Cultura

Acervo museológico furtado regressa ao país

Fernando Neto |

Um projecto de levantamento do espólio museológico do antigo Reino do Kongo, levado ilegalmente para além das fronteiras nacionais, está a ser levado a cabo sob a liderança de Angola, envolvendo as Repúblicas Democrática do Congo, do Congo Brazzaville e do Gabão.

Sita José garante que o projecto liderado por Angola envolve os dois Congos e o Gabão
Fotografia: Garcia Mayatoko | Edições Novembro - Mbanza Kongo

O embaixador de Angola na Unesco, Diakumpuna Sita José, que prestou ontem a informação ao Jornal de Angola, via telefone a partir de Paris (França), frisou que a acção constitui um dos compromissos delegados pela Unesco, com o objectivo de fortalecer os laços culturais dos países que pertenceram ao antigo Reino do Kongo. 
O Centro Histórico da cidade de Mbanza Kongo foi declarado, no dia 7 de Julho deste ano, por unanimidade, pela Comissão de Património Mundial da Unesco, Património Mundial, durante a 41.ª sessão daquela comissão, reunida em Cracóvia, na Polónia.
A secular cidade de Mbanza Kongo foi candidatada pelo Governo angolano a Património Cultural da Unesco, sendo a primeira validada no país por aquela organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura.
“Depois desta primeira fase que levou à inscrição de Mbanza Kongo como Património Mundial, começámos um projecto mais abrangente que vai ter a dimensão do que foi a expansão territorial do Reino do Kongo”, afirmou o embaixador Sita José, tendo acrescentado que já teve início um trabalho conjunto com os países vizinhos para que se possa fazer uma apresentação exacta dos vestígios referentes ao antigo Reino do Kongo aí existentes.
A recuperação de peças museológicas do antigo Reino do Kongo, hoje espalhadas pelo mundo, disse o diplomata angolano, constitui uma tarefa complexa, mas não impossível.
“Deve-se localizar as peças, confirmar a sua origem e desencadear um processo de cooperação internacional, utilizando os mecanismos disponíveis pela Unesco sobre o retorno de bens aos seus países de origem”, disse Sita José.
Angola vai usar os mecanismos de cooperação bilateral que possui com outros países, para poder negociar o retorno destes bens patrimoniais do acervo histórico do Reino do Kongo, uma iniciativa apoiada pela Fundação Sindika Dokolo, em parceria com o Executivo e o Ministério da Cultura na identificação e recuperação de objectos que estão fora do território angolano.
Depois do feito alcançado, o país procura aumentar o conhecimento científico, sobre a antiga capital do Reino do Kongo, São Salvador antes da chegada dos europeus, para entender os seus atributos e importância política, económica, social, cultural e religiosa, disse o embaixador de Angola na Unesco.

Histórico do projecto


O projecto “Mbanza Kongo - cidade a desenterrar para preservar”, que tinha como principal propósito a inscrição desta capital do antigo Reino do Congo, fundado no século XIII, na lista do património da Unesco, foi oficialmente lançado em 2007.
O Centro Histórico de Mbanza Kongo, na província do Zaire, no norte de Angola, está classificado como património cultural nacional desde 10 de Junho de 2013, um pressuposto indispensável para a sua inscrição na lista de Património Mundial.
A candidatura de Angola destacava que o Reino do Kongo estava perfeitamente organizado aquando da chegada dos portugueses, no século XV, uma das mais avançadas em África à data.
A área classificada envolve um conjunto cujos limites abrangem uma colina a 570 metros de altitude e que se estende por seis corredores. Inclui ruínas e espaços, alvo de escavações e estudos arqueológicos, que envolveram especialistas nacionais e estrangeiros.
Os trabalhos arqueológicos realizados no local envolveram a medição da fundação de pedras descobertas no local denominado “Tadi dya Bukukua”, supostamente o antigo palácio real.
Passaram igualmente pelo levantamento da missão católica, da casa do secretário do rei, do túmulo de dona Mpolo (mãe do rei Dom Afonso I, enterrada com vida por desobediência às leis da corte) e do cemitério dos reis do antigo Reino do Kongo.

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