Pesquisa rebate a tese da origem angolana do Tango

Jomo Fortunato |
20 de Abril, 2015

Fotografia: DR |

Enquanto investigador, Simão Souindoula  é  autor de importantes artigos e comunicações científicas sobre antropologia e linguística angolana, assim como várias abordagens sobre expressões artísticas, musicologia,  literatura, diáspora cultural africana, e estudos pertinentes sobre a origem angolana do tango argentino.

Da antropologia aos estudos literários,  o foco de investigação de Simão Souindoula  estende-se à generalidade dos assuntos culturais angolanos e africanos, incluindo contributos à compreensão  histórica da Música Popular Angolana, com um estudo biográfico sobre o cantor e compositor, Manuel de Oliveira, eminente guitarrista do grupo São Salvador, fundado em 1949. Ficaram conhecidos os seus textos sobre “Kimpa Vita, uma tragédia inacabada”, publicado no Jornal de Angola, “Sítios e instituições de memória do mundo negro”, apresentado em conferência temática na África do Sul, e  “Norte-americana reedita, em Paris, romance sobre a Rainha Nzinga,” apresentado na União dos Escritores Angolanos, em  Maio de 2011, sobre o livro “Njinga, Reine d’Angola”, de 1687, obra que contém manuscritos do padre italiano, Cavazzi de Montecuccolo, e prefácio dos historiadores norte-americanos Linda Heywood e John K. Thornton, uma versão mais pormenorizada dos relatos da “Istorica Descrizione de’ tre regni Congo, Matamba e Angola”,  do referido padre, editados em 1568.
Num artigo publicado no site do Instituto Latino Americano de Tradições Afro- Bantu, Simão Souindoula escreveu que “ Angola, terra de um considerável potencial económico, ensaiou um decénio relativamente pacífico, e tem um caminho bem traçado para tornar-se num dragão africano e peça essencial do Renascimento do continente. Mas deve explorar, ao máximo, os inestimáveis valores cristalizados nas suas diferentes componentes etno-linguísticas bantu, maioritárias no território, à volta de conceitos de paz e reconciliação nacional”.
Filho de Jorge Kiala e de Lenda Maria, Simão Souindoula nasceu no dia 11 de Maio de 1956 em Maquela do Zombo, Província de Uige.  Depois de concluídos os estudos primários e secundários efectuados em Brazzaville, Simão Souindoula  obteve o Bacharelato  em literatura, na Universidade de Brazzaville, em 1975. Em 1979 efectou  uma licenciatura em letras, opção história, pela Universidade Marien Ngouabi, igualmente em Brazzaville. Frequentou ainda, em 1981, a Academia de Ciências da URSS, onde obteve os certificados de estágios em etnografia e arqueologia, e o certificado de investigação e publicação, do Instituto de África da Academia de Ciências da Rússia, em 1997. Em 2008, foi a vez de obter o  Certificado da International Institute Graduate School, Leadership Program, do Departamento de  Estado, dos Estados Unidos  da América.

Funções


Simão Souindoula foi  Chefe de Departamento da Biblioteca do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, de 1979 a 1980, assistente no Laboratório e Museu Nacional de Antropologia, de 1980 a 1984, professor de Antropologia da  Rádio Escola, de 1982 a 1984, e de história de Angola do ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação, do Lubango, Província da Huila, de 1983 a 1984. Na sequência,  foi Director do Museu Nacional da Escravatura, e Coordenador do Comité Nacional angolano do Projecto da UNESCO, “A rota dos escravos”.

Mundo


Fora de Angola, Simão Souindoula foi consultor do Centro Internacional de Civilização Bantu, de 1984 a 2006, em Libreville, no Gabão, e Director das suas Produções Culturais onde coordenou durante vinte e dois  anos, vários  programas de publicações e comunicações científicas, assim como projectos de  promoção artística.
Investigador e colaborador da Universidade Omar Bongo, em Libreville, Simão Souindoula foi ainda Vice-presidente do Comité Científico Internacional do Projecto da UNESCO “A Rota dos Escravos”, Professor das Universidades de São Paulo, Bahia e Florianópolis, no Brasil, e Membro do Comité Cientifico do Terceiro Festival Mundial das Artes Negras.
Membro do Comité  de Direcção do Festival Pan-africano de Música, em Brazzaville, e do Centro de Estudos Linguísticos e Históricos da Tradição Oral, em Niamey, Níger, Simão Souindoula foi também consultor da União Africana e União Europeia. Presidente do Júri dos Prémios Ensarte, e Festival da Canção de Luanda, foi distinguido pela Federação brasileira das Comunidades Negras, em São Paulo,  e do FESPAM, em Brazzaville. É presidente internacional, e representante do ILABANTU, Instituto Latino Americano de Tradições Afro- Bantu, em Luanda.

Depoimento


O documentarista  e jornalista cultural, Francisco Pedro, trabalhou com Simão Souindoula em diversos projectos, e fez o seguinte depoimento sobre o investigador: “  A figura do historiador angolano Simão Souindoula está estritamente vinculada à defesa do património tangível e intangível dos povos Bantu. Importa realçar o seu rigor académico, longe de fanatismos ou quaisquer tipos de preconceitos. Conheci-o quando comecei a dar os meus primeiros passos de jornalista, no final da década de noventa. Embora Simão Souindoula estivesse a residir em Libreville, no Gabão, enviava textos críticos sobre a promoção das artes plásticas africanas, em geral, e angolana em particular, quando dirigia o CICIBA, Centro Internacional de Civilizações Bantu. Sei que agrada ao historiador, divulgar as raízes e todo o acervo antropológico das comunidades africanas e afro-descendentes, facto que se denota na profundeza dos seus textos, repletos de confrontação com dados da cultura universal”.

Tango

Simão Souindoula rebate a tese da origem angolana do Tango, no texto “Rota sul-americana da escravatura,  renascimento angolano do tango” basedo no livro do uruguaio, Vicente Rossi “Cosas de negros”, de 1926, editado depois com o título  “ Los origines del tango y outros aportes al folklore rio platense” , de 2009. “Nota-se no fim do livro, vigorosas notas complementares, nas quais o autor, com uma surpreendente clarividência científica, quebra numerosos preconceitos sobre a “negrada“ e fornece interessantes informações sobre, entre outras comunidades presentes nos bairros “del Sur de Montevideo”, os “curimba”, escreve o investigador. Rossi analisa ainda  “a recursiva locução interjectiva bantu, bem incrustada nos “candombes”, “oye, ye, yumba! …calu, gan guê!”.  Apreende-se, ai, que os primeiros escravos desembarcados, em 1693, em Buenos Aires, originários do “grupo bantu, los congos y angolas “ foram levados pelos traficantes portugueses, que haviam esvaziado o Reino dos Nzinga, e organizado os grandes centros de exportação de peças das índias, a partir de São Paulo de Loanda, em 1575, e  de São Felipe de Benguela, em 1617. Ainda segundo Rossi, outras confrarias da “ negrada rio platense “ contribuiram para o enraizamento e enriquecimento do tango, em Montevideo, através da  presença dos “Banguela”, “Lubolos”, “Lugolas” ou “Lubolas”, “Humbueros”, “Cambundas”, “Hombes”, e “Bambas”.  Importa referenciar o livro “A comparative study of the Bantu and semi-Bantu Languages “ de Sir Henry H. Johnston, publicado em 1917, citado por Vicente Rossi, que confirma, de forma insistente,  que  “tango es un vocable africano”.

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