Cultura

Poética nacionalista nas canções intemporais de Ruy Mingas

Jomo Fortunato

A intensa musicalidade no interior da família, a herança dos nobres ensinamentos do tio, o carismático Liceu Vieira Dias, e o recurso à poesia de intervenção, absorvida, fundamentalmente, nas tertúlias com escritores nacionalistas da Casa dos Estudantes do Império, constituem aspectos de envolvência sociológica, que explicam o processo de formação da personalidade artística de Ruy Mingas.

Ruy Mingas é um dos protagonistas do filme “O ritmo do Ngola Ritmos” do realizador António Ole
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Autor de uma obra intemporal, pela magnitude artística e pertinência textual, verdadeiro ícone da música engajada e arauto da renovação estética da Música Popular Angolana, Ruy Mingas revelou sempre um talento natural para a música, tendência que foi estimulada pela paixão musical, herdada da sua mãe e dos avós, Zé e Guinhas, que tocavam, respectivamente, concertina e dikanza.

Motivaram ainda o processo de criação musical de Ruy Mingas, a influência do cancioneiro tradicional luandense, estilizado na obra do conjunto Ngola Ritmos, a audição dos clássicos da Música Popular Brasileira e da soul music, norte-americana, igualmente uma herança do Liceu Vieira Dias, aspectos culturais que o cantor soube aliar a uma constante preocupação de natureza política.

Primórdios

Distante dos palcos mas muito próximo da música, Ruy Alberto Vieira Dias Rodrigues Mingas nasceu no dia 12 de Maio de 1939, em Luanda, e a tia, Sinclética Torres Vieira Dias, tocava piano. Filho de André Rodrigues Mingas e de Antónia Diniz do Aniceto Vieira Dias Mingas , Ruy Mingas chegou, pela primeira vez, em Setembro de 1958, a Portugal, na condição de estudante e atleta do Benfica, na categoria de salto em altura, dos 110 metros, tendo sido o primeiro angolano a bater o recorde na modalidade, no Estádio dos Coqueiros, em 1957.

No auge da sua juventude, Ruy Mingas viveu as transformações políticas da sua época, consubstanciadas na curiosidade e informação sobre o desenvolvimento da acção dos movimentos de libertação em África, sobretudo nas colónias portuguesas, constituindo, a prática musical, um antídoto contra a nostalgia, ocasionada pelo distanciamento do seu povo, e pelo romantismo que provocava a saudade da sua terra.

Império

Seis meses depois de ter chegado a Portugal, Rui Mingas recebe a notícia da prisão do seu pai, acusado no célebre processo 50, facto que o abalou psicologicamente, criando o duplo conflito de viver em Lisboa, capital da colonização, e de sofrer, no seio familiar, as agruras da repressão. Na Casa dos Estudantes do Império, Ruy Mingas conheceu e conviveu com importantes figuras da luta de libertação, Agostinho Neto, Paulo Jorge, Amílcar Cabral, Carlos Everdosa, Mário Matchungo, Henrique Abranches, e Joaquim Chissano.

No entanto, foi com Gentil Viana que Ruy Mingas tomou contacto com os primeiros textos da angolanidade literária da época, e inicia a sua tentativa de criar melodias sobre textos poéticos. É assim que surge a sua primeira criação melódica, sobre o texto, “Muimbuuásabalu”, de Mário Pinto de Andrade, iniciando um exercício que diz elaborar com acentuada facilidade. Numa das sessões de convívio, na Casa dos Estudantes do Império, Ruy Mingas encantou os nacionalistas Agostinho Neto e Joaquim Chissano, que, visivelmente emocionados, o aplaudiram de pé, quando interpretava o tema, “Monetu uákassule”, a sua primeira canção cantada para um público restrito.

As melodias de Ruy Mingas, criadas sobre textos de consagrados poetas angolanos, e a sua entrega, a nível de interpretação e timbre vocal, reflectiam o distanciamento do cantor da sua terra natal, em canções como, “Ixi iami” (minha terra), “Minha Infância” e “Cantiga para Luciana”, temas do seu primeiro single, gravados pela etiqueta Zip zip, em 1968.

Ngola Kizomba

Na senda da necessidade de afirmação cultural da angolanidade, pela música, surgiu, em 1961, o conjunto “Ngola Kizomba”, uma formação musical da Casa dos Estudantes do Império, que integrava Ruy Mingas (voz e violão), Augusto Lopes Teixeira (Tutu), no violão, Tomás Medeiros (percussão), Katiana (voz), Jorge Hurst (Dikanza), e Augusto Heineken (Pestana), na voz. O conjunto “Ngola Kizomba”, que, anos depois, acabou por ser silenciado pela PIDE, era formado, maioritariamente, por angolanos, exceptuando Tomás Medeiros, de nacionalidade são-tomense, que dizia estar possuído pela alma artística angolana.

