Máscaras tchokwe regressam às raízes

Jomo Fortunato |
2 de Novembro, 2015

Fotografia: Cláudia Veiga

Sindika Dokolo, um dos mais notáveis coleccionadores de arte contemporânea e antiga do mundo, defende o retorno incondicional do património artístico nacional disperso pelo mundo, a favor do Estado angolano, um espólio constituído por peças de valor singular, de grande magnitude cultural, e de incalculável valor pecuniário.

O coleccionador anunciou em conferência de imprensa, realizada no dia 30 de Outubro de 2015, no “The Club at the Ivy”, em Londres,  a recuperação de duas máscaras “Mwana Pwó” e uma escultura “cokwe”, pertencentes no passado ao Museu do Dundo, instituição cultural criada pela antiga Diamang, em 1936, a partir de uma colecção privada do falecido etnógrafo, José Redinha, antigo funcionário administrativo em Chitato. O processo de negociação e restituição legítima do espólio, resulta em vantagens de natureza patrimonial para o Estado angolano, e poderá propiciar uma intervenção notável de Angola no circuito mercadológico da arte africana antiga, no mundo. 
O texto a que tivemos acesso diz expressamente o seguinte: “Identificada pelo especialista Didier Claes, de Bruxelas, especialista em arte da África Central, a restituição destas peças ao Estado Angolano, pertença do seu património, apenas foi possível graças à colaboração do Senhor Sindika Dokolo.”
As máscaras, antepassados femininos “pwo”, dos “cokwe”, da região de Camaxilo, são uma categoria de máscaras cujas faces e impacto estético, tornaram-se incontornáveis na maior parte das colecções africanas de arte. 
Segundo Fernando Alvim, Vice-Presidente da Fundação Sindika Dokolo: “As referidas peças  serão apresentadas aos angolanos, em acto solene, pelo patrono da Fundação, o coleccionador, Sindika Dokolo, na sessão de abertura da III Trienal de Luanda, em Novembro de 2015, no âmbito das comemorações dos quarenta anos da independência de Angola. Importa realçar que, depois do simbolismo da atribuição da Medalha de Mérito, Grau de Ouro, pela Câmara da cidade do Porto, ao nosso patrono , a instituição vem lutando,  pela reconstituição do património artístico nacional, disperso pelo mundo, perseguindo objectivos não só estéticos e artísticos, mas também prestigiando a história política de Angola e de África, na sua relação com o mundo, através da valorização da arte antiga”.

Máscaras

A máscara “Mwana pwo” e suas variantes, representam uma personagem ancestral, adulta, madura, simbolizando a beleza do sexo feminino. Cheias de dignidade e espiritualidade, as peças representam todos os atributos positivos da mulher ideal, simbolizando o protótipo da figura feminina “Cokwe”. Assim sendo, na dança, “Pwo”, representa a encarnação de uma personagem feminina que concede a fertilidade, o bem e a criação. Embora as máscaras “pwo” sejam usadas por jovens do sexo masculino durante os rituais de iniciação ou de puberdade na “Mukanda”, elas são usadas para honrar a mulher, especialmente as mães dos jovens que participam no ritual. Recentemente “Pwo” ficou conhecida como “Mwana pwo”, o ideal de beleza jovem feminina, que representa a mulher que foi submetida ao ritual de iniciação, estando pronta para o casamento.

Tradição


Há uma tradição ancestral dos “Cokwe” em  esculpir máscaras, e  esculturas e objectos de função utilitária e decorativa, representativa da vida em comunidade dos seus contos míticos e dos seus preceitos filosóficos. As suas peças de arte gozam um papel predominante em rituais culturais, representando a vida e a morte, a passagem para a fase adulta, a celebração de uma colheita nova, ou ainda o início da estação de caça.
O nome “Tshokwe” aparece grafada com algumas variantes, a saber: “Tchokwe”, “Chokwe”, “Batshioko”, “Cokwe” e, entre os portugueses, também ficaram conhecidos por “Quiocos”. A região “Lunda-Tchokwe” é constituída pelas Provínciais da Lunda-Norte, Lunda-Sul e Moxico, cada uma comportando diversas etnias, sendo os Tchokwe, o grupo maioritário seguindo-se outros como sendo: os “kakongo” ou “bandinga”, “suku”, “bângala”, “luba”, “xinge”, “matapa”, “songo”, “khari”,”kafia”, “kakete”, “holo” e “bondo”.

