Cultura

Projectos paralisados por falta de dinheiro

Joaquim Aguiar | Dundo

Cinco anos depois da reabertura oficial, o Museu Regional do Dundo enfrenta dificuldades financeiras para concretizar a construção de um memorial em homenagem ao soba Quelendende.

Museu do Dundo, na província da Lunda-Norte, vive dificuldades financeiras
Fotografia: Benjamin Cândido| Edições Novembro| Dundo

Trata-se de uma das figuras que se destacou na luta de resistência colonial nas  Lundas. A construção da sala, de acordo com João Dieie Muanangue, vai permitir criar um novo roteiro à visita da exposição permanente daquela instituição museológica.
O chefe do Departamento de Educação e Animação Cultural, João Dieie Muanangue informou que a im-possibilidade da construção da sala deve-se à falta de di-nheiro que permitiria concluir as investigações que a equipa técnica efectuava, desde  2010, em Nona, município do Lovua, sobre a vida do soba Quelendende, por meio de fontes orais.
O soba Quelendende foi escolhido para constar do novo roteiro da exposição permanente do museu, na sala sobre colonização e re-sistência, por ser uma figura de prestígio cultural e académico da região.
A integração do soba Quelendende no conjunto de fi-guras angolanas que se desta-
caram na luta de resistência à ocupação colonial teve unanimidade de uma comissão criada, há vários anos, para fazer um levantamento das figuras históricas nacionais.
Na óptica do director do Museu Regional do Dundo, Fonseca Sousa, o soba Quelendende é uma figura que se destacou na luta de resistência colonial por ter contestado a presença dos portu-
gueses na região entre 1908 e 1920. Por isso, defendeu que haja informação mais alargada para os jovens sobre os seus feitos e que seja feita uma homenagem do “ilustre filho da Lunda” que soube demonstrar bravura e negação à colonização.
Fonseca Sousa lembrou que na década de 1980 havia uma biblioteca da Endiama, no Dundo, denominada Quelendende, e defendeu a necessidade de se revitalizar o espaço para que a nova geração adquira mais conhecimentos sobre “o homem que deu forma à luta contra a ocupação colonial nas Lundas”.

A história
O investigador francês René Pélissier, no seu livro “História das campanhas de Angola”, ressalta o papel desempenhado pelo soberano cokwe, Quelendende, que se opôs à ocupação colonial na margem direita do rio Luxico, actual município do Lovua, província da Lunda-Norte. O soba mobilizou os naturais da região para assaltarem o quartel dos portugueses em 1908.
De acordo com René Pélissier, as escaramuças resultaram na morte do alferes Macedo, tendo as forças portuguesas desencadeado, numa fase posterior, fortes ofensivas contra as populações. A capacidade de mobilização da população na defesa dos interesses das populações foi mais incisiva entre os anos 1912 e 1913, altura em que se iniciaram as pesquisas mineiras na Lunda. Quelendende defendia então a necessidade de se impedir a instalação do poder colonial e a exploração desenfreada dos recursos naturais da região.
O investigador francês descreve que, até à altura da criação da Companhia de Diamantes de Angola, em 1917, o soba Quelendende ainda constituía obstáculo para a expansão das actividades mineiras, com a realização de acções subversivas aos interesses económicos e militares do poder colonial.
De acordo com René Pélissier, a famosa “batalha de Quelendende” ocorreu em Julho de 1920, com a mobilização, pelas autoridades portuguesas, de uma grande força militar, comandada pelo en-tão Governador da Lunda, composta por 385 homens equipados com artilharia e metralhadoras, que os nativos apelidaram de “Uta wa Mussalo”, porque disparava e não parava.
A batalha demorou 95 dias e perante a supremacia do fogo dos militares portugueses, o soba Quelendende refugiou-se no antigo Congo Belga, a actual República Democrática do Congo. Com o fim da batalha de Quelendende, em 1920, o historiador francês René Pélissier e o investigador português Teixeira de Almeida defendem nas suas obras que foi exactamente nesse ano que se conquistou a região da Lunda e se consolidou a ocupação efectiva do poder colonial em Angola. 

Museu atrai turistas
Mais de 180 pessoas visitaram o museu entre Janeiro e Abril, 25 são  estrangeiros, maioritariamente jovens. Desde a  reinauguração, em 2012, mais de 60 mil pessoas visitaram o museu que tem 10 mil objectos etnográficos.

Tempo

Multimédia