Nacionalismo

Julgamos que, em Ruy Mingas, a componente nacionalista, consubstanciada na luta pela emancipação política de Angola, que compreende a envolvência com importantes figuras dos movimentos de esquerda portuguesa, tais como José Afonso, Padre Fanhais, Adriano Correia de Oliveira e Fausto, não deve ser separada do seu processo de criação musical. Entendemos que a tomada de consciência política, terá sido consequência, directa, da valorização da cultura angolana em situação colonial. Ruy Mingas foi preso, em 1962, por subversão, e enviado para a Guiné-Bissau, onde permaneceu dezanove meses. Em situação de reclusão, cantou para os soldados e foi liberto. “Este homem não pode estar preso”, disse na altura o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, estacionado na Guiné-Bissau.

Violão

Embora influenciado pela música de Carlos Argentino, Dorival Caymi, Sílvio Caldas e Ângela Maria, a presença do tio Liceu Vieira Dias, que chegou a viver, com a mulher, na casa dos pais e dos avós de Ruy Mingas, foi de suma importância nas tertúlias, e nos debates sobre o valor patrimonial do cancioneiro luandense, facto que propiciou o surgimento de um ambiente natural para a aprendizagem do violão, numa época de intensa audição das novidades discográficas de música estrangeira, trazidas pelos marítimos angolanos. “O Tio Liceu, recordou Ruy Mingas, era uma personalidade que cantava canções em inglês e tocava piano, um fenómeno raríssimo na época, sobretudo por ser negro, e era uma individualidade muito querida na Liga Nacional Africana. Eu e o meu primo Morgado, o França Van-Dúnem, aprendemos os primeiros acordes de violão com o tio Liceu, muito embora tenha desenvolvido, em Lisboa, o meu processo de aprendizagem com o Gentil Viana”.

Depoimento

Sobre o disco “Memória”, 2011, um CD que reúne canções inéditas e momentos áureos da carreira do cantor, com novos arranjos instrumentais e participações especiais, transcrevemos um extracto do texto de apresentação do disco, da autoria do escritor Pepetela, que considera o cantor “um poeta que nunca quis ser”. “Rui Mingas foi acompanhando todas as fases de criação da identidade nacional e da luta pela sua afirmação. Toda uma geração que encetou essa luta de libertação teve sempre a companhia fiel da voz forte e bem modulada, deste criador singular, continuador das melhores tradições dos artistas anteriores, com particular destaque para o conjunto Ngola Ritmos, muita música da qual ele sempre cantou. O trabalho discográfico que agora se apresenta, mostra bem como no meio dos maiores acontecimentos que modularam Angola do futuro estava constantemente a música de Ruy Mingas”.

Discografia e direcção musical de Thilo Krasman

Ruy Mingas cultivou uma estética de criação musical, permeável à fusão de ritmos angolanos, com a expressão das suas mais directas influências. Daí que não seja excessivo afirmar que Ruy Mingas está registado na história da Música Popular Angolana, como um dos primeiros intérpretes que aproximou, com assinalável êxito, a sua musicalidade, aos clássicos da literatura angolana. Os encontros de Ruy Mingas, em 1966, com Pedro Osório, Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho, dos “Sheiks”, no Café “Branco e Negro”, na Avenida de Roma, em Lisboa, e, fundamentalmente, com o acordeonista e baixista, Thilo Krasman, marcaram o início das gravações discográficas com as canções: “Ixiiami” (minha terra), “Minha infância” e a lindíssima “Canção para Luciana”.

Em 1968, surgiram os singles com as canções: “Muadiakimi”, de Barceló de Carvalho e Alberto Teta Lando, “Mona amiKibala”, de Tonito, “Mona kingi xiça”, de Barceló de Carvalho, “BirinBirin”, “NgakuambelaKiá”, “Diángo ué”, “Colonial”, “Palamé”, e “Muxima”, canções inspiradas na tradição musical do Ngola Ritmos, reunidas, em 1994, depois da independência, no CD, “Angola por Ruy Mingas” com “Monangambé”, um poema de António Jacinto, e outras canções angolanas. Em 1973, Rui Mingas gravou, sob direcção musical de Thilo Krasman, acordeonista e orquestrador português de origem alemã, as canções: “Makesu”, “Ngidifangana”, “Morro da Maianga”, “Hoji iafu” e “Poema da Farra”, sobre um conjunto de textos da autoria do poeta Mário António Fernandes de Oliveira.

São deste mesmo ano as canções: “Pango dia Penhi”, de Prata, “Mamã terra”, de Onésimo Silveira, “Quem tá gemendo”, de Solano Trindade, “Suzana”, de Belita Palma, “Muimbo uáSabalo”, de Mário Pinto de Andrade, “Hoola Hoop”, uma recolha do cancioneiro popular, “Marimbondo uángilu mata”, de António Pascoal Fortunato, Tonito, Apolo 12, de Belita e Rosita Palma, e “Adeus à hora da largada”, de Agostinho Neto, acompanhado por Marcus Resende (piano), Daniel Louis (bateria), José Massano Júnior (percussão), Luísa Gonçalves, Júlia Mingas, Carlos Vieira Dias e André Mingas (coros), com Rui Mingas e Carlitos Vieira Dias, nas guitarras. Estas canções foram reunidas num CD, editado pela Srauss, em 1995, com o título “Ruy Mingas”.

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