-nema da primeira geração, António Ole nasceu em 1951, em Luanda.

Percurso do artista

Detentor de sete prémios, entre nacionais e internacionais, em 1974, fez parte da equipa de “Contrato Po-pular”, um programa radiofónico, e foi aceite, em 1975, como realizador de programas na Televisão Popular de Angola, cobrindo, nesse mes-
mo ano, as celebrações do 11 de Novembro, em Luanda. Mais tarde, formou-se no American Film Institute, em Los Angeles (EUA) e, entre 1981 e 1985, estudou cultura Afroamericana e Cinema na Universidade da Califórnia (EUA), onde obteve o diplo-ma do Center for Advanced Film Studies.
Desde 1975, dirigiu os documentários “Os Ferroviários”, “Aprender”, “O Ritmo do Ngola Ritmos”, “Carnaval da Vitória”, “Sonangol: 10 Anos Mais Forte” e “No Caminho das Estrelas”, entre outros, e a ficção “Conceição Tchiambula, Um Dia, Uma Vida”.
Cria esculturas inspiradas nas pinturas murais dos cokwe  e produz pintura, cuja originalidade está vincada pelos elementos tradicionais, além de temas universais.  Em 1970, chamou a atenção do público e da crítica, quando, no IV Salão de Arte Moderna de Luanda, expôs um quadro representando o Papa Paulo VI a tomar a pílula. As suas obras têm sido apresentadas em várias exposições, bienais e festivais: Havana, São Paulo, em Sevilha, Berlim, Joanesburgo, Dakar, Amesterdão, Porto e Veneza.

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