''Rastos'' de Lino no tributo a Viteix

Jomo Fortunato |
30 de Maio, 2016

Fotografia: Paulino Damião

A pintura de Lino Damião estabelece uma relação de observação e diálogo permanente com as múltiplas ocorrências do quotidiano luandense, no seu processo de construção e “desconstrução”.

“Rastos” é a designação genérica da mais recente exposição do artista plástico, um tributo a Viteix, que será inaugurada amanhã, no Camões-Centro Cultural Português, patente ao público até o próximo dia 14 de Junho.
Embora a simbologia da sinalização pictórica de Lino Damião acuse várias influências, uma das quais do artista plástico Viteix, a sua obra testemunha, interpreta, e transfigura em arte, num processo de abstração, os episódios da contemporaneidade política e social africana, elaborando reflexões filosóficas sobre temas inauditos da grande tela da vida humana, associados directamente aos estímulos vividos pelo autor.
Lino Damião explicou, nos termos que seguem, a génese da sua pintura e os propósitos artísticos da sua exposição: “Rastos” é uma exposição individual em homenagem ao grande mestre das artes plásticas angolanas, Viteix, nome artístico de Victor Manuel Teixeira. A mostra celebra o 23º aniversário da morte do pintor, e promete ser uma viagem ao mundo dos símbolos e dos significados, através do figurativismo e do colorido inspirados nas obras do mestre. A exposição é a realização de um projecto muito estudado e ansiado, ou seja, há um largo tempo que me imagino a prestigiar a obra de Viteix. O título da sua última exposição, “Restos, rastos e rostos” na  qual colaborei, ficou sempre gravado na minha memória. Hoje passados vinte e cinco anos, retomo o tema, e consigo finalmente realizar este feito, prestando-lhe a minha humilde e singela homenagem, por tudo quanto aprendi. Esta homenagem é extensiva a todos os mais velhos com quem tive o prazer de partilhar momentos ímpares no seu atelier, e que fazem parte de muitas e boas memórias, refiro-me ao Álvaro Macieira, David Mestre, Dinis Amaral, Diló, Jerónimo Belo, Lopito Feijó, Luandino Vieira, Manuel Dionísio, Osvaldo Gonçalves, Tirso Amaral, entre outros, figuras a quem endereço um enorme obrigado... Das lições de vida que aprendi, guardo uma frase que é sem dúvida bastante esclarecedora, “tão importante quanto saber o que fazemos, é fazer o que sabemos”. Saudosas marcas nos deixaste, kandandu, meu Mestre”.
Filho de Paulino Damião e de Sofia Gabriel, Lino Gabriel Damião nasceu em Luanda no dia 18 de Fevereiro de 1977. Em 1990 foi convidado a trabalhar com Massongui Afonso, num mural para a sala de estar do Jornal de Angola, altura em que frequentava, com acentuada assiduidade, o atelier do Viteix, um dos membros fundadores da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), e figura histórica das artes plásticas angolanas.

Rastos

A exposição “Rastos”  surge inspirado num projecto do Viteix de 1992, denominado “Restos”, referindo a iguarias, “Rastos”, “Sons”, e “Rostos”, um tributo aos blues, com música seleccionada por Jerónimo Belo. A mostra será inaugurada amanhã, 31 de Maio às 18h:30, e estará patente no Camões-Centro Cultural Português até o dia 14 de Junho. “Rastos” é a primeira exposição da trilogia, seguindo-se, “Restos” e “Rostos”, transformado em projecto individual de Lino Damião. Nesta exposição o artista reflecte o seu percurso pessoal e artístico, com o objectivo de partilhar estórias, enaltecendo o passado, valorizando o presente e projectando o futuro. Da exposição de uma dezena de quadros destacamos, “Imagens imaginadas”, acrílico sobre tela, “Um mambo vermelho numa rua da minha banda” , técnica mista sobre tela, e “Uma viagem com Alice Mussanga”, técnica mista sobre tela.

Fotografia


O estudo da obra de Lino Damião passa pela influência que a fotografia exerceu na primeira fase da sua obra, uma arte que aprendeu com o seu pai, Paulino Damião, fotógrafo profissional do Jornal de Angola. A jornalista Marta Lança, num texto publicado em Fevereiro de 2012, no blog “Buala”, escreveu sobre a intimidadde do pintor com a fotografia: “Ainda no bairro Hoji-ya-Henda o pai já fazia uso de uma máquina fotográfica a cores. Lino começou por trabalhar a partir das fotografias do pai, sobre as quais pintava e gravava. Achava que um dia ia fazer mais fotografia, mas a pintura tornou-se o centro da sua actividade artística. Já tinha frequentado a Escola de Artes Barracão quando conheceu a UNAP, também com o pai. Começou a relacionar-se com esta geração de artistas angolanos mais velhos como Viteix e Paulo Capela. A UNAP da altura pautava-se por um voluntarismo e dedicação muito consistentes, era tudo baseado em “muito amor à arte”, diz Lino que elogia o funcionamento associativo desses tempos: dinâmico, cheio de actividades, com duas galerias sempre abertas, dando espaço e condições aos artistas, por exemplo no acesso ao material com preços muito em conta. As direcções de Viteix e Álvaro Cardoso “sabiam fazer as coisas”. O convívio com uma geração de artistas que discutia a angolanidade na arte e tinha um sentido de intervenção artística, fazendo o programa “Salarelo” com o Tirso Amaral, foi muito produtivo”.