Estudos

Para além do acervo material e imaterial, o Museu do Dundo produziu um conjunto de edições, que constituem referências incontornáveis para a compreensão da história da arte e da cultura angolana. Marie-Louise Bastin (1918-2000), professora emérita da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, é autora de “Art decoratif tshokwe. Lisboa, Diamang. (Museu do Dundo. Subsídios para a história, arqueologia e etnografia dos povos da Lunda”. Publicações culturais, nº55, 2 volume,  obra incontornável para a compreensão da “definição das diferentes tipologias e estilos da arte “cokwe”, que permite “obter uma prespectiva global das obras provenientes desta região, tanto das colecções públicas como privadas. Passaram pelo Museu do Dundo, os  seguintes estudiosos: Dr. Hermann Baumann, que publicou a obra paradigmática, “Lunda”, em 1935, resultados de uma investigação efectuada em 1931, Olga Boone (1948), Albert Maesen (em 1954) e Franz Olbrechts (em 1955),  investigador que propôs a ida de Marie-Louise Bastin ao Museu do Dundo, ainda em 1955. De 27 de Abril a 4 de Outubro de 1956, Marie Louise  Bastin, teve como auxiliar Muacefo Elias, responsável pela “Sala de história e equipamento do folclore” do Museu do Dundo, angolano descendente do Soba Sanjime, que facilitou o trabalho por possuir rudimentos de língua francesa.

Trienal


A Trienal de Luanda, que este ano vai realizar em Novembro a sua III edição, é um projecto de impacto cultural implementado nos últimos nove anos, e foi concebida pela Fundação Sindika Dokolo “a partir de um estudo abrangente das mutações emocionais e estéticas da sociedade angolana, através da arte, da cultura e da história contemporânea angolana, em diálogo com a arte e a cultura africana, na sua relação com a estética global”. De facto, a Trienal de Luanda teve como principais objectivos, “estimular a produção artística nas mais diversas vertentes e a criação de um novo público, com um impacto directo na educação, para permitir o acesso abrangente da sociedade à produção artística, filosófica, angolana, africana e mundial.
A Fundação Sindika Dokolo realizou, ao longo da sua existência, um total de mais de 500 eventos, dos quais destacamos os principais domínios: exposições de artes visuais, eventos de artes cénicas, conferências, concertos, exibição de peças de teatro, dança, moda, performance,  cinema, projectos de literatura, residências artísticas, e programas de visitas escolares.

Projectos


Os grandes projectos da Fundação, incluem a valorização da memória iconográfia africana, tal como a emergência da criação artística contemporânea, sobretudo as produções da nova geração, que têm acompanhado a evolução e o progresso dos projectos de desenvolvimento da construção da nova Angola.
A Fundação Sindika Dokolo tem promovido o circuito mercadológico da arte clássica africana, na sua relação com os mercados do mundo, alertando a necessidade de criação de políticas culturais dos países africanos, que motivem o surgimento de um novo entendimento da arte, e, consequentemente, da elevação do prestígio dos artistas africanos no mundo.
Segundo podemos ler no seu catálogo de apresentação: “A Fundação Sindika Dokolo desenvolveu nos últimos anos uma política cultural responsável e consciente conceptualizando e produzindo instrumentos e mecanismos culturais, económicos e políticos, para o desenvolvimento da arte contemporânea africana. A criação da Sindika Dokolo Colecção Africana de Arte Contemporânea e antiga, a sustentação do movimento cultural em Luanda, a produção da Primeira Trienal de Luanda e a concepção e materialização do primeiro pavilhão africano na 52ª Bienal de Veneza, em 2007, tornaram-se factos culturais sem precedentes no contexto africano e mundial”.

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