Projecção da angolanidade na ficcão literária

Jomo Fortunato |
8 de Junho, 2015

Fotografia: Paulino Damião

O secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA),Carmo Neto, enquanto contista distingue-se pelo modo como estrutura o seu texto, referimo-nos à ordem sequencial dos factos narrados, e pela metaforização inesperada das ocorrências.

Estas duas características associam-se, de forma reiterada, a uma construção estética, marcada pela realidade cultural e línguística angolana, entendida como textos passíveis de serem lidos.
O recurso à sátira, nos contos de  Carmo Neto, está sempre eivado de uma intencionalidade pedagógica, alertando ao leitor para o enaltecimento e a socialização prática dos bons costumes. O autor  transfigura, pela ficção narrativa, a história política e social de Angola, criando personagens, de tipo popular, que se reinventam, representando comportamentos, muitas vezes de feição teatral, de quadros muito característicos da sociedade política angolana: “Completamente desconcertado, enfurecido, segurou-lhe a cabeça com ambas as mãos e começou a partir a cara do mestre Nzoji, o curandeiro. De olhar frio, altivo, chamava-lhe de sacana. É que a televisão já havia anunciado todas as nomeações pró governo e a dele não saiu, mesmo com o curandeiro hospedado em casa”, lê-se no conto “O novo professor” do livro “Degravata”, sua obra paradigmática.
Carmo Neto tem afirmado, de forma reiterada, que a sua escrita literária é consequência do cruzamento entre o exercício da advocacia, e a prática do jornalismo, na época em que foi Director Adjunto da “Revista Militar” das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA, de 1987 a 1992, tendo sido depois Director da mesma revista, de 1993 a 2002, das Forças Armadas de Angola, (FAA).
Filho de Francisco António Luís do Carmo e  de Teresa João Sebastião da Costa, modista de profissão,  António Francisco Luís do Carmo Neto nasceu em Malanje,  no dia 16 de Outubro de 1962. Carmo Neto é neto do Soba Cunga do Lau, em Malanje, desaparecido em 1961, depois de preso pela PIDE. O seu pai, um fervoroso e convicto nacionalista angolano, também era conhecido por Chico Cunga ou Chico Bonito, figura notável que alcançou o nível de director na função pública na época colonial, desaparecido em 1975, antes da independência. Advogado e jornalista, Carmo Neto é membro da Ordem dos Advogados de Angola, da União dos Jornalistas Angolanos, e da UEA.

Livros

Ao longo da sua carreira, Carmo Neto publicou os seguintes livros: “A forja” (1985),  um texto preocupado com as aspirações da juventude em tempo de guerra,  “Meu réu de colarinho branco” (1988), um livro que, pela sátira, transborda de vivacidade rítmica e estética, “Mahézu” (2000),  que  exalta a tradição, “Joana Maluca” (2004), considerado pelo autor, “um hino ao amor”, e de “Degravata” (2007), obra emblemática que retoma a sátira, pelo recurso à ironia. Os contos de Carmo Neto integram diversas antologias publicadas quer em Angola, como no estrangeiro, e estão traduzidos em inglês, francês, árabe e espanhol. Embora não sejam, propriamente, escritos biográficos, no sentido formal e conteúdístico do termo, a escrita de Carmo Neto resulta de um processo de intelectualização da memória, sobretudo das vivências mais marcantes da infância à vida adulta,  reutilizando  o conto para narrar, com subtileza, o pitoresco e o emotivo do quotidiano, descrevendo, muitas vezes com humor, o tipo psicológico das suas personagens.
Respeitando a tradição, Carmo Neto termina sempre os seus textos com a expressão, “Mahézu, Ngana”, uma expressão em língua nacional kimbundu. O autor explica: “Em determinadas regiões de Malanje, as populações, antes do bom dia, boa tarde ou boa noite fazem um relato breve de algum acontecimento ou ocorrência, actual ou não, e no fim do pronunciamento, em jeito de saudação, dizem “Mahézu Ngana”!

Mandato

O mandato de Carmo Neto, como Secretário-geral da UEA, tem sido caracterizado pela  edição de novos títulos bibliográficos, no domínio da poesia e da ficção narrativa e pela pertinência dos temas, em debate, nas sessões das “Makas à quarta-feira”, no âmbito das actividades culturais. A optimização das estratégias de internacionalização da literatura angolana, tem sido caracterizada pela tradução de obras referenciais da literatura angolana, e o lançamento de importantes antologias, muitas das quais em co-edições, no estrangeiro, em inglês, francês, alemão, italiano, incluindo a língua árabe, concretizando um propósito que visa, fundamentalmente, o diálogo intercultural, entre os países, pela via da internacionalização da literatura angolana.

Depoimento


António Quino, professor de Literatura Angolana do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED),  fez o seguinte depoimento sobre a escrita de Carmo Neto: “Quem conhece e lida com o Carmo Neto percebe que contar estórias é, para ele, um acto de diálogo permanente com a própria socialidade, transportando-nos para um determinado espaço de plasticidade bem vizinho do real. Portanto, leva o leitor ao local da estória. Outra particularidade em Carmo Neto, é um contista que, com humor e um fugidio senso moralista, usa conjuntamente o coração e a intuição, além da sua experiência e vivências, nos faz viajar para o imaginário mundo do passado de quem o ouve, dando voz a personagens opacas e lembrando utentes de velhas profissões marginais com virtuosas saudades. Nesse provocado recuo prenhe de melancolia, onde os nossos heróis de carne, osso e fraquezas, ressoam em nós com eloquência e venturosas paixões, pomo-nos com o escritor a reescrever, sem querer, estórias perpendiculares à nossa própria história”.

Estrutura

Menor que a novela e o romance, em termos de extensão de texto, os contos de Carmo Neto obdecem a uma estrutura definida por Nelly Novaes Coelho, ensaísta, crítica literária e professora brasileira. “São narrativas curtas e lineares, envolvendo poucas personagens, concentradas em uma única acção, de curta duração temporal e situadas num só espaço”. De notar que desta necessidade de brevidade, deriva a grande arte do conto que, mais que qualquer outro género em prosa, exige que o escritor seja um verdadeiro alquimista na manipulação da palavra, semelhante tal ocorre na escrita de Carmo Neto. Sabe-se que a estrutura breve do Conto, advém das sua origens sócio-culturais, ou seja, o conto, sobretudo o popular,  era para ser contado.  O conto popular, que difere do conto de autor, caso em análise, “insere-se numa literatura de transmissão oral.  É representativo da memorização das histórias criadas pelo autor colectivo que respeita os valores da sua comunidade e os transmite de geração em geração. Este tipo de transmissão dá origem à produção de variantes, pois cada emissor é também um receptor que altera o discurso que ouviu contar”.

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