Trienal de Luanda entre utopia e real

Jomo Fortunato |
23 de Novembro, 2015

Fotografia: Fundação Sindika Dokolo

A importância da cultura como factor de desenvolvimento, as razões da existência da Fundação Sindika Dokolo, o cronograma dos projectos, o posionamento filosófico, e a natureza da instituição na conjuntura mercadológica mundial da arte, foram temas de debate num encontro, realizado ontem, num dos hotéis da capital angolana.

Alargar o espectro do diálogo cultural, auscultar as várias sensibilidades da sociedade angolana, na perspectiva de promover o intercâmbio de experiências e iniciativas já implementadas, a favor da diversidade de expressões culturais, são questões que estão na base dos projectos actuais que a Fundação Sindika Dokolo, pretende implementar.
O encontro decorreu num ambiente ameno, de assinalável cordialidade, e teve vários momentos, o primeiro dos quais foi a intervenção do coleccionador e patrono da Fundação Sindika Dokolo que falou do futuro, objectivos, e perspectivas da sua instituição. Na sequência, o artista plástico, Fernando Alvim, Vice-Presidente da Fundação Sindika Dokolo, falou do conceito e dos propósitos da III Trienal de Luanda, que este ano decorrerá sob o signo, “Da utopia à realidade”, nos seguintes termos: “A Fundação Sindika Dokolo desenvolveu nos últimos anos uma política cultural responsável e consciente conceptualizando e produzindo instrumentos e mecanismos culturais, económicos e políticos, para o desenvolvimento da arte contemporânea africana. A criação da “Sindika Dokolo Colecção Africana de Arte Contemporânea”, a sustentação do movimento cultural em Luanda, concepção e materialização do primeiro pavilhão africano na 52ª Bienal De Veneza, e a produção da primeira Trienal de Luanda, tornaram-¬se factos culturais sem precedentes no contexto africano e mundial”. Na sequência,  houve um diálogo entre a direcção da Fundação Sindika Dokolo e convidados, e seguiu-se depois um diagnóstico geral dos temas abordados,  e encerramento do encontro.

Retorno

A necessidade de uma participação não conjuntural, mas estrutural, na IIIª Trienal de Luanda, o retorno ao país de obras clássicas da escultura angolana, a necessidade de revisão dos currícula escolares sobre História de Angola, e a necessidade de conhecimento da dimensão valorativa do espólio da arte clássica africana foram os principaís temas abordados pelo patrono da Fundação Sindika Dokolo.

Trienal

A Trienal de Luanda, que este ano vai de Novembro de 2015 a Novembro de 2016, longe de ser algo conclusivo e acabado é também uma experiência e um termómetro da sociedade política angolana, onde os objectos marginais e as ideias, supostamente periféricas, são elevadas à categoria de arte, numa processo de leitura do passado histórico mais recente de Angola.  Do tradicional à arte multimédia a Trienal de Luanda é um exercício que se  contrapõe à violência, respeita a diferença, redimensiona e  valoriza o outro, enquanto sujeito artístico de acção, e resgata, pelas artes visuais e plásticas, os universos da nossa memória restante.  Hodiernamente, numa altura em que Angola caminha para reconstrução material, mental e plástica, só unidos os artistas poderão colaborar no actual processo histórico e artístico, cuja velocidade poderá ultrapassar os retrógrados e os que, por crónica distracção, pessoalizam aquilo que, naturalmente, a sociedade comunga e partilha- a arte, a cultura e as ideias. Sobre a Trienal de Luanda, e a sua colecção, Sindika Dokolo escreve o seguinte no seu manifesto: “Trienal de Luanda, que será uma realidade este ano, questiona os habituais mecanismos de promoção da cultura em África. Concebida, desenvolvida e financiada em Angola pelos actores culturais privados e públicos, a Trienal permitirá pôr em evidência os artistas, comissários e produtores que possibilitaram a circulação em África e no mundo da estética contemporânea africana. Angola será, o tempo da Trienal, o centro de gravidade cultural de África. O nosso objectivo, ao criar a colecção em Luanda, é confrontar o público com as obras de arte africanas, num primeiro momento, sem limitações arbitrárias. Propomos um movimento que sustenta a produção cultural, cuja finalidade é a criação de um centro de arte contemporânea em Luanda e a integração de Angola no circuito internacional da arte. Consideramos, efectivamente, que o acesso à arte tal como o acesso à educação, à água potável e à saúde é uma aspiração legítima dos povos”.

Mecenato   

Tendo em consideração o contexto local, as particularidades dos lugares das comunidades, e as diferentes tendências artísticas, a Fundação Sindika Dokolo pretente utilizar de forma  cuidadosa os recursos culturais e artísticos, tendo em atenção os conhecimentos locais, as competências e o registo documental da história da arte africana.  Neste sentido, a Fundação Sindika Dokolo tem apoiado vários projectos em diferentes domínios da arte, porque entende que apoiar a cultura significa atribuir um papel activo aos artistas para que possam determinar o seu próprio futuro, restaurar o agenciamento da mudança para aqueles por quem os esforços do desenvolvimento podem ter um impacto, o que é crucial para a durabilidade e o progresso de Angola a médio prazo.

Manifesto

No seu manifesto, Sindika Dokolo escreve o seguinte: “Actualmente o nosso continente enfrenta o maior desafio da sua história, o combate ao subdesenvolvimento. Vivo inquieto com esta constatação. O Africano parece ter perdido a auto-confiança. A nossa incapacidade em encontrar uma solução miraculosa para os problemas do continente tem induzido em dúvida e alimentado um sentimento comum de culpabilidade. Deixámos de ousar pensar, inventar, decidir o nosso futuro, reivindicar o nosso lugar no conserto das nações. O «complexo do subdesenvolvido» provocou a emergência de uma auto-censura. (...) Contrariamente a uma ideia bastante difundida, os orçamentos culturais dos países africanos são importantes, proporcionalmente aos recursos disponíveis. Torna-se desde logo paradoxal que a arte seja ainda pensada em muitos países africanos mais como um acessório periférico do que como eixo estratégico da acção política do Estado”.

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