Cultura

Projectos culturais avaliados em conferência de imprensa

Jomo Fortunato |

A Direcção da III Trienal de Luanda, projecto cultural da Fundação Sindika Dokolo, reuniu a comunicação social em conferência de imprensa, realizada no Palácio de Ferro no passado dia 14 de Agosto, segunda-feira, ocasião em que foram anunciados novos projectos e apresentado o balanço da acção desenvolvida ao longo de oitenta e três semanas de produção cultural.

Fernando Alvim (à esquerda) anunciou a homenagem na segunda edição do Festival “Zwá” a quatro cantores e compositores angolanos já falecidos
Fotografia: Maradona dos Santos

A Direcção da Fundação Sindika Dokolo esteve representada na mesa de honra pelo artista plástico Fernando Alvim, vice-presidente, arquitecta Marita Silva, Directora Geral, Cláudia Veiga, Responsável dos Projectos, e Olívio dos Santos, Coordenador do Eixo de Comunicação e Conhecimento da III Trienal de Luanda.
Marita Silva, a primeira oradora, enumerou as principais acções da Fundação Sindika Dokolo desde a I Trienal de Luanda que decorreu de 2005 a 2007, sob o signo “Arte, Cultura, História e Política Contemporânea”, da  II Trienal  de Luanda, que aconteceu de 2007 a 2010, cujo lema foi  “Geografias emocionais, artes e afectos” e a III Trienal de Luanda que ainda decorre sob o lema “Da utopia à realidade”, e “Da escravatura ao fim do apartheid”, projecto de grande  magnitude cultural que teve o seu início no dia 1 de Novembro de 2015 e vai até 29 de Agosto de 2017.   
Ao longo da sua exposição, Marita Silva considerou a Trienal de Luanda um espaço de “partilha de conhecimentos” baseada em “mecanismos orgânicos de produção cultural”, parafraseando Fernando Alvim, tendo traçado a trajectória e o movimento cultural que deu origem à Fundação Sindika Dokolo e os projectos de impacto cultural ao longo da sua existência, com destaque para o Pavilhão de Angola na 52ª Bienal de Veneza, em 2007, certame que reuniu cerca de trinta artistas africanos, no âmbito do projecto “Checklist, Luanda pop”, que teve como curadores o artista plástico Fernando Alvim e Simon Njami.

Festival

O Festival “Zwá” é um projecto de periodicidade anual que pretende valorizar a Música Popular Angolana, a Massemba e a generalidade das vertentes da música tradicional, e vai juntar cantores, compositores, intérpretes  e bandas musicais de diferentes gerações. A palavra “Zwá”, que em kikongo e quimbundo encerra a ideia do som e da sua recepção, foi criada, em 2008, para a designação de uma revista cultural da Fundação Sindika Dokolo. No âmbito da III Trienal de Luanda, Fernando Alvim, o seu conceptor, reutilizou o nome para denominar o Festival “Zwá” que decorreu de 24 a 28 de Agosto de 2016, a primeira edição, e segunda que vai de 24 a 29 de Agosto de 2017, com a apresentação de 40 bandas musicais. À margem do Festival será editada a Revista Zwá, com uma breve biografia dos artistas e bandas musicais convidadas.

Trienal

A III Trienal de Luanda, que arrancou no dia 1 de Novembro de 2015 e foi até 30 de Novembro de 2016, a primeira fase, e a segunda fase que termina no dia 29 de Agosto de 2017, está dividida em artes visuais, com exposições de arte clássica e contemporânea, comunicação que prevê a edição de jornais, revistas, catálogos, edições e reedições de títulos bibliográficos, fundamentais para a compreensão da história literária e cultural angolana, programas de rádio e televisão, fóruns, que inclui um extenso ciclo de conferências, sessões de teatro, concertos, e programas de educação, que prevêem visitas de estudantes de diferentes níveis de ensino, nos espaços da III Trienal de Luanda. Por sua vez, a programação de concertos da III Trienal de Luanda, que vai encerrar com o grande Festival Zwá, pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando, maioritariamente, um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato.

Homenagens

Durante a conferência de imprensa, Fernando Alvim anunciou a homenagem, durante a realização do Festival “Zwá”, dos cantores e compositores André Mingas, Wiza e do guitarrista Zé Keno, ambos falecidos, e do realizador Nguxi dos Santos. Ousado no seu género, André Mingas deixou um vazio irreparável no cenário musical angolano, enquanto ícone incontornável da modernidade estética da música angolana. Wyza cresceu ouvindo os cânticos da sua mãe, acompanhados pela sonoridade do quissanje. O seu nome ressoa, de forma automática, quando o assunto em abordagem são as tendências contemporâneas da Música Popular Angolana de expressão cultural, bakongo. Por sua vez, Zé Keno, o emblemático guitarrista dos “Jovens do Prenda” é um nome que marcou de forma indelével a história da Música Popular Angolana.
A plena criatividade e o desempenho de um fraseado musical com laivos de improvisação jazzística, são alguns dos atributos de um guitarrista que criou a sua própria afinação.

Balanço das principais realizações do projecto cultural


A III Trienal de Luanda realizou um total de mais de 2 568 eventos, durante 562 dias, perfazendo 83 semanas, e passaram pelos seus palcos 3 359 artistas. Umpúblico de 254 664 visitantes visitou as exposições de artes visuais, eventos de artes cénicas, conferências, assistiu a 163 concertos, a exibição de 67 peças de teatro, incluindo eventos de dança, moda, performance, cinema, projectos de literatura, residências artísticas, e programas de visitas escolares.
Os projectos desenvolvidos pela Trienal de Luanda, visam dar maior visibilidade à produção artística africana na Europa, e no mundo.  Alargar o espectro do diálogo cultural, auscultar as várias sensibilidades da sociedade angolana, na perspectiva de promover o intercâmbio de experiências e iniciativas já implementadas, a favor da diversidade de expressões culturais, são questões que estão na base dos projectos culturais que a Fundação Sindika Dokolo tem desenvolvido. A Trienal de Luanda, longe de ser algo conclusivo e acabado, é também uma experiência e um termómetro da sociedade política angolana, onde os objectos marginais e as ideias, supostamente periféricas, são elevadas à categoria de arte, num processo de leitura do passado histórico mais recente de Angola.
Do tradicional à arte multimédia, a Trienal de Luanda é um exercício que se contrapõe à violência, respeita a diferença, redimensiona e  valoriza o outro, enquanto sujeito artístico de acção, e resgata, pelas artes visuais e plásticas, os universos da nossa memória restante. Hodiernamente, numa altura em que Angola caminha para reconstrução material, mental e plástica, só unidos os artistas poderão colaborar no actual processo histórico e artístico, cuja velocidade poderá ultrapassar os que, por crónica distracção, pessoalizam aquilo que, naturalmente, a sociedade comunga e partilha, ou seja, a arte, a cultura e as ideias.

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