Promoção e internacionalização da literatura nacional

Jomo Fortunato |
21 de Março, 2016

Fotografia: Paulo Damião |

No âmbito do projecto de internacionalização da literatura angolana, a União dos Escritores Angolanos fez a apresentação, em Lisboa, da antologia de contos angolanos, “Pássaros de asas abertas”, uma selecção de textos organizada pela professora, Margarida Gil dos Reis, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e pelo escritor, António Quino, docente da Universidade Agostinho Neto, e membro da União dos Escritores Angolanos.

O título da antologia foi inspirado no conto, “Estranhos pássaros de asas abertas” de Pepetela, numa edição comemorativa dos quarenta anos da independência de Angola, e foi lançada no dia 2 de Março de 2016, no auditório Armando Guebuza da Universidade Lusófona, num projectoconjunto da União dos Escritores Angolanos e do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Num texto inserido na referida antologia,dirigido aos leitores, Carmo Neto, Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, escreveu o seguinte: “No ano em que assinalávamos quarenta anos da independência de Angola e, concomitantemente, dos quarenta anos de vida da União dos Escritores Angolanos, decidimos presentear-nos disponibilizando um presente aos leitores e demais parceiros e amigos do livro, e das coisas da arte, que permitem “criar amor com os olhos secos”, como escreveu um dia o poeta Agostinho Neto.
 Iniciámos em meados de Julho a idealizar a edição de duas antologias, uma dedicada ao conto e outra à poesia, contudo, sobreviveu, na materialização, o projecto relativo ao conto, estando hoje à disposição dos leitores.
No processo de selecção, privilegiamos textos inéditos porque pretendíamos que se reunissem alguns contos que ajudam a contar estórias de histórias da vidas de quatro décadas, vistas por um olhar do século XXI. A verdade é que quem correr o mundo sob o dorso do “pássaro de asas abertas”, viajando ao passado, continuará a estar no presente”.
De Agostinho Neto, que nasceu em 1922, a Ondjaki, nascido em 1977, a selecção de textos em “Pássaros de Asas Abertas, antologia de contos angolanos” atravessa várias gerações literárias de importantes escritores angolanos, acabando por proporcionar ao leitor uma visão diacrónica da ficção narrativa angolana, consubstanciada no conto.

Entusiasmo


O entusiasmo da professora Margarida Gil dos Reis da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e uma das organizadoras da antologia, ficou revelado no prefácio: “A iniciativa da União dos Escritores Angolanos de querer publicar uma antologia que reunisse alguns dos nomes de destaque da literatura angolana foi, desde logo, uma proposta que acolhemos com entusiasmo.
Para além de poder ser um importante instrumento no campo do ensino, havia ainda o desafio de que a selecção dos contos se pautasse que em critérios académicos quer em critérios de gosto e qualidade. Para quem como nós está tão próximo da universidade, o desafio tornava-se assim ainda mais aliciante. É certo que academicamente o conceito de “qualidade” é sempre relativo, mas como leitores que somos esta selecção de textos teve um prazer acrescido. Caberá ao leitor avaliar se nos saímos bem nesta tarefa”.

