Luandino Vieira conta histórias no Porto


4 de Julho, 2015

Fotografia: Afp

O terceiro Encontro Internacional de Narração Oral “Um Porto de Contos” decorre de 24 a 26, na Casa das Artes, em Portugal, com o escritor angolano Luandino Vieira entre os convidados.

O festival foi apresentado ontem em conferência de imprensa nos jardins da Casa das Artes, onde a directora artística, Clara Haddad, sublinhou que é um acontecimento “feito com muito esforço”, sem patrocínios, mas com “apoio humano”.
A lista de contadores de histórias que vão estar presentes vai de Boniface O Fogo, dos Camarões, à cubana Corália Rodríguez, passando pelos “novos talentos” portugueses Mariana Machado, Adelina Monteiro e Vânia Abreu.
O objectivo da actividade bienal é “dar a conhecer as lendas e as histórias” do Porto, disse Clara Haddad.
“Um Porto de Contos” tem ainda um “Urban Market”, para além de um mercado do livro, um espaço com massagens e histórias, outro de convívio e uma “cabina de contos”, onde qualquer pessoa pode ir contar a sua história - real ou ficcionada.
A organização realça que grande parte das actividades do encontro é de entrada livre e destinada a públicos das mais diferentes idades.
Grande parte da história do escritor angolano Luandino Vieira confunde-se com a história da luta pela independência política do país, o que o levou a sofrer profundamente as consequências da militância política.
Nascido em Portugal, em 1935, José Mateus Vieira da Graça ainda criança mudou-se com os pais para Angola, país que assumiu como seu. Luandino viveu a infância e a adolescência em bairros populares, como o Musseque Braga, o Maculusso e o Kinaxixe. Mais tarde, integrou-se na geração da revista angolana “Cultura” (II), publicada entre 59 e 61, juntamente com Arnaldo Santos, Costa Andrade, Ernesto Lara Filho, Henrique Abranches e Mário Guerra, assim como contribuiu decisivamente para a consecução do projecto de nacionalização da literatura angolana.
Preso em Lisboa em 1961, acusado de exercer “actividades anticolonialistas”, foi libertado somente em 1972, depois de ter cumprido os três primeiros anos da sua pena em Luanda e o tempo restante no campo de concentração de Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde.
Luandino, nome que o autor escolhe para assinalar a sua identificação com a capital angolana, diz muito da sua dedicação à causa da libertação nacional. A maior parte da obra do escritor foi escrita na prisão e a publicação, quase toda posteriormente, não corresponde necessariamente à ordem em que foi escrita. O seu primeiro livro, “A Cidade e a Infância”, é publicado em Lisboa, pela Casa dos Estudantes do Império, em 1960. Já “Luuanda”, livro chave na trajectória literária do autor, foi escrito na prisão durante o ano de 1963, publicado em Angola em Outubro de 64 e obteve, em 1965, o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, o que gerou uma violenta reacção de sectores sociais conservadores e, inclusive, culminou na extinção dessa associação por decisão do governo português.
Durante os anos 60 e 70, Luandino Vieira demonstrou grande convicção no exercício de um poder político que possibilitasse a construção de uma cidadania plena para os angolanos. O escritor envolveu-se na luta empreendida pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Logo depois da independência, ocupou cargos de direcção no Governo e foi secretário-geral da União dos Escritores Angolanos.
Depois de ter publicado quatro romances, o último intitulado “Nosso musseque”, editado em 2003, e oito livros de histórias, Luandino Vieira vive discretamente em Portugal.

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