Preservação de valores no palco do Kilamba

Marcelo Albano
26 de Agosto, 2016

Fotografia: Rogério Tuti

Um dos problemas das sociedades conservadoras é aceitar o que está fora dos padrões. Essa é a proposta da peça “O elevador” do Colectivo de Artes Ombaka da província de Benguela, a ser exibida amanhã, às 20h00, no Instituto Superior de Artes, no âmbito do Circuito Internacional de Teatro (CIT).

Em declarações, ontem ao Jornal de Angola, o director do grupo Ombaka, Mileto Jonatão Chiambo, disse que a peça narra a história de uma prostituta, um homossexual, um claustrofóbico, uma crente, um autista e um técnico de elevador, que partilham as suas experiências num único lugar: o elevador.
A peça, explica, é representada por sete actores e tem a duração de 45 minutos, onde cada personagem vai manifestar as suas inquietações e a falta de preparo para viver e aceitar as diferenças partidárias, sociais, culturais, religiosas e económicas.
Durante a “viagem” no elevador, há uma paragem súbita, gerando no sítio um conflito de gerações e choque cultural entre o moderno e o tradicional, cuja discriminação torna-se o foco dos acontecimentos, disse, Mileto Chiambo.
Assentes em factos reais, refere, a peça é uma tentativa de chamar-se atenção à importância do respeito mútuo, por ser possível alcançar-se um bom convívio com o outro diante das diversidades culturais e opções de vida. “Muitas das nossas dificuldades nas relações são, justamente, porque esperamos que o outro seja como nós.”
Explica que, tanto nas sociedade modernas como nas conservadoras, saber conviver com as diferenças tem sido um desafio. “Precisamos de sabedoria e respeito para lidar com situações e pessoas que possuem opinião divergentes", defendeu o responsável.
Vencedor da primeira edição do Prémio Provincial de Benguela, na categoria de Teatro, em 2014, o Colectivo de Artes Ombaka pretende ver um maior dinamismo e impulso do empresariado local, quanto às actividades ligadas às artes cénicas na terra das “acácias rubras”, em particular o teatro.

A consagração


O Colectivo de Artes Ombaka foi formado no dia 5 de Março de 2005, em Benguela, e tem vários prémios conquistados em festivais de teatro, além de participações nos festivais do Cazenga, da Paz (Luanda), Mostra de Esquete Teatral no (Brasil), no Internacional de Teatro do Inverno de Moçambique, em 2014, Voz África e Efetikilo, ambos da província do Huambo.
O grupo dedica-se também à realização de espectáculos de dança na cidade de Benguela. “Queremos conquistar um prémio nacional ou internacional de teatro, por forma a consagrar as carreiras do nossos actores e a dar um outro prestígio às nossas actividades, que têm sido desenvolvidas ao longo desses anos de existência.”
A falta de mais espaços e de salas convencionais na província tem sido um dos maiores problemas dos grupos de Benguela. “A dinâmica que se pretende dar às mais variadas manifestações artísticas locais passa, também, por um maior investimento nas infra-estruturas, de maneira a incentivar o surgimento de outros grupos na preservação e divulgação dos hábitos culturais da região”, sustentou.  Actualmente, embora reconheça os esforços empreendidos por alguns grupos na tentativa de adaptar-se locais para a exibição de peças dos municípios, o Cine Monumental, para Mileto Chiambo, é a referência como uma das melhores salas para o efeito. “A participação do público nas salas ainda é pouca, precisamos de uma maior mobilização. Temos salas quase sempre preenchidas, quando os grupos de Luanda se deslocam a Benguela, pelo estatuto que muitos deles granjeiam nos mercados nacional e internacional.”

Feiticeiro e inteligente


Amor, inteligência e tradição, um cenário perfeito que nos transporta ao contexto cultural angolano, em particular, e africano, em geral, é a outra proposta da peça “O feiticeiro e o inteligente” que o grupo Etu Lene exibe, no domingo, às 20h00, no Instituto Superior de Artes, no âmbito do Circuito Internacional de Teatro (CIT).
No espectáculo, o grupo de teatro demonstra as consequências do choque de culturas, através da história do feiticeiro Kamba Mbije que tem uma única filha que, à noite, usa como mulher.  Kamba Mbije impedia a filha de ter um relacionamento amoroso e, para impedir que o jovem que a pedira em casamento se encontrasse com ela, exigia que o mesmo trouxesse um peixe que não fosse nem de água doce, nem de água salgada.
O grupo notabilizou-se na década de 90 com esta peça no programa televisivo “Em Cena” da Televisão Pública de Angola, que narra a astúcia do jovem que diz já ter o peixe pedido por Kamba Mbije, mas que não podia ser entregue nem dia nem de noite.
Beto Cassua, encenador do grupo, afirmou ao Jornal de Angola que a intenção é manter a originalidade da peça, por permitir trazer à reflexão aspectos importantes da cultura nacional. Para o encenador, o Circuito Internacional de Teatro é mais uma oportunidade para a troca de experiência entre os grupos nacionais e estrangeiros e mostrar os avanços, no país, no domínio das artes cénicas, em particular no teatro.
Fundado a 26 de Abril de 1993, o grupo Etu-Lene conta com 10 integrantes e já levou em cena mais de duas dezenas de obras, com destaque para “O feiticeiro e o inteligente”, “Ukumbo”, “Marcas do passado”, “Balumuka” e “Titanic”. O colectivo venceu o concurso “Prémio Cidade de Luanda/2001”, com a obra “Balumuka”, conquistou o “Prémio Nacional de Cultura e Artes/2002”, com a peça “Uíje-Uijia”, e, em 1995, com a mesma obra,  arrebatou o Prémio Revelação de Teatro “Angola - 20 anos”. O grupo teve ainda uma participação satisfatória, em 2003, no 20º Festival Internacional de Teatro de Almada, Portugal, dedicado a Angola em paz.

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