Papel da cultura na diversificação da economia

Jomo Fortunato |
11 de Abril, 2016

Fotografia: Paulo Mulaza

É urgente aproximar a produção cultural aos mecanismos de gestão da economia, através da criação de políticas públicas que propiciem o surgimento de um mercado de bens e serviços culturais de qualidade concorrencial,

passíveis de atrair, pela promoção e exportação, potenciais consumidores internacionais, dentro e fora do continente africano.
O presente texto, que pretendemos seja o início de um amplo debate sobre o tema, foi inspirado numa palestra proferida pelo Professor brasileiro, Sérgio Sá Leitão, no “Seminário Internacional de Economia da Cultura” promovido pela Fundação Joaquim Nabuco, Recife, em Julho de 2007, ocasião em que o autor definiu, o conceito de “Economia da cultura, nos termos que seguem: “Do ponto de vista da economia, a expressão “economia da cultura” identifica o conjunto de actividades económicas relacionadas à cultura. Do ponto de vista da cultura, trata-se do conjunto de actividades culturais com impacto económico”.
O valor mercadológico dos produtos  culturais, pode ser transacionadoe exportado, se investirmos na qualidade, o que pressupõe apostar no ensino, no alargamanento dos espaços de fruição cultural, e nos locais de venda. Os avanços das modernas tecnologias da esfera comunicacional, devem estar próximos da gestão cultural, e dos pressupostos estratégicos que enformam as políticas culturais do Estado.
Ao contrário das teses que advogam o carácter subjectivo, logo não mensurável  da cultura, “mensurar economicamente a cultura não é só possível, mas necessário, e as análises económicas ajudama entender determinados fenómenos culturais”, sustenta o professor Sérgio Sá Leitão.
Segundo o mesmo autor,  “As políticas públicas voltadas para a “economia da cultura” constituem, na verdade, políticas de desenvolvimento, e devem ser pensadas deste modo. Mais recursos para a cultura, se bem aplicados, podem ser mais recursos para o desenvolvimento de Angola. A cultura, portanto, deve ser uma prioridade não apenas pelo seu papel “cultural” na vida social, mas pelo seu papel económico”.

Criatividade

A criatividade, enquanto recurso inesgotável, deve estar cada vez mais ao serviço da criação artística e da gestão cultural.  Neste sentido, o estado deve valorizar e promover os sectores criativos que sustentam os segmentos identitários da cultura. “Por serem baseados na criação, e portanto geradores de propriedade intelectual, os bens e serviços culturais encontram-se no epicentro da chamada “economia do conhecimento”, constituindo um dos campos mais dinâmicos e atractivos da economia contemporânea. Na actual fase do capitalismo global o que está cada vez mais no centro das disputas competitivas são os activos intangíveis, baseados em criatividade, ideias e valores. A economia é cada vez mais “cultural”, tendo em vista o impacto crescente de práticas e valores culturais em processos económicos diversos”, sustenta ainda o mesmo docente, autor do documento em análise.

Concorrência

Para que o Estado venha a arrecadar receitas com a cultura, torna-se necessário desenvolver as indústrias culturais, quantificar o sector, motivando desta forma a concorrência, para que se estabeleça um diálogo saudável entre a produção artística e o sector da economia. Neste processo torna-se necessário mais do que descrever, quantificar, para que haja um diálogo saudável, com as propostas de índole económica, nos domínios dacriação, produção, distribuição e consumo de conteúdos e experiências culturais. O caso angolano poderá juntar as experiências dos americanos, que pensam em termos de “economia do copyright”, restabelecendo os direitos autorais, os  ingleses, de “indústrias criativas”, e os escandinavos, de “economia da experiência”, ou seja, valorizando os aspectos económicos da cultura popular.

Artesanato

Pode ser da responsabilidade das administrações locais a criação, protecção e multiplicação de novos espaços, modernos e  atractivos, de comercialização do artesanato, que seriam alugados aos artesãos a preço módico, deduzindo das peças uma taxa para o Fundo de Apoio à s Actividades Artísticas e Culturais. A rentabilização do artesanato, da cestaria e outros produtos artísticos manufacturados, na nova baía de Luanda, e outros locais de interesse turístico ao longo da nova faixa litoral, seria uma forma de arrecadar receitas, que podem reverter no Fundo de Apoio às Actividades Artísticas e Culturais, um fundo que sustentaria os custos de produção dos diferentes domínios da cultura. Nunca devemos perder de vista, sustenta Manuel Cadete Gaspar, Songa, funcionário sénior, com larga experiência do Ministério da Cultura de Angola, que “o artesanato deve acompanhar sempre a rota do turismo cultural, é incontornável”.

Estado

O Estado deve estar em condições de formular e implementar políticas públicas, tendo em vista o grau de acesso ao consumo, a diversidade cultural, a capacitação de técnicos e empreendedores, a formação de públicos, o estímulo à criação, à produção e à distribuição, a promoção de exportações e a valorização da cultura nacional. Produzir e apoiar a produção e a disponibilização de levantamentos de dados, além de pesquisas e estudos sobre diversos aspectos relacionados ao tema, de modo a permitir uma melhor quantificação e também ajudar a qualificar o debate e as políticas públicas.Com a estabilização da economia em Angola, será possível disponibilizar crédito a longo prazo, com juros bonificados, a empresas culturais, incluindo grupos de Carnaval.

Turismo

O turismo deve ser uma fonte de rentabilização dos produtos, bens e serviços  culturais em circulação no mercado. Para que tal desiderato se efective, Angola deve incentivar o surgimento de uma indústria dos áudio-visuais, da música, da edição de livros, entre outros, dos meios de comunicação promocionais,  imprensa, rádio e TV, a área criativa, moda, arquitectura, publicidade, design gráfico, design de produtos e design de interiores, artes cénicas, artes visuais, cultura popular, museus, arquivos, bibliotecas, eventos, festas e exposições, património material e imaterial,  na sua relação com o  turismo cultural, através da criação de uma agenda sólida, e solidária entre os vários agentes culturais.

Distribuição


A movimentação dos produtos culturais é um pressuposto básico para a sua introdução e circulação nos mercados. Daí que o Estado deve ser o principal motivador para que surjam verdadeiras  empresas de distribuição, para que o país se conheça culturalmente. Há uma relação de dependência entre a criação, produção, edição, publicidade, promoção e distribuição.
A produção cultural do Cunene deve ser conhecida pelos distribuidores, e consumidores  de Cabinda, cruzando, pela distribuição, os produtos que cada região tem ao seu dispor para a comercialização.

Vendas

Sendo a música uma das disciplinas da cultura mais rentáveis em Luanda, pelo imediatismo no seu consumo, dados fornecidos pelo Director Municipal da Cultura e Turismo da Cidade de Luanda, Manuel Gonçalves, apontam para vendas superiores a 20 000 cópiasdiscos dos artistas do topo. De 2011 a 2012, período de maior picos de vendas, houve uma movimentação de cerca de 500 000 cópias vendidas na Praça da Independência. Artistas como C4 Pedro, Yuri da Cunha, Kyaku Kiadaffy, NGA, Prodígio, Kueno Aionda, e Maya Cool, venderam somas,  entre 15 a 20 000 cópias no fim de semana de vendas.  O investimento na produção discográfica, pela negociação de taxas incluída no peço de capa,  poderia ser rentável para um eventual Fundo de Apoio a Produção Discográfica, através de uma negociação prévia,  na fase inicial da produção discográfica.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA