Cultura

Dimensão cultural de Neto em debate no Memorial

Jomo Fortunato |

A “Dimensão Cultural de Agostinho Neto” foi  o tema geral de um colóquio realizado no dia 4 de Outubro de 2017, ainda no âmbito mês do Herói Nacional, organizado pelo Memorial Dr. António Agostinho Neto.

Mais de trezentas pessoas participaram no colóquio sobre a Dimensão Cultural de Neto na Sala de Conferências do Memorial Dr. António Agostinho Neto
Fotografia: Edições Novembro | Arquivo

O colóquio teve como oradores Norberto Costa, jornalista e investigador, que dissertou sobre o tema “A Literatura de Agostinho Neto e a consciencialização nacional”, moderado pelo poeta e membro da União dos Escritores Angolanos, Pombal Maria.
Norberto Costa resumiu o teor da sua comunicação nos seguintes termos: “A minha comunicação visa demonstrar a dimensão cultural do primeiro Presidente da República de Angola, Dr. António Agostinho Neto, líder do percurso epopeico da história do nacionalismo moderno do século XX e fundador da nação angolana.
A abordagem sobre esta insígne figura e homem de cultura parte de 1922 a 1975,  e está dividida em três períodos: O primeiro vai de 1922 a 1947, fase em que Agostinho Neto fez o ensino primário com os pais, infância reflectida em três poemas “As palmeiras da minha mocidade”, “Caminho do Mato” e “Havemos de voltar”.
O segundo período,  de 1947 a 1975, compreende a vida política de Agostinho Neto que inicia em Lisboa,  quando da sua primeira prisão em Outubro de 1951, resultante da sua militância no MUD-Juvenil e por ter participado no Congresso dos Estudantes em Bucareste, Roménia, em 1953, assim como as suas reivindicações ao direito de autodeterminação dos povos africanos, em particular Angola, merecendo-lhe mais três prisões até evadir-se de Portugal, em 1962, com auxílio do PCP, Partido Comunista Português a pedido do MPLA. Agostinho Neto torna-se líder convicto, abnegado e determinado daquele movimento político de libertação através da eleição na Primeira Conferência Nacional do Movimento, decorrido em Leópoldville-Kinshasa em 1962.
Por fim o terceiro período de 1975 a 1979, é a fase em que Agostinho Neto proclama a UEA, União dos Escritores Angolanos, onde assume mais uma vez a sua postura de homem de cultura, e preocupa-se, enquanto estadista, com problemas adversos ao desenvolvimento do país designadamente, a erradicação do analfabetismo,  inserção do ensino das línguas nacionais no sistema de ensino, assim como no labor literário, profissionalização dos artistas e dos escritores, para se dedicarem à pesquisa cultural e à criação artística a tempo inteiro ou pelo menos “em fins-de-semana activos”. Agostinho Neto preocupou-se neste período com  a implementação de um debate aberto e activo, a favor da identidade cultural local e a dignidade colectiva nacional, por si postulada desde os tempos da juventude, em busca da reconversão cultural, no âmbito do “Movimento de reafricanização dos espíritos”e não só, bem como da reafirmação da angolanidade embebida na africanidade: “a cultura angolana é africana, mais sobretudo angolana”, dizia Agostinho Neto.
Por sua vez, Hélder Simbad, professor universitário, desenvolveu o tema, “Análise psicocrítica na prosa de Agostinho Neto”, moderado por Domingas Monte, professora universitária, que começou por considerar “que a literatura, enquanto manifestação artística, está na base do surgimento duma área que revolucionou os estudos sobre o comportamento humano: a Psicanálise. No quadro dos estudos literários, privilegia-se o termo «psicocrítica», porque o que ocorre, na verdade, é uma psicoleitura interpretativa do comportamento do narrador, personagens e, por vezes, do autor. Hélder Simbad destacou, na sua análise crítica, a palavra “Inferno” para designar “tormento constante”, que na sua óptica constitui a trama principal do conto “Náusea”, de Agostinho Neto, e fê-lo através de uma abordagem etimológica, e comparativa. Velho João, o protagonista de “Náusea”, transfere o sentido metafórico do «inferno» para o «mar», «Kalunga». Um inferno, nas suas palavras, um lugar de tormento num espaço marinho”. “Náusea”, continua o crítico, é, segundo os registos históricos, a única narrativa literária de Agostinho Neto, não como um pequeno conto, e sim como um conto pequeno de infinita grandeza, pelas suas virtualidades intrínsecas. 
Hélder Simbad refere que o título “Náusea”explicita o estado de espírito do povo consciente em relação ao contexto adverso. Quem, nas vestes de colonizado, não sentiria «nojo» e «repugnância» por aqueles que o têm cativo? Essa «náusea» encerra uma dupla dimensão conotativa deveras significativa: Primeiro: Náusea pelo passado emanado, metaforicamente, pelas ondas do mar, trazendo à memória do protagonista a chegada do colono e o tráfico de escravos. Segundo: Náusea pelo duro presente que persistia doloroso, revelando um enorme fosso social entre colonizadores e colonizados. “Náusea” é um conto de denúncia, escrito num período de opressão. A opressão exige estratégia, que, por sua vez, exige mestria.
E Agostinho Neto, em “Náusea”, serve-se genialmente das possibilidades alegóricas do mar para denunciar os actos hediondos cometidos pelo colono e alertar os seus símiles. Se o mar, para o ocidente, representado pelo então «Império Colonial Português», é sinónimo de descobertas, aventura, bravura, conquistas, para o autor de “Náusea”, representa a porta de entrada do grande mal, o colonialismo, bem como o princípio das grandes transformações infra-estruturais e culturais”.

Colóquio 
O termo colóquio, também conhecido como debate, conferência ou simpósio, é utilizado para referir a um tipo de reunião ou encontro quase que formal em que as pessoas se reúnem para falar ou debater sobre algum assunto específico, determinado com antecedência. O colóquio também pode ser uma exposição de uma ou mais pessoas para um júri ou um público também específico. A ideia predominante em ambos os casos é que as pessoas tenham um tema, um tempo e um objectivo determinado e seleccionado para realizar o debate ou esta troca comunicativa. 
Quando falamos de colóquio, nos referimos a diferentes situações comunicativas que são normais ou comuns nas áreas académicas ou profissionais. Embora um debate seja tratado de maneira espontânea entre qualquer pessoa, o uso de termo colóquio está vinculado ao momento que se fala ou debate algum tema específico, seleccionado e delimitado. Em geral, estes temas têm a ver com questões académicas, científicas, políticas ou profissionais.

Os moderadores Domingas Monte e Pombal Maria
Uma das estratégias do Memorial Dr. António Agostinho Neto tem sido a promoção de  jovens investigadores que revelam qualidade nos seus trabalhos e pertinência nas suas abordagens no domínio dos Estudos Literários.
O convite a Hélder Simbad e Domingas Monte, recaiu neste sentido. Domingas Henriques Monteiro, Domingas Monte, nasceu em 1982, na província Uíge. É licenciada em Línguas e Literaturas Africanas, pela Universidade Agostinho Neto, Mestre em Estudos Literários Culturais e Interartes, Faculdade de Letras de Universidade do Porto, com a tese: “Tradições nacionais e identidades: recolha e estudo de canções festivas e de óbito kongo e ovimbundu”. Em termos profissionais, começou por ser professora do ensino primário, depois do ensino médio e, actualmente, do ensino universitário, na Universidade Agostinho Neto, no Departamento de Línguas e Literaturas Africanas, da Faculdade de Letras. Também desempenhou as funções de secretária, jornalista da Rádio LAC, locutora, entre outras. Criou um “Blogue” e associação, “Mwelo weto”, do qual é, também, administradora. Este é dedicado ao espaço africano, em geral, no entanto, pelo conhecimento pessoal que tem do seu país, particulariza o lado angolano, a sua língua, cultura, literatura e tradições. 
Autora do livro infanto-juvenil “O Gelado de múkwa da mamita”. É co-autora do romance interactivo “O cruzeiro da morte” e das antologias “Sonhos sem fronteiras” e “O Perfume”.
Tem ainda poemas publicados na colecção “Crónicas e Contos El dorado” e um conto na Antologia de poesia e prosa “arte de viver”, ambos da “Celeiro de escritores do Brasil”.Por sua vez Pombal Maria nasceu na província da Huíla, no dia 16 de Junho de 1968. Foi professor de Artes Plásticas, no período de 1998-1994. Vinculado ao jornalismo desde 1994, colaborou no Jornal de Angola e Correio da Semana, foi Assessor de Imprensa da TCUL, Empresa de Transportes Colectivos e Urbanos de Luanda), e INADEC, Instituto de Defesa do Consumidor. Membro da União dos Escritores Angolanos, participou na Conferência Pan-Africana de Escritores, Ghana,2005.
 Autor de meia centena de textos de crítica literária, ensaios e apontamentos sobre literatura angolana publicado na imprensa local e brasileira. Consta da antologia de Poesia de África Lusófona, organizada pelo prestigiado escritor e ensaísta brasileiro António de Miranda. Publicou os livros “Asas do sonho ferido”, Poesia, UEA 2002, “Palavras lavradas”, Poesia, UEA , 2010.

Tempo

Multimédia