Cultura

Recalcular a rota da Humanidade

José Luís Mendonça

Antes do discurso inaugural do presidente do Instituto Goethe, Klaus-Dieter Lehmann, e o de abertura oficial pelo ministro da Cultura e Assuntos Europeus da Turíngia, Benjamin-Immanuel Hoff, o simpósio cultural de Weimar já se fazia ouvir no Hall da cidade de Goethe e Schiller, através do simbolismo universal da música da kora, o instrumento africano de 21 cordas, no dia 19 de Junho de 2019.

Fotografia: DR

Três anos após a organização do primeiro simpósio sobre cultura, o Instituto Goethe realizou, durante três dias, sob o título “Recalcular a Rota”, este segundo evento mundial, concentrado na questão de como podemos encontrar uma nova via para a Humanidade, num mundo cada vez mais instável e difícil de entender.
A palestra de abertura foi proferida pela designer e futurista Anab Jain, baseada na Índia e no Reino Unido: “Como podemos responder aos desafios e oportunidades que o futuro reserva para a nossa sociedade?
Qual será a sensação de viver no futuro?” Anab Jain imaginou e criou cenários futuros para que possamos experimentá-los no presente. Ela finalmente chegou à conclusão de que vale a pena lutar agora pelo mundo futuro em que queremos viver. Anab Jain levou ao palco as principais convulsões do mundo de hoje, inter alia, com a activista da Internet queniana Nanjira Sambuli, a cientista política grega Daphne Halikiopoulou e o membro do conselho executivo da Bertelsmann, Immanuel Hermreck.
Seguiu-se uma apresentação dos fantoches DUNDU iluminados pelo artista de marionetes, Tobias Husemann, que levou o público para a segunda parte da noite, guiando-os através do centro da cidade de Weimar até o local do E-Werk, onde uma festa pós-show com “Indie folk-pop”, da dupla Steiner & Madlaina e o DJ DENA terminaram a noite.

A grande questão
Através das eras e culturas, a humanidade tem sido forçada a navegar por terrenos desconhecidos, a dominar desafios inesperados e a desenvolver respostas a novas situações. Mas como pode continuar e sobreviver num mundo cada vez mais complexo, onde as possibilidades tecnológicas parecem infinitas e a orientação é mais difícil do que nunca? Esta foi a grande questão levantada neste evento mundial, com cerca de 300 participantes de todo o mundo.
Mais de setenta convidados de todo o mundo das áreas da cultura, economia, ciências e humanidades, jornalismo e política tiveram a oportunidade de explorar o tema da conferência a partir de várias perspectivas, num programa interdisciplinar de palestras, discussões, formatos de conversação participativa e intervenções artísticas. Os mais de cinquenta eventos programados tiveram lugar em oito locais diferentes em Weimar. O principal local do simpósio foi o E-Werk. um velho complexo fabril reciclado em espaço de cultura e arte. O simpósio repartiu os assuntos em focos temáticos: ORIENT/ACÇÃO - Como estamos a perder a visão geral num mundo cada vez mais complexo? AUTO/NOMIA - Como permanecemos autores das nossas vidas diante de rápidas mudanças tecnológicas? RE / GRESSÃO - A política mundial em sentido inverso: estamos experimentando uma transformação política radical? DIGI/ NOMICS - Como será a economia do amanhã e depois do amanhã?
Como súmula das conferências, o simpósio contou com: John Huth, professor de física e especialista em navegação de Harvard, sobre a arte perdida da orientação, enquanto Toby Walsh, especialista australiano em inteligência artificial, deu um vislumbre do ano de 2062. Na sua conferência “Choques Disruptivos, Plataformas Globais e Novos Monopólios”, a economista e escritora americana Denise Hearn explorou as transformações económicas no século XXI.

Discussão e diálogo participativo nos quatro temas principais

Nos debates participativos, os quatro temas principais foram explorados de várias perspectivas. Panashe Chigumadzi (Zimbabwe), Assaf Gavron (Israel), Hao Jingfang (China) e Julia von Lucadou (Alemanha) discutiram o sentimento de estar perdido na literatura. No painel “Quando os Estados Colectam Dados”, a especialista em Governação Electrónica, Katrin Nyman-Metcalf, da Estónia, discutiu as questões com a consultora jurídica Usha Ramanathan, da Índia, e o sinólogo Rogier Creemers, da Holanda. O ensaísta Pankaj Mishra (Índia) apresentou uma palestra intitulada “Bem-vindo à Era da Raiva” e discutiu essas questões com o advogado constitucional turco Ece Göztepe. O cientista político francês Emile Chabal apresentou uma palestra intitulada “R.I.P. Democracia. Como morrem as Democracias?”.
A empreendedora Sarah Chen (EUA/Malásia), a activista da Internet Nanjira Sambuli (Quénia), a artista Elena Knox (Austrália) e Hiltrud Werner (Alemanha), membro do conselho da Volkswagen, trocaram ideias sobre género e tecnologia. Além de outros eventos discursivos, no Future Lab, um formato aberto de discussão, os visitantes presentes na conferência tiveram a oportunidade de entrar em diálogo directo com oito especialistas das quatro principais áreas.
Vários convidados africanos, sobretudo jovens, estiveram presentes, desde a Nigéria, RDC, Quénia, Zimbabwe, África do Sul entre outros países, onde se incluiu o nome de Angola.
Como afirmou Pankaj Mishra, ensaísta, “Com tantos dos nossos marcos em ruínas, mal podemos ver para onde estamos indo, e muito menos traçar um caminho. Mas, mesmo para abrir as nossas vias básicas, precisamos, acima de tudo, de maior precisão nas questões da alma. ”

 

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