Reencontro histórico das guitarras de Marito e Zé Keno

Jomo Fortunato |
11 de Agosto, 2014

Fotografia: Cedida pelo músico

O Centro Recreativo e Cultural Kilamba é, inequivocamente, o mais importante espaço de  promoção, preservação e divulgação do património histórico da Música Popular Angolana.

O programa realizado no primeiro domingo de Agosto, enalteceu a importância das figuras de Marito Arcanjo dos Kiezos, representado por Botto Trindade,  e Zé Keno dos Jovens do Prenda, cuja obra instrumental foi actualizada por Zé Mueleputo, o génio mais jovem da guitarra angolana.
Com 13 anos de existência, o Centro Cultural e Recreativo Kilamba, designado “Maria das Escrequenhas” no tempo colonial, é, de facto,  a catedral do revivalismo da Música Popular Angolana, e está na vanguarda da sua valorização, constituindo uma fonte de suma importância arquivística.   Reinaugurado em 2001 pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, o espaço começou com a realização do programa Caldo do Poeira,  tendo como parceiro  a Rádio Nacional de Angola, e mantém até actualidade o esforço de preservação, e reactualização da autencidade histórica da Música Popular Angolana.
Pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba já passaram importantes figuras e conjuntos da história da Música Popular Angolana: Kissanguela, Kiezos, Jovens do Prenda, Angolenses, Kissanguela, África Show, Carlos Burity, Negoleiros do Ritmo, África Ritmo, Diana Spray, Mário Matadidi Bwana Kitoko, Samangwana e Elias Dya Kimuezo.  Para além do  “Musongué da Tradição”, o centro tem na sua agenda os programas: “Farrar do antigamente”, “Show à Sexta-Feira”, “Encontro e Convívio” e ainda um ciclo de palestras que aborda uma  generalidade de temas culturais.

Marito

Marito Arcanjo recebeu do histórico Duia, figura carismática do conjunto os Gingas, as primeiras lições de guitarra na casa da irmã, Mana Didi Arcanjo. Muito cedo, o jovem Marito, revelou possuir uma extraordinária capacidade de assimilação, tendo demonstrado uma notável destreza no uso da guitarra, recriando os solos do Franco, o célebre guitarrista do Congo Democrático.
Tudo começou no bairro Marçal, mais propriamente na zona do Kapolo Boxi, quando Domingos António Miguel da Silva, Kituxe, uma figura indissociavelmente ligada à fundação dos Kiezos, reuniu um grupo de quatro jovens entusiastas, com propensão natural para a música, e criou um grupo anónimo que animava as noites quentes do Bairro Marçal.  Este grupo, que, no início dos anos sessenta, extraía sons de instrumentos artesanais, cedo foi crescendo e começou a tomar forma.
Em 1963, Kituxe convida  Tininho e, logo depois, Aristófanes Rosa Coelho, Adolfo Coelho (dikanza e voz), jovem que assistia, com frequência, os ensaios do grupo. Na sequência, Adolfo Coelho solicita os préstimos de Anselmo de Sousa Arcanjo, Marito, uma figura que irá marcar, de forma definitiva, a história do agrupamento os “Kiezos”.  Marito Anselmo Arcanjo, genial guitarrista com nome gravado na história da Música Popular Angolana, nasceu no dia 12 de Maio de 1948, e retornou aos palcos, depois de longa ausência, em Agosto de 2002 e no dia 9 de Maio de 2010, como figura de cartaz no ciclo de espectáculos dominicais, denominado  “Muzonguê da Tradição”, organizados pelo Centro Recreativo e Cultural Kilamba.  
O conjunto os Kiezos tem uma nova formação que integra os seguintes instrumentistas : Décimos (viola baixo), Zeca Tirilene (viola baixo), Hildebrando Cunha (viola  solo), Abana Mayor (tumbas), Dedé (viola ritmo), Neto (teclados), João ( bateria ),  Mister Quim e Manuelito (vozes e dikanza), e