Os monumentos são uma herança

Adriano de Melo |
17 de Abril, 2016

Fotografia: Domingos Cadência

O choque entre o moderno e o tradicional é uma das questões que mais preocupa os especialistas em património, particularmente neste período de desenvolvimento do país, em que o crescimento urbano tende a modificar parte da riqueza patrimonial nacional.

O chefe de Departamento do Património Imaterial do Instituto Nacional do Património Cultural (INPC) considera essa tendência inevitável e adiantou que o Executivo tem criado condições para reabilitar alguns deles e classificar os demais.   Emanuel Caboco,  que é o perito na área do património, disse ao Jornal de Angola  a próposito do Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, que se comemora  a 18 de Abril, que a preservação deste património é uma tarefa de todos, por ser parte fundamental da herança cultural nacional. Hoje, destacou, graças ao trabalho do Executivo este património já pode reflectir a História do país. Amanhã é o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios.

Jornal de Angola - Que medidas estão a ser tomadas para a preservação do património cultural?

Emanuel Caboco
- O Executivo tem encarado a questão da preservação do património nacional como uma das suas prioridades. Os programas e projectos de reconstrução das infra-estruturas, onde são incluídos os monumentos e sítios históricos, são uma prova disso, assim como a implementação, por todo o país, de estudos à sua identificação, classificação e valorização.

Jornal de Angola - Quais as principais dificuldades encontradas?

Emanuel Caboco - Os meios e os recursos disponíveis para a conservação e preservação destes locais são ainda bastantes reduzidos, em especial o património arquitectónico, que está bastante degradado, devido, em parte, à guerra.

Jornal de Angola - As mudanças geradas pelo desenvolvimento influenciam este património?

Emanuel Caboco - É bem verdade que há uma tendência para a modernização das principais cidades do país que às vezes choca com a sua imagem característica. Essa tendência é inevitável, mas defendo que a maioria delas preservem os seus monumentos como uma forma de transmitir as futuras gerações as várias etapas, os estilos e os sinais de evolução das cidades nacionais.

Jornal de Angola - Que relação deve existir entre a preservação do património e a dinâmica do desenvolvimento arquitectónico?

Emanuel Caboco
- As cidades são actualmente um espaço de convivência e por isso é importante que elas sejam mais saudáveis e capazes de congregar o velho e o novo, ou seja ter a capacidade de salvaguardar o património cultural nacional e sem quaisquer prejuízos para as possíveis iniciativas de modernização, tendo em conta as diferentes dinâmicas que uma cidade moderna pode ter nos tempos de hoje.

Jornal de Angola - Que diálogos devem ser criados entre estes dois campos?

Emanuel Caboco
- Um diálogo construtivo permanente. Afinal temos bons exemplos de cidades velhas intervencionadas, onde foram introduzidos elementos novos, mas são sempre valorizadas sob o ponto de vista do turístico.

Jornal de Angola - Em que lugar podemos colocar hoje o legado colonial e o pós-colonial para a nova geração?

Emanuel Caboco
- São legados que têm o seu lugar, mas é preciso ter em conta que não são os únicos, porque o património nacional não é constituído apenas pelas edificações construídas no período colonial. Temos também bens classificados que datam de períodos anteriores à presença portuguesa, assim como outros construídos depois desse período.

Jornal de Angola - Quais os locais, já identificados ou em avaliação, que pela sua importância histórica e patrimonial precisam de atenção imediata?

Emanuel Caboco
- Actualmente são vários os casos que precisam de uma intervenção imediata. O património nacional está um pouco por todo o país, embora a maioria está num estado avançado de degradação.

Jornal de Angola - O Instituto tem criado medidas mais seguras à preservação deste património?


Emanuel Caboco
- Regularmente, porque entre as sua atribuições o INPC tem um papel fiscalizador, que é bastante actuante como forma de evitar que o património venha a ser descaracterizado ou destruído. Mas acreditamos que esse papel deveria ser melhor completado pela sociedade civil e as próprias populações. Por isso, temos procurado fazer cumprir com o que a legislação estabelece e as recomendações dos organismos internacionais que actuam neste sector.

Jornal de Angola - As políticas implementadas têm criado uma memória nacional única?


Emanuel Caboco
- Para mim, todas as políticas criadas  se adequam às circunstâncias e a momentos específicos. É verdade que muitas  vezes os resultados não correspondem às expectativas, mas hoje já se sente a presença da vontade política quanto a preservação e valorização da memória colectiva. Só assim se percebe que há um significativo número de património classificado e a realização de campanhas de identificação destes. Esse género de actividade só é notável após a independência, assim como a criação de um conjunto de diplomas legais para assegurar a concretização de uma política patrimonial.

Jornal de Angola - O património reflecte a História do país?

Emanuel Caboco
- Hoje sim, porque na era colonial o património era considerado sob o ponto de vista das construções de pedra e cal, ou seja, das fortalezas, igrejas e grandes palácios. Actualmente a realidade é bem diferente. Temos hoje uma lista com mais de 200 bens classificados e não é apenas representativa do ponto de vista da presença colonial, mas também da cultura material e imaterial da Nação e dos angolanos.

Jornal de Angola - Qual é a actual situação do património imaterial nacional?

Emanuel Caboco - O património imaterial tem sido objecto de estudo e sobretudo de valorização. As línguas nacionais, os saberes tradicionais e todas as outras formas de expressão da cultura popular têm sido igualmente objecto de estudo. Para concretizar esta tarefa temos tido o apoio e a assistência da UNESCO, no domínio da formação e também do levantamento desse  património.

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