Contistas


A antologia inclui textos de trinta e seis contistas, dos quais se destacam: Agostinho Neto, com o conto “Náusea”, Albino Carlos, “Rio em flor de Janeiro”, António Fonseca, “Como é que pessoa come pessoa”, Arnaldo Santos, “Tesouro de quianda”, Boaventura Cardoso, “O sol nasceu no poente”, Carmo Neto, “Diáspora”, Chó do Guri, “Negócios, do tradicional ao moderno”, Dario de Melo, “E agora, André?” Décio Bettencourt Mateus, “O regressado”, Dya Kasembe, “Tukumuka”, Eduardo Bettencourt Pinto, “Henda”, Fragata de Morais, “A seiva”, F. Tchikondo, “O Julgamento da alegada violadora Sonsalina”, Gociante Patissa, “ O calendário da viúva”, Henrique Abranches, “O rapto das cidades”, Henrique Guerra, “O caçador, o jacaré e a pedra preta”, Isaquiel Cori, “Amanhã também é dia”, Ismael Mateus, “A profetisa da verdade”, Jaques dos Santos, “ABC do Bê Ó”, João Melo, “Esplendor e frustração”, Jofre Rocha, “O drama de vavó Tutúri”, José Eduardo Agualusa, “Falsas recordações felizes”, José Luís Mendonça, “O meu carro engravidou”, Luandino Vieira, “Kizua kiezabu, nosso general Kimbalangaza”, Luís Fernando, “Um padre no hotel”, Marta Santos, “Com os olhos da alma”, Namibiano Ferreira, “Maria Java”,  Ondjaki, “Dezassete brilhos e as estrelas também”, Paula Tavares, “A cor das vozes”, Pepetela, “Estranhos pássaros de asas abertas”, Raúl David, “Brio de morte”, Roderick Nehone, “Catrapus”, Ruy Duarte de Carvalho, “Como se o mundo não tivesse leste”, Sónia Gomes, “Apenas entre mulheres”, Uanhenga Xitu, “Bola com feitiço”,  e Zetho Cunha Gonçalves, “Com o cágado ninguém brinca”.

Antologias

Nos últimos sete anos de edições, a União dos Escritores Angolanos publicou as seguintes antologias: “Chasseurs de rêves”, "contes etnouvelles d’Angola”, textos originais de 2005, e versão francesa de 2012,  “As iflivingwaslikethat, anthologyoftheangolan tale”,  selecção de  Domingas de Almeida, 2009, “Antologia de cuentos angolanos”, edição em espanhol, de 2010, selecção de António Fonseca, “Balada dos homens que sonham, breve antologia do conto angolano”, 2011, selecção de textos de organização de António Quino,  versão italiana com título, “La ballata dei sognatori, breve antologia del raconto angolano”, de 2014,  e “Oxalá cresçam pitangas”, 2015, selecção de autores angolanos traduzidos em língua alemã, uma edição bilingue do Goethe Institut e da União dos Escritores Angolanos. “Oxalá cresçam pitangas” é o título de uma sugestiva colectânea de textos poéticos e ficção narrativa, que inclui poemas e contos de treze autores de diversos períodos, e gerações literárias.

Traduções


O reforço do diálogo intercultural é um dos objectivos da União dos Escritores Angolanos, estando em curso um ambicioso projecto de traduções, que passam pela versão em inglês, francês, italiano, e alemão, incluindo a língua árabe, de títulos referenciais da literatura angolana, concretizando um propósito que visa, fundamentalmente, dar a conhecer Angola, pela via da literatura.Estão traduzidos em árabe os livros “Como se viver fosse assim: antologia do conto angolano”, “As duas amigas”, de Cássia do Carmo, e “Jonito, Vovo Jujú e o arco-íris”, da escritora Paula Russa.
Com diversas variantes linguísticas, a língua árabe é falada por duzentas e oitenta milhões de pessoas, é o idioma oficial de vinte e dois países, está próxima do hebraico e das línguas neo-aramaicas, sendo a que possui mais falantes, dentro do tronco linguístico semita.
Embora existam muitos autores angolanos traduzidos, sobretudo nas línguas naturais europeias, recorde-se o “TheWorldof Mestre Tamoda”, de UanhengaXitu e a versão francesa de “Quem me dera ser onda”, de Manuel Rui, e a obra de Pepetela, um dos autores angolanos mais traduzidos, a intervenção da literatura angolana, no universo da língua árabe, pelo menos enquanto projecto, é inédita e denota uma intenção ambiciosa da União dos Escritores Angolanos. As traduções em língua árabe poderão ser mais importantes do que possam parecer, porque não podemos perder de vista que há um substrato africano em toda a cultura mediterrânica, espaço de influência milenar da cultura árabe, e a divulgação da literatura angolana vai instaurar o reencontro de culturas, que, por sua vez, poderá propiciar o surgimento de clássicos universais, porque desconhecemos qual o impacto da recepção estética da literatura angolana, no universo dos virtuais leitores do mundo árabe.

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