Rebita e "Kiezos" na roda da Trienal

Jomo Fortunato |
22 de Fevereiro, 2016

Fotografia: Francisco Pedro

Vencedores do Prémio Nacional de Cultura e Artes, edição 2015, na categoria da dança, os Novatos da Ilha de Luanda, exibiram os passos tradicionais da Massemba, sábado último, no palco do Palácio de Ferro, no âmbito da III Trienal de Luanda.

O grupo tem como parceira, na estratégia de defesa do seu património artístico, a FESA, Fundação José Eduardo dos Santos.
A palavra “Massemba”, dança tradicional de umbigada, executada por casais de dançarinos, é plural de Semba, nome que veio a designar o género musical mais representativo da região de Luanda. Dançada na rua, nas tardes de recreio, nos óbitos e nas noites de luar, a “Massemba”, enquanto rítmo, emigrou para as guitarras virtuosas do Liceu Vieira Dias, José Maria, e, sobretudo, Nino Ndongo, por um processo de analogia da rítmica da percussão, dando origem ao semba.
A “Masssemba” tomou o nome aportuguesado de rebita, quando emigrou da rua para as salas de dança, a que se juntou o suporte do acordeão ou concertina, ao “tibabelo”, instrumento tradicional de percussão. Importa referir que,  “Rebita”, é o nome aportuguesado da “Massemba, dois rítmos que se identificam.
O processo de transposição, para as guitarras, da “Massemba” e dos rítmos da “Kazukuta”, uma espécie de “Massemba” em compassos mais acelerados, deu origem à “batida descompassada”, do Liceu Vieira Dias, e ao semba, pelas propostas inovadoras de José Maria e Nino Ndongo, nas suas mais variadas figuras rítmicas conhecidas, tendo havido depois uma disseminação nos conjuntos, sobretudo os Kiezos, no processo de consolidação do semba.
A “Massemba” é constituída por secção rítmica, percussão, caixa, e dikanza, e harmónica, concertina, acordeão, ou harmónica de beiços, e coros.
Para além dos “Novatos da Ilha de Luanda”, a história dos grupos de Massemba, em Luanda, regista os seguintes nomes: “Maria Escrequenha”, que passou a Dr. Agostinho Neto, do Mestre Firmino, concertina, e do Comandante, José Mandimbra, “Muxima Angola”, e “Santa Bárbara”, do Mestre Geraldo.

História

Fundado no dia 31 de Outubro de 1954, na Ilha de Luanda, o grupo de Massemba, Novatos da Ilha de Luanda, é herdeiro do “União Tristeza”, fundado em 1930. Estão na  origem da sua fundação, os dançarinos: Vasco Manuel, primeiro Comandante, José Francisco André, antigo Presidente, João Bartolomeu, tocador de concertina, mais concedido por João Tempo, e Cândido João, Sabú, concertina, todos falecidos”.
“Estão vivos Bartolomeu Manuel Napoleão, Jaburú Napoleão, actual Secretário-geral, e Salustiano Pinto Ferreira, Orfeu, Presidente do grupo. Joaquim Manuel Pascoal, financeiro e corista dos “Novatos da Ilha de Luanda”, explica a origem do nome: Quem deu o nome foi o Mestre Geraldo. De passagem pela Ilha, quando iniciámos, viu-nos dançar e perguntou quem éramos. Respondemos que estávamos a começar e não tínhamos nome, e disse: “Agora vocês serão os Novatos da Ilha”.

Canções


Muitas das canções interpretadas pelos integrantes dos Novatos da Ilha de Luanda foram herdadas da época do “União Tristeza”, nos anos trinta, mas um dos principais compositores dos Novatos da Ilha de Luanda na actualidade, Bartolomeu Manuel Napoleão, Jaburú Napoleão, é autor de parte substancial das canções do grupo: “Nga Malanha”, nome do avó do Jaburú Napoleão, conta a história da época de uma petição de armas para combater o inimigo da época dos movimentos, “Sabú”, conta a história de um homem que foi agredido na rua, “Ngoloia”, não contava que ia encontrar a minha mãe que morreu, falarei com quem, “Ji pangui jami”, meus irmãos vamos procurar a nossa mãe porque temos muita saudade, “Ilumba ni Mizangala”, pedimos muito aos jovens para vir dançar a massemba da Ilha de Luanda, “Muadi uami”, o meu marido está fazer ciúmes, “Novatos da Ilha”, uma celebração e elogio à Massemba da Ilha que está boa, “Nga Manda”, encontrei a Nga Manda na ilha, quando me viu fugiu, estou triste com a Nga Manda, volta em casa”, “Mabito mu jukule”, em Angola as portas estão abertas para quem quiser entrar, e “Malembe”, canção cantada pela Rebita do Dr. Agostinho Neto recriada por Jaburú Napoleão, “Malembe” é nome  de uma mulher que construiu a sua casa, com dinheiro de feitiço e “Nga Manda”: “Nga Manda nga mu sangue mu palaia/ Nga Manda nga mu sangue mu palaia Nga Manda kiá ngi mono, Nga Manda ua ngi lengue/ Eie u nga Manda, Nga Manda muene ua ngi lengue/ Nga Manda vutuka, Nga Manda vutuka ku bata”. Tradução: encontrei a Nga Manda na ilha, quando me viu fugiu, estou triste com a Nga Manda, volta em casa.

