Cultura

Ministra da Cultura divulga bastidores do dossier no Zaire

Victor Mayala | Mbanza Kongo

A ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, apresentou, oficialmente ontem, em Mbanza Kongo, província do Zaire, o feito de inscrição da cidade na lista do Património Mundial da Humanidade, alcançado a oito deste mês em Cracóvia, Polónia, durante a 41.ª sessão do Comité do Património Mundial da Unesco.

Ministro Bornito de Sousa (ao centro) recebeu das mãos de Carolina Cerqueira e Joanes André a mensagem de reconhecimento ao Chefe de Estado
Fotografia: Garcia Mayatoko | Mbanza Kongo | Edições Novembro

Na cerimónia testemunhada pelo embaixador de Angola junto da Unesco, Sita José, ministros da Administração do Território e dos Transportes e de três antigos ministros da Cultura, Carolina Cerqueira disse que o acontecimento enche de orgulho todos os angolanos de Cabinda ao Cunene e na diáspora que manifestaram a alegria e a auto-estima da nação angolana. 
“Viemos aqui apresentar, oficialmente, esta conquista e celebrar com as populações locais que jogaram um papel preponderante no decorrer deste processo, que culminou com o reconhecimento internacional do valor histórico e cultural deste sítio, que é uma referência não só para Angola como para a região da África Austral”, disse.
Para a ministra da Cultura, esta região do continente albergou um dos reinos mais organizados política, económica e socialmente daquela época e que hoje tem o mérito de, séculos depois, mostrar um testemunho único excepcional de uma tradição e de uma civilização viva.
A governante lembrou que a classificação de Mbanza Kongo como Património Mundial da Humanidade resultou do trabalho aturado e de grande qualidade técnica e de investigação multidisciplinar excelentes iniciada há três décadas e que foi acompanhado com um intenso trabalho de diplomacia cultural junto da União Africana, CPLP, países da África Central e do Comité do Património Mundial da Unesco, de que Angola faz parte desde 2015.
“Foi determinante a entrega, dedicação, empenho, resiliência e alto sentido de patriotismo dos quadros angolanos, em particular do Ministério da Cultura, do Governo da provínica do Zaire, de universidades, das autoridades tradicionais, religiosas, militares e da sociedade  em geral”, sublinhou Carolina Cerqueira.
Segundo a ministra, compete agora à Comissão de Gestão do Sítio, instituída pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, dar seguimento às orientações e recomendações emanadas pelo Comité do Património Mundial. Entre outros desafios, avançou a ministra, deve ser levado a cabo um conjunto de tarefas, entre as quais se destaca a realização do Festicongo, uma actividade conjunta entre a República Democrática do Congo (RDC), Congo Brazzaville e Gabão, para a transmissão das práticas tradicionais do lumbo às novas gerações como fonte de inspiração das boas práticas, costumes e desenvolvimento das indústrias culturais, como fomento do turismo e da economia local, através da geração de postos de trabalho e promoção do desenvolvimento sustentado.
“Com estas premissas, estamos convictos de que Mbanza Kongo pode ser um grande centro de atracção turística e de investigação, num futuro próximo”, afirmou a ministra da Cultura que destacou o papel dos precursores do projecto “Mbanza Kongo - cidade a desenterrar para preservar”, os ex-ministros da Cultura, Ana Maria de Oliveira, Boaventura Cardoso e Rosa Cruz e Silva, incluindo o mentor do projecto, o malogrado professor Emanuel Esteves.
Após o acto, a ministra da Cultura concedeu uma conferência de imprensa, onde, de forma pormenorizada, esclareceu os aspectos inerentes ao desenrolar de todo o processo que culminou com a inscrição de Mbanza Kongo na lista de Património Mundial da Humanidade.
A governante afirmou também, no acto ocorrido à margem das celebrações da 16.ª edição das Festas da Cidade de Mbanza Kongo, que Angola apresentou à Unesco mais três propostas de sítios a serem inscritos, como são os casos das pinturas rupestres de Tchitundu Hulo, no Namibe, o Corredor do Kwanza e a cidade do Cuito Cuanavale.

População precisa de ser educada a preservar a cidade

O embaixador de Angola junto da Unesco, Sita José, afirmou ontem em Mbanza Kongo que agora é preciso continuar a educar a população para a necessidade da conservação do património, além de recomendar maior rigor na gestão e divulgação dos símbolos aprovados dentro do perímetro de protecção. 
O governador provincial do Zaire, Joanes André, entregou ao ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa, uma mensagem para o Presidente da República, cujo teor refere-se à sua dedicação e sapiência evidenciadas e que permitiram que o projecto tivesse êxito. 
O projecto para a inscrição de Mbanza Congo na lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) foi lançado em 2007, nesta cidade, com a realização da II Mesa Redonda Internacional denominada “Mbanza Congo, cidade a desenterrar para preservar”.
Desde a fundação do Reino do Kongo no século XIII, a cidade de Mbanza Kongo foi a capital, o centro político, económico, social e cultural, sede do rei e a sua corte e centro das decisões.
Mbanza Kongo foi, no século XVII, a maior vila da Costa Ocidental da África Central, com uma densidade populacional de 40 mil habitantes (nativos) e quatro mil europeus.
Com o seu declínio, a cidade de Mbanza Kongo que se encontrava no centro do reino em plena “idade de ouro” transformou-se numa vila mística e espiritual do grupo etnolinguístico kikongo e albergou as repúblicas de Angola, Democrática do Congo, Congo Brazzaville e Gabão.

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