Património em risco

Isidoro Samutula | Dundo
22 de Junho, 2014

Fotografia: Benjamim Cândido | Lunda Norte

As danças cerimoniais dingumbe, tvulemba, kariangu, kasebu, diximbi, phamba, ku-ndulava e marimba praticadas pelos povos balubas, basuku e bângalas, da Lunda Norte, estão a perder o seu valor por falta de incentivos para os seus praticantes.

Para alterar esta situação, a direcção provincial da Cultura da Lunda Norte vai criar casas de cultura, para permitir a interacção dos artistas de diversas áreas com o público.
O primeiro passo, segundo o director provincial da Cultura, Costa Muacahiana, consiste em garantir a construção de edifícios que possibilitem a promoção e divulgação de actividades ligadas à dança, música, teatro e artesanato.
Além da construção das infra-estruturas, o director provincial referiu que estão a ser criadas condições para incentivar os agentes culturais a apresentarem continuamente as suas actividades, de forma a valorizar cada vez mais a cultura local.
O desaparecimento do património intangível, como a “mukanda” (circuncisão), o “cafundenji” (casamento), os provérbios e os contos tem preocupado as autoridades da província.
“No passado constituíam uma das razões de atracção nas comunidades, hoje, apenas a circuncisão tem merecido atenção dos populares”, realçou o responsável, que apontou o período de guerra que assolou o país como uma das razões que levou os organizadores destas práticas a serem desalojados das suas localidades.
Os municípios do Cuilo, Lubalo e Caungula são os que continuam a praticar a circuncisão, enquanto o casamento tem sido feito em algumas regiões da província, mas com pouca frequência. O mesmo não acontece com a divulgação de provérbios, que são utilizados para transmitir aos jovens instrução e conselhos, assim como incentivo à criatividade. Em contrapartida, Costa Muacahiana considerou de positivas as produções de esculturas e cestaria diversa, graças à existência de 86 artesões agrupados em núcleos, nos municípios de Cambulo, Capenda Camulemba e Lubalo, embora não disponham de apoios.
A realização de feiras para permitir a venda de artesanato, e mobilizar os empresários locais para financiarem iniciativas culturais, é uma das apostas do Governo Provincial.

Função das danças


A riqueza cultural da Lunda Norte circunscreve-se a danças, cerâmica e artesanato, com realce para as esculturas de madeira, além da construção de habitação típica.
Os povos desta região, os tchokwé, canga, bilumbo, kathakangalala, kakongo e matapa praticam com mestria as danças “akishi”, “cianda”, “kalukuta”, “maringa”, “kandowa”, “makhopo”, “cisela”,  “kandjendje” e “likembe”.
Existem danças típicas para festivas, rituais, recepção de visitantes, entronização de chefes tradicionais e entretenimento, que são apoiadas por uma variedade de instrumentos musicais, como batuque, “cingunvu”, “ndjimba”, “cissanje”, “muiyemba”, nas quais intervêm também mascarados “akishi” (palhaços).
Os “akishi” (palhaços) são identificados pelas máscaras que utilizam, entre as quais se destacam: “cikunza”, patrono da circuncisão, “cikungu”, ligado às cerimónias de investidura dos chefes tradicionais. A “mwana pwó” representa a beleza e o encanto das mulheres tchokwé, a “cihongo” a coreografia tradicional tchokwé e “katoyo” as danças recreativas.

História


A Lunda Norte é o resultado da divisão da então província da Lunda, criada enquanto distrito no final do século XIX, mais precisamente a 13 de Junho de 1895, pelo regime colonial português. O distrito Lunda tinha como capital Henrique de Carvalho. Com a conquista da Independência Nacional, em 1975, surgiu a necessidade da divisão da Lunda, em Sul e Norte, o que resultou na criação da província da Lunda Norte em 1978, considerada como província mineira, que tem nove municípios e 25 comunas.
A província é um celeiro de variados grupos etnolinguísticos. Esses grupos convivem harmoniosamente, seguindo cada um a sua realidade histórica e cultural.
Habitam na Lunda Norte os povos tchokwé, arund (Lunda), baluba, kakhongo, matapa, kamay, bakwanfia, bakhete, bangala, bondo, baholo, basuku, khari, khoji, songo,  minungo, paka e baphende, que  participaram no processo de descolonização, com destaque para as figuras dos sobas Khelendende, Kawngula e Ngunza Kawona.

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