Instrumentistas

Os Novatos da Ilha de Luanda têm no activo, os seguintes instrumentistas: Jaburú Napoleão e Dumas, dikanza, Maria da Conceição, São, Engrácia Diogo, Sabalo, Joaquim Manuel Pascoal, Loy, nos coros, Páscoa Caetano, Manú, tibabelo, Paulo Sebastião, Pakas, acordeão, Cota Duia, percussão.  Segundo Paulo Sebastião, Pakas, “o acordeão é de uso recente, porque usava-se a concertina nos anos quarenta e cinquenta. Comecei a tocar por iniciativa própria, contudo a minha mãe disse-me, sem eu saber, que o meu pai tocava concertina. Na homenagem ao Minguito, em 2006, toquei,  no Caldo do Poeira, da Rádio Nacional de Angola, a sua obra completa.
Quero lembrar, que fui para os Novatos da Ilha, a convite do Comandante Vasco, já falecido, e estou há dez anos no grupo”.

Dançarinos

A preservação da longa tradição dos passos coreográficos da dança, elemento essencial da Massemba,  só foi possível através do ensino orientado pelos mais velhos, num processo de transmissão por herança. A dança é orientada pelo comandante, num processo alternado entre dançarinos, e dançarinas. Actualmente, estão no activo os seguintes dançarinos: Belito, Alexandre, Lito, primeiro Comandante, Cabinda, Comandante, Pascoal Napoleão, Jorge, Zé Emílio, e Emanuel, e as dançarinas: Tina, Lola, Loló, Bita, Lady, Minguita, Geny, Joaquina, também conhecida por Jota, Mena, Cláudia, Cristina, Pena, Pitucha, e Lucrécia.

Prémio


Os Novatos da Ilha de Luanda venceram o Prémio Nacional de Cultura e Artes, edição 2015, na categoria da dança: “pelo trabalho que vem fazendo e de grande relevância, já que ao longo do seu percurso tem conseguido não só preservar como também introduzir inovações nas suas coreografias, mantendo no entanto a estrutura base do género. Não obstante, o grupo ser integrado por uma geração nova, mantém a sua identidade, originalidade, ao mesmo tempo que conserva no activo alguns elementos fundadores, numa garantia de continuidade”, lê-se na acta do júri.

Concerto


Os Kiezos apresentaram-se, sábado último, no Palco da III Trienal de Luanda, com: Gegé Faria, viola, contra-solo, Brando Cunha, viola solo, Zeca Tirilene, viola ritmo, Manuelito Claudino, voz, Horácio da Mesquita, acordeão, Dulce Trindade, viola baixo, Habana Maior, tumbas, João Diloba, bateria, e Tony Samba, teclas.
No concerto,  os Kiezos revisitaram temas referenciais da história do conjunto.
Em relação à história dos Kiezos, tudo começou no bairro Marçal, mais propriamente na zona do Kapolo Boxi, quando Domingos António Miguel da Silva, Kituxe, uma figura indissociavelmente ligada à fundação dos Kiezos, reuniu um grupo de quatro jovens entusiastas, com propensão natural para a música, e criou um grupo anónimo que animava as noites quentes do Bairro Marçal. 
É ponto assente que, sem o lendário guitarrista Marito Arcanjo, os Kiezos não teriam a magnitude artística e a importância histórica que os coloca, de forma inequívoca, no ponto mais alto da alma musical angolana de feição urbana.

Trienal

A programação de concertos da III Trienal de Luanda pretende enaltecer a qualidade artística dos cantores, compositores e instrumentistas angolanos, valorizando um segmento musical reflexivo e experimental, que, normalmente, está distante do grande sucesso comercial da música de consumo imediato.
Neste sentido, já desfilaram no palco do Palácio de Ferro: a Banda “Afra Sound Star”, o cantor compositor e guitarrista, Carlitos Vieira Dias, acompanhado por Nanutu, saxofone soprano, Dalú Roger, percussão, a Banda Next, formação jovem que funde canções referenciais da Música Popular Angolana, segmentos de rock, e referências da soul music norte americana, Anabela Aya, uma das vozes mais promissoras do universo afro-jazz angolano, Duo Canhoto, formação que representa, na actualidade, a vanguarda mais prestigiada da trova angolana, e da musicalidade endógena da cultura angolana, Ndaka Yo Wiñi, cantor e compositor que valoriza a tradição pela estética da modernidade, Gari Sinedima, referência incontornável da nova geração de cantores e compositores, e Gabriel Tchiema, celebração sublime da musicalidade e da cultura tchokwe.

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