Cultura

Realizadores estão apostados em filmes sobre a tradição

Kindala Manuel

A produção de filmes com menção aos usos e costumes da tradição angolana deve ser uma aposta com vista a impulsionar a industrialização e a internacionalização do cinema nacional, visando gerar receitas para os cofres do Estado, afirmaram os realizadores Henrique Narciso “Dito” e Mawete Paciência.

Dito e Mawete desejam gravar histórias que retratam aspectos da nossa tradição visando uma ampla internacionalização da produção cinematográfica
Fotografia: Kindala Manuel|Edições Novembro

Falando ao Jornal de Angola sobre o estado actual do cinema em Angola, os dois realizadores foram unânimes que os filmes nacionais, produzidos entre 2005 e 2010, marcaram, consideravelmente, o ressurgimento do cinema no país, numa altura em que se registava a falta de produção nacional, substituída por filmes e novelas estrangeiras e por algumas telenovelas e séries produzidas pela Televisão Pública de Angola (TPA). Os realizadores contam que, na altura, um grupo de jovens, entre curiosos, amadores e profissionais de televisão, resolveu pegar em câmara, traçar roteiros e, cada um a seu jeito, filmou cenas que arrastaram multidões às salas de cinema do país, que há muito  realizavam outras actividades.
Os entrevistados do Jornal de Angola destacaram-se no movimento que ficou conhecido como “Realizadores da Nova Geração” surgido entre 2005 e 2010, com a produção dos destacáveis sucessos cinematográficos  “Assaltos em Luanda I e II”, em 2007 e 2008, respectivamente, produzidos por Dito, “Resgate”, em 2009, e “Rastos de Sangue”, 2012, de Mawete Paciência.
Henrique Narciso “Dito” está a produzir um documentário com o título “O Feitiço e Bruxaria”, um filme que retrata a diferença espiritual existente entre o feitiço e a bruxaria, causas e efeitos, inspirado em experiências adquiridas no decurso do tratamento de uma enfermidade de que o seu malogrado pai sofria.
“O documentário é composto de entrevistas de especialistas e de pessoas que vivenciaram esta práticas. Os depoimentos de Makuta Nkondo e Charles Bua Puati despertaram-me atenção, fazendo-me perceber que embora pareçam iguais, a bruxaria e a feitiçaria são duas coisas diferentes, mas que actuam numa dimensão similar em termos de objectivos, independentemente do pretendente”, disse.
De acordo com Dito, investir em filmes com temáticas tradicionais pode atrair atenção em grande medida do público internacional, devido o interesse que estes têm da cultura africana e, em particular, da história e riqueza cultural angolanas.
A título de exemplo, o cineasta aponta o sucesso que os filmes tradicionais nigerianos ganharam na arena internacional, com uma produção que já lhe rendeu o apelido de “Nollywood”, por ser considerada a terceira maior indústria de produção de cinema do mundo, depois de Hollywood e Bollywood.
Nollywood produz mais de três mil filmes por ano e, actualmente, constitui a segunda maior receita económica da Nigéria a seguir ao petróleo, que têm tido grande audiência a nível de canais televisivos internacionais.
Com vista a impulsionar a produção cinematográfica angolana, Henrique Narciso “Dito” sugere que o Instituto Angolano de Cinema Audiovisual e Multimédia (IACAM), afecto ao Ministério da Cultura, seja uma unidade orçamentada por via do Estado, visando incentivar os realizadores a apresentarem projectos que podem ser financiados em função da qualidade.
Henrique Narciso “Dito”, formado na área de ficção da Televisão Pública de Angola (TPA), notabilizou-se no país como produtor erealizador dos filmes “Assaltos em Luanda I”, “Assaltos em Luanda II” e a “A Guerra do Kuduro”.

Sucesso na era moderna
Para Mawete Paciência, o sucesso do cinema, na era moderna, está intrinsecamente ligado a histórias de vários povos, com uma abordagem cada vez mais atraente.
“Quando se pensa em investir num cinema temático que retrata histórias, ligado à nossa realidade cultural, a história deve ser contada de forma actualizada e em harmonia com os parâmetros globais do cinema desde a qualidade técnica e a linguagem cinematográfica, para que, quando for exibido numa arena internacional, o filme possa atrair o interesse do público e alinhar à concorrência”, disse o realizador e produtor.
Os angolanos, frisou Mawete Paciência, não precisam de imitar ou trazer o que o mercado nigeriano ou internacional oferece, porque o importante é padronizar a técnica e a linguagem e contar a história dentro da nossa maneira e realidade típica da terra. Defende uma mudança do quadro de declínio em que o cinema angolano se encontra, fala da necessidade de um encontro de auscultação que deve juntar os cineastas nacionais e a direcção do Ministério da Cultura, para a discussão das linhas de apoio do Estado aos fazedores da sétima arte, que apresentam projectos cinematográficos que possam dignificar internacionalmente o nome de Angola e gerar receitas para o país.  Mawete Paciência entrou para o mundo das artes com nove anos, através da música gospel. Abraçou o mundo do cinema em 2005. Tem no mercado quatro filmes: “Negligência Médica”, “Mistério de Anguita”, “Resgate” e “Cicatrizes”, uma co-produção entre Angola e o Brasil.

  Realizadores da nova geração produziram obras de qualidade

Entre 2005 e 2010, uma classe de jovens destemidos, que surgiram de forma espontânea, para fazer cinema com meios próprios e apelidados de “Realizadores da Nova Geração”, na sua maioria sem formação, conseguiu mesmo sem grande qualidade produzir as suas obras e despertar a consciência das pessoas naquilo que era a produção nacional. Os filmes retratavam cenas vivenciadas no dia-a-dia dos angolanos, como os assaltos de telemóveis, roubos de carteira, motorizadas e viaturas, prostituição e violência doméstica.
No arranque desta trajectória cinematográfica, despontaram nomes como Henrique Narciso “Dito”, com o filme “Assaltos em Luanda I ” em 2007, Alberto Botelho com “Amor de Mariana” em 2006, Francisco Káfua “Jaboia” com “O Regresso dos que Nunca Foram” 2007, Biju Garezine com “Única Filha” em 2008, Mawete Paciência com  “O Resgate” em 2009 e Manuel Narciso “Tonton” com “Crimes do Dia-a-dia” em 2009.  O surgimento dos vídeos-cinema, feitos por esta classe de jovens, deu origem aos  festivais de cinema em Angola, entre os quais, o Festival Internacional de Cinema de Luanda (FIC Luanda) em 2008, onde concorrem e são premiados anualmente filmes nacionais e estrangeiros.

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