Cultura

Processo de consolidação da estrutura rítmica do semba

Jomo Fortunato

No âmbito do projecto “Tem um semba em todo canto” e na perspectiva de valorização da dimensão cultural e histórica da Música Popular Angolana, a Casa da Cultura do Rangel “Njinga Mbande”, realizou, na sexta-feira, o primeiro “Seminário sobre o semba”.

Patrícia Faria directora da Casa de Cultura do Rangel e mentora do seminário sobre o semba
Fotografia: Dombele Bernardo| Edições Novembro

Patrícia Faria, organizadora, falou do projecto nos seguintes termos: “o ‘Seminário sobre o semba’ visou resgatar e reafirmar a importância histórica, cultural e social do semba. O evento aconteceu no âmbito do escopo social de promoção da educação, cultura e elevação da cidadania do Casa da Cultura do Rangel.
De facto, com a realização do “Seminário sobre o semba”, pretendemos tornar mais clara a definição do género, a sua completa identificação e se determinem as características da sua configuração estética. Estes factos irão propiciar a sua revitalização, promoção nacional e internacional, na senda da elevação do semba a Património Cultural da Humanidade, uma preocupação actual do Ministério da Cultura.”
Durante o encontro, depois do depoimento de Amadeu Amorim, histórico do Ngola Ritmos, estiveram em debate vários painéis, dos quais destacamos, a “Dimensão cultural da música angolana, vertente do semba”, “Processo de consolidação da estrutura rítmica do semba”, “Proposta de periodização da Música Popular Angolana”, “Estilo de vida e construção social do semba, perspectivas de desenvolvimento e valorização”, com os oradores Carlos Lamartine, Analtino Santos e Rosa Roque.
Na sequência, seguiram-se debates sobre as matérias dissertadas e comentários de convidados, exercícios exemplificativos de temas emblemáticos do semba com instrumentistas, cantores e produtores musicais. A parte prática ficou dominada por exercícios de semba tradicional e sua base, diferenciação do semba e rumba, semba moderno e estilizado.

História
As referências mais antigas à palavra semba, inexistentes nos dicionários de missionários, editados de 1591 a 1805, só aparecem primeiro em 1880, no livro “Os sertões d’África: apontamentos de viagem” de Alfredo de Sarmento, escritor identificado com a literatura colonial, e depois na noveleta “Nga Mutúri” do escritor e jornalista Alfredo Troni, publicada pela primeira vez em folhetins, em 1882.“O batuque consiste num círculo formado pelos dançadores, indo para o meio um preto ou preta que, depois de executar vários passos, vai dar uma umbigada, a que chamam semba, na pessoa que escolhe, a qual vai para o meio do círculo, substituí-lo”, escreve Alfredo de Sarmento no seu livro de viagens. Por sua vez, Alfredo Troni, intelectual mais conhecedor da realidade cultural luandense, descrevendo um batuque em Luanda, em casa de “Nga Mutúri”, narra o seguinte: “Foi um batuque falado... À meia-noite bateram à porta e entrou o Serra, que tinha chegado naquele momento de Casengo, no Cunga. Nga Mutúri ficou muito contente e correspondeu-lhe a duas sembas que ele lhe deu.”
Note-se que tanto em Alfredo de Sarmento como em Alfredo Troni, a palavra semba conserva o significado de “umbigada”, considerada uma metáfora do acto sexual, muito criticada pelos sectores mais conservadores da sociedade colonial. No entanto, em Alfredo Troni encontramos o ambiente dançante e o “batuque falado”, indispensáveis para a contextualização da “massemba”, cuja base rítmica está na origem do semba contemporâneo, que hoje conhecemos.

Massemba />A palavra “massemba”, dança popular de umbigada executada por casais de dançarinos, é plural de semba, nome que veio a designar o género musical mais representativo da região de Luanda. Dançada na rua, nas tardes de recreio e nas noites de luar, a massemba emigrou para as guitarras virtuosas do Liceu Vieira Dias, José Maria e Nino Ndongo, por um processo de imitação rítmica da percussão, entenda-se por analogia, dando origem ao semba. De notar que a “masssemba” tomou o nome aportuguesado de Rebita, quando emigrou para as salas de dança, a que se juntou o suporte do acordeão e da concertina. Importa lembrar que a “massemba” e “Rebita” são dois ritmos que se identificam. O processo de transposição, para as guitarras, da “massemba” e dos ritmos da “kazukuta”, uma espécie de “massemba” em compassos mais acelerados, deu origem à “batida descompassada”, do Liceu Vieira Dias, e ao semba, pelas propostas inovadoras de José Maria e Nino Ndongo, nas suas mais variadas figuras rítmicas conhecidas.

Pré-história
A pré-história do semba são todas as ocorrências e géneros musicais anteriores à sua formação, ou seja, o kaduke, kazucuta, turmas do Carnaval, e, obviamente a massemba. O semba, na rítmica de Liceu Vieira Dias, José Maria e Nino Ndongo, veio a ser absorvido por importantes guitarristas posteriores como José Keno, dos Jovens do Prenda, que diz ter sido influenciado pela generalidade da música do Ngola Ritmos, Duia, do conjuntos os Gingas, Marito Arcanjo, sobretudo nas canções “Rosa Rosé” e “Mua Pangu” dos Kiezos, Botto Trindade, dos Bongos, que herdou a rítmica do Ngola Ritmos por intermédio de Carlitos Vieira Dias e depois pelo Marito Arcanjo, Manuel Marinheiro, do África Ritmos, Mingo, dos Jovens do Prenda, e Quental, do agrupamento Águias Reais.

Consolidação
A afluência dos instrumentistas angolanos às zonas urbanas e a evolução da tecnologia musical ocidental, influenciaram, a nível da sonoridade, a estrutura rítmica do semba. Grupos que, no início da sua formação, usavam a viola acústica, a dikanza, a caixa e o chocalho começaram a introduzir instrumentos eléctricos ou electrificados. Fenómeno interessante ocorreu com o grupo África Show, a primeira formação musical angolana que introduziu, com sucesso, o órgão, traduzindo uma postura estética diferente e mais enquadrada às exigências de um público heterogéneo que seguia em Angola, os grandes sucessos musicais da Europa e dos Estados Unidos.

Depoimento
Carlos Lamartine, um dos oradores abordou o tema “Perfil histórico do semba”. Sobre o assunto, o cantor e compositor fez o seguinte depoimento, “Falei sobre a história do semba, contextualizando-o de forma alinhada e modo genérico. Na minha comunicação identifiquei o conjunto de artistas, conjuntos e grupos musicais que mais contribuíram para a divulgação do semba. Na sequência, realcei o papel dos clubes desportivos que possuíam salões de festas, centros de cultura e recreação, com destaque para a sua importância patrimonial, aos quais juntei testemunhos orais e memórias, sobre a história da Música Popular Angolana de raiz africana.”

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