Formação

Lino Damião frequentou, de 1985 a 1986, o curso de Desenho e Pintura no Barracão, e a Escola Experimental de Arte de Luanda, altura em que passava longas horas no atelier do Mestre Viteix, uma aproximação que foi fundamental para a sua formação artística. Em 1999 participou no “Workshop de Fotografia”, orientado pelo fotógrafo Rui Tavares no INFAC, Instituto Nacional de Formação Artística, em Luanda. Em 1988 concluiu com êxito o Curso de Desenho e Gravura na Oficina da UNAP, e de 1997 a 2000, o Curso Nacional de Artes Plásticas, do Instituto Nacional de Formação Artística (INFAC) em Luanda. Lino Damião frequentou, de 2002 a 2008, em Luanda, as seguintes acções de formação: “Workshop sobre Identificação e Elaboração de Projectos Sociais, Participação em ciclos de conferências sobre estratégias de arte contemporânea no âmbito da Trienal de Luanda, “Workshop de Arte Moderna” orientado pelo artista americano Hard Berge no Elinga Teatro, “Workshop de Pintura em Vidro” orientado por Jean Luc no Salão da UNAP, e “Workshop, oficina de Stenope”, na Galeria Celamar.

Exposições

De 1990 a 2006, Lino Damião participou em diversas exposições das quais destacamos as seguintes: I Bienal de Jovens Criadores da CPLP nas cidades da Praia, Cabo Verde, e Lisboa, Portugal, Projecto “Artemoda”, na oficina de criação com “Kotas e kandengues”, Projecto “Galarte” no Elinga Teatro, I e II Trienal de Luanda, “Cores Cómicos e Contrastes” no “Le Bistrot”, Ilha de Luanda, “Manchas e contornos “na Galeria Cenarius, “Liberdade”, Laboratório Nacional, “Ritmos Coloridos”, Galeria Humbiumbi, no âmbito do programa Cidade jazz, e “Reflexões”, na Associação 25 de Abril. Durante este período, participou na pintura mural da “CUCA BGI”, realizado no Banco Nacional de Angola e na baixa de Luanda, sobre o eclipse total do Sol.
Ainda em 2006, organizou as seguintes exposições, no âmbito do programa Cidade Jazz, “Ritmos coloridos”, realizado na Galeria Humbiumbi, a Exposição “Shades of blues”, no Centro Cultural Português, “Emoções do jazz” da fotógrafa portuguesa Rita Reis, igualmente na galeria Humbiumbi, “Exposição de pintura e fotografia das artistas Judy Ann Seidman e Rita Reis, Galeria Celamar. O pintor participou ainda como aderecista na peça teatral “Quem me dera ser onda”, do escritor Manuel Rui, em 1999. Lino Damião recebeu a Menção Honrosa do Prémio Ensarte, em 1988, e o Prémio de Pintura da UNAP.

Depoimento


O artista plástico Benjamim Sabby, amigo de Lino Damião, fez o seguinte depoimento sobre a obra, e as circunstâncias em que conheceu o pintor: “Conheci o Lino Damião no início da década dos anos noventa do século XX, um rapaz muito novo, mas que já andava nas coisas da arte há algum tempo, numa altura em que já era muito conhecido na Baixa de Luanda, sobretudo no Jornal de Angola, UNAP e na Biker. Eu andava na Escola Nacional de Artes Plásticas, do Instituto Nacional de Formação Artística, gostava de ir às inaugurações das exposições e o encontrava, frequentemente, a conversar com artitas consagrados, por isto o admirava, um rapaz mais novo do que eu e já era artista. Ficamos amigos, mostrou-me o mundo dele e passei a frequentar a UNAP, o Jornal de Angola e a Biker, onde me apresentou os mais velhos da Baixa luandense. Como artista, apesar de ainda jovem, tem um corpo de trabalho vasto e interessante, navega entre a gravura, a pintura, a fotografia e muitas vezes funde estas formas de expressão plástica numa obra só. O seu trabalho actual, reflete bem a sua condição pendular, ou seja, circula entre a “banda”, Luanda, e as “bandas”, Portugal, recorre a recursos contemporâneos para representar a realidade tradicional urbanas e algumas vezes rural da sua Angola. Há também no seu trabalho elementos marcadamente globais, o que denota preocupações com questões universais da actualidade”.

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