Cultura

“Pai grande nosso, tu és” um tributo ao mestre Kapela

Jomo Fortunato

A arte de Paulo Kapela apresenta cortes e descontinuidades, consubstanciados em dois segmentos fundamentais, imprescindíveis para a compreensão da sua portentosa obra.

“Paz & Amor”, retrato de Kapela, obra de Diongo Domingos
Fotografia: Cedida

Numa primeira fase, o seu traço se dilui guiado pela influência da Escola “Poto Poto”, ou seja, um segmento a que podemos designar, mais tradicional, para depois, num período mais avançado, encontrarmos uma criação voltada para intervenção social, de pendor satírico, com recortes de jornais, muitos dos quais ilustram figuras proeminentes da política angolana, transportando o simbolismo africano dos espelhos. Kapela empreende uma visão ilimitada do poder da arte, onde o “tudo”, objectos e jornais encontrados de forma aleatória, ou previamente seleccionados, têm passaporte para além do místico e do surreal. A verdade é que a “poeticidade” da obra de Kapela, no seu conjunto, resulta sempre em peças de reflexão filosófica, passíveis de imediata digestão artística.  
Auto-didacta, Paulo Kapela começou a pintar em 1960 na Escola “Poto-Poto”, em Brazzaville, República do Congo e trabalha em Luanda desde 1989.  Kapela, homem modesto mas de incalculável magnitude artística, sempreviveu em condições adversas, primeiro no edifício da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos, depois no Beiral, passou pelo bairro Palanca, e, actualmente, tem residência no bairro da Vila Alice. Paulo Kapela tem participado em exposições internacionais desde 1995, e a sua obra esteve presente na exposição itinerante, “Africa Remix”, 1995, e em exposições em Londres, Paris e Tóquio.
A exposição colectiva, “Pai grande nosso, tu és”, um singelo tributo ao Mestre Paulo Kapela, inaugurada a 27 de Abril, junta artistas de várias gerações com as seguintes obras, Niandu, “Kapela II” e “Kapela I”, 2016, Kwame Sousa, “Poto-Poto Kapela”,  2018, Diongo Domingos “Paz & Amor”, 2018, Francisco Vidal “Mestre Paulo Kapela”,  2017, Fernando Vinha “Luvuvamu + Nzola”,  2018, Ricardo Kapuka “Kapela”, 2018,  Suekí “Rei dos Reis”, 2017,  Uólofe “Kapela”, 2018,  Van “Kapela Visto Por Mim”,  2017, Guizef, “Kota Kapela”,  2018, Meso Mumpasi, com a proposta, “Papa Kapela”,  2016, e Binelde Hyrcan com a obra “Jah”, 2017.
Filho de Mena Kuluse Afonso e de Mafuta Maria, Paulo Kapela nasceu em Maquela do Zombo, Província do Uíge, no dia 6 de Abril de 1947. Apesar do reconhecimento internacional, escreve a investigadora e curadora alemã, Nadine Siegert, “o trabalho de Paulo Kapela, apenas se pode compreender no contexto local, ou seja, no seu atelier, no centro da cidade de Luanda”.

Colecções
As obras de Paulo Kapela pertencem a várias colecções, tanto nacionais como internacionais, das quais destacamos as seguintes, Fundação PLMJ, pessoa colectiva sem fins lucrativos, Colecção Costa Lopes, as duas em Lisboa, Portugal, Colecção da Fundação Sindika Dokolo, Colecção Nuno Lima Pimentel, Colecção Lopes Crespo, Colecção Privada António Seguro, Colecção SEORF, Fundação Arte e Cultura, todas de Luanda, Colecção Hotz, Cidade do Cabo, África do Sul, e C.A.A.C. Colecção Pigozzi, Genebra, Suíça.

Participações 
Em 2007, participou na mostra “Check List Luanda Pop” na 52ª Bienal de Veneza, Itália, e, em 2009, a sua obra fez parte da mostra da 2ª Trienal de Luanda. No mesmo ano, fez parte da  Exposição Colectiva, “Luanda Smothand Rave”, França. Destaques ainda da participação na Exposição Colectiva “No Fly Zone”, Porto, no Museu Colecção Berardo, Lisboa. Em 2013 fez parte da Exposição Colectiva "No Fly Zone", no Museu Colecção Berardo, Portugal. Em 2015, foi a vez re realizar a sua primeira Exposição individual designada, “Kapela”, Galeria Tamar Golan, Luanda. No mesmo ano apresentou  “Entre Suplícios” na Galeria Hall de Lima Pimentel, Luanda. No ano seguinte expôs, “Velhos Papéis, Novas Histórias”, no “ELA-Espaço Luanda Arte”, sob a plataforma “Pop-UpMash-Up”, em conjunto com o artista plástico, Binelde Hyrcan. Paulo Kapela venceu, em 2003, o Prémio CICIBA, Centro Internacional de Civilizações Bantu, em Brazzaville.

Espaço

A galeria “ELA-Espaço Luanda Arte, dirigida por Dominick Tanner,  existe há pouco mais de um ano e situa-se no quarto andar do edifício da “De Beers”. O “ELA” não é somente um espaço comercial de vendas, está particularmente engajado e vocacionado em valorizar a pesquisa, oferecendo duas residências individuais e três residências colectivas, por períodos de dois a três meses,  permitindo a exposição de obras pesquisadas e criadas a pensar no espaço, valorizando o diálogo numa área para mesas redondas, debates, palestras, exposições individuais, mostras colectivas e tudo que seja inovador.

Depoimento

Dominick Tanner fez o seguinte depoimento sobre o artista, “Paulo Kapela É inquestionável a posição que o nosso Kapela, que celebrou setenta e um anos de idade, o Papá Kapela assume na arte contemporânea angolana. Inquestionável não só pelo seu trajecto como artista mas pelo facto de ter influenciado directamente toda uma geração de artistas angolanos que emergiram nos últimos anos, e que se afirmam cada vez mais em território nacional e internacional.
   Artistas como Lino Damião, Marco Kabenda, Toy Boy, Nelo Teixeira, Kiluanje Kiá Henda e Yonamine, foram todos inspirados pela obra e pela vida do Kapela, até porque a maioria deles viveu e conviveu importantes anos das suas vidas com o seu Mestre e amigo. 
    Inquestionável, por isso, é este tributo ao “Pai Grande” e espiritual da Arte Contemporânea Angolana, a quem prestamos homenagem e prestigiamos hoje, como forma de agradecimento pelo seu instinto de sobrevivência e renascimento, contra tudo e contra todos, e contra tantas vicissitudes da vida e da “morte” porque passou. Parabéns Kapela! Parabéns Angola! Pai Grande Nosso, Tu És!”.

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