Prémio Camões um apaixonado por África


2 de Novembro, 2014

Fotografia: Divulgação

No discurso em que aceitou o prémio, o africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva admitiu que, muitas vezes, pensa no poeta português “com inveja” quando escreve.

O poeta, historiador e diplomata brasileiro Alberto da Costa e Silva declarou na noite de quarta-feira a sua paixão por África quando recebeu o prémio Camões 2014, entregue no Rio de Janeiro pelo secretário de Estado da Cultura português, Jorge Barreto Xavier.
Bem-humorado, o homenageado, de 83 anos, escolhido por unanimidade pelo júri, começou o seu discurso agradecendo aos que decidiram atribuir-lhe o prémio e também “aos que não contestaram a decisão”.
“Embora convicto da injustiça dos prémios, recebo-o com alegria e um grande abraço”, afirmou Alberto da Costa e Silva.
Modesto, o diplomata aposentado e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), chegou a colocar em dúvida o seu título de poeta - pese os dez livros de poemas publicados ao longo da vida - dando maior ênfase à sua trajectória como historiador e, sobretudo, como estudioso do continente africano.
“Poeta quis ser e agora consolo-me com esse prémio dizendo-me que fui poeta e, quem sabe, sou”, brincou, para então falar da sua paixão por África e de todo o esforço que dedicou ao estudo do continente.
“Cedo voltei-me para a história, apaixonei-me pelo traçado da África e a ele dediquei as horas, quase sempre cansado, que me sobravam de um ofício de diplomata que sempre me cobrou total devoção, a que me dei com interesse e gosto”, disse.
Para além da poesia, o lado de ensaísta e de historiador de Costa e Silva deu origem a importantes escritos sobre a cultura africana e a sua influência no Brasil, entre eles “A Enxada e a Lança - A África antes dos Portugueses”, “As relações entre o Brasil e a África Negra” e “Um Rio Chamado Atlântico”.
O homenageado relembrou ainda a trajectória do poeta português Luís de Camões, que dá nome ao prémio, admitindo muitas vezes ter reflectido sobre ele quando tentava entender e narrar histórias africanas.
“Pensei nele (Camões) com insistência e inveja muitas vezes quando escrevia, sobretudo sobre a África índica, e sentia em mim um conflito do facto, romance, e mito”, afirmou.
Segundo Costa e Silva, o poeta português foi também um “historiador à sua maneira”, ao fazer um bom “matrimónio da memória com a imaginação”.
Foram muito os que se sentaram na plateia do auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional brasileira, no centro do Rio de Janeiro, para ouvir o africanista, entre familiares, amigos e diversos autores “imortais” (membros da Academia Brasileira de Letras).
“O Alberto é um desses tesouros que dividimos com Portugal e com África, é um intelectual da maior importância. É um pouco o intelectual que descobriu a África para nós, brasileiros, e mostrou que, na verdade, é tudo uma coisa só”, disse o escritor brasileiro Zuenir Ventura.

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