Cultura

Prémio Nacional de Cultura e Artes distingue José Agualusa e Teta Lando (a título póstumo)

Manuel Albano

O músico Teta Lando (a título póstumo), o escritor Eduardo Agualusa, o pintor Don Sebas Cassule, a Associação Globo Dikulu, o pesquisador Toni Mulato, o realizador Dorivaldo Cortez e a historiadora Constança Ceita são os vencedores do Prémio Nacional de Cultura e Artes 2019.

Para o júri, Alberto Teta Lando merece a distinção pelo conjunto da obra, cuja longa, rica, bela e dura trajectória musical
Fotografia: DR

O anúncio foi feito, ontem, no Centro de Imprensa Aníbal de Melo (CIAM), em Luanda, pelo antropólogo Manzambi Vuvu, presidente do júri, para quem os vencedores mereceram tal honra, devido à qualidade das obras, à sua acção e influência para a sociedade.

Os criadores angolanos distinguidos, como reconhecimento do trabalho feito ao longo dos anos, em prol das artes e da cultura nacional, recebem os prémios, avaliados em três milhões de kwanzas, numa cerimónia oficial, a ser realizada no dia 8 de Novembro, às 18h00, no Cine Tropical, em Luanda.
Para o júri, o músico Alberto Teta Lando merece a distinção pelo conjunto da obra, cuja longa, rica, bela e dura trajectória musical soube cantar os diferentes momentos históricos do país, misturando o drama das realidades do contexto vivido com a esperança de os angolanos reviverem a paz, os hábitos e costumes locais, através do domínio imaginário expresso nos provérbios da filosofia de vida “ubuntu”.
As composições de Teta Lando, destacou o júri, tornaram-se clássicos do cancioneiro nacional, assim como foram e continuam a ser interpretadas em várias versões, adaptadas às novas correntes musicais e diversos ritmos angolanos, por artistas angolanos e estrangeiros.
O escritor José Eduardo Agualusa foi distinguido pelo facto de nas suas obras, a investigação, a memória histórica, a actualidade, o questionamento, a reflexão e o sentido estético serem um ponto comum, que lhe permitiu, ao longo de anos, propor um extenso e vital percurso criativo, capaz de contribuir para a projecção da literatura angolana no mundo.
O prémio, admite, é o reconhecimento da ousadia e o comprometimento do escritor com as causas e as problemáticas sociais e políticas deste tempo, que lhe permitiram assumir posições intelectuais para ajudar, por meio da controvérsia e da polémica reflexiva, no surgimento de leitores emancipados.
O pintor Don Sebas Cassule tem o seu nome inscrito no “hall” dos vencedores do prémio devido ao seu percurso, currículo, às inovações, participações em eventos e distinções obtidas, a nível nacional e internacional.
Os feitos do artista plástico, explicou o júri, realçam a forte componente criativa, desenvolvida ao longo de mais de 20 anos com muita perícia. Os trabalhos do criador, que incluem ainda as áreas de desenho e pintura, têm servido de “inspiração” para muitos jovens talentos. Este ano, o júri decidiu ainda atribuir o prémio à Associação Globo Dikulu pela realização do Festival Internacional de Teatro do Cazenga (Festeca), cuja criatividade artística e cénica tem permitido, ao longo de 14 anos, dar, de forma contínua, maior abertura às artes cénicas feitas por nacionais ou estrangeiros.
A forma peculiar e diferente de abordar questões relacionadas com a realidade do país, em particular das comunidades, mas sempre com um forte pendor de formar, educar, moralizar, consciencializar e entreter as pessoas, também foi motivo para a atribuição do prémio.
O pesquisador António Domingos “Toni Mulato” foi o distinguido este ano na dança, pela pesquisa feita em prol da recuperação das danças carnavalescas, em particular da “cabecinha”, um dos poucos estilos populares, que ainda preservam os traços culturais da angolanidade.
A viver o Carnaval desde a década de 80, explicou o júri, o pesquisador tem sabido lutar pela defesa das tradições, em especial às ligadas à matriz angolana, num trabalho que já várias vezes recebeu o reconhecimento dos organizadores da “festa do povo”. A ampla veia criativa do realizador Dorivaldo Cortez valeu-lhe o prémio na categoria de Cinema e Audiovisual. Como membro da segunda geração de cineastas angolanos, tem ajudado muito nas campanhas de sensibilização social sobre saúde, prevenção e combate à corrupção, com o suporte do grupo Julu.
O trabalho do artista, acrescenta o júri, tem repercussões a nível nacional e internacional, com filmes como “Falso Perfil” a serem referências na Europa. O realizador tem usado a sétima arte para incentivar a educação sobre a cidadania.
O livro “O Estranho Destino de um Sertanejo na África Central e Austral: A Transculturação de Silva Porto (1838 1890)” deu à historiadora Constança Ceita o prémio na categoria de Investigação em Ciências Humanas e Sociais, pelo carácter inovador, pertinência científica e académica do trabalho.
O júri considera ainda o livro um estudo sobre as relações entre africanos e europeus, tendo como base o relacionamento entre Silva Porto e a sociedade umbundu, no contexto do tráfico de escravos e da colonização, cujo teor ajuda a compreender as sociedades africanas.

Secretário de Estado enaltece os vencedores

O secretário de Estado da Cultura, Aguinaldo Cristóvão, destacou, na cerimónia de anúncio dos vencedores, a qualidade das obras dos nomeados deste ano, cujo teor serve de incentivo para as novas gerações.
Para o dirigente, os nomeados são um sinal da própria inovação do prémio, que, ao longo dos anos, tem sofrido alterações no regulamento, em função do contexto político e económico do país. “Uma das incorporações do prémio não é apenas observar a obra, mas a consistência da carreira dos vencedores”, explicou. Pelo impacto e importância do galardão, a nível do país, o Ministério da Cultura, disse, está a trabalhar para assumir o compromisso de criar um programa para garantir, doravante, aos laureados, terem maior contacto com o público.
O Prémio Nacional de Cultura e Artes é a mais importante distinção do Estado angolano, atribuído para incentivar a criação artística e cultural, bem como a investigação científica, em especial no domínio das Ciências Humanas e Sociais.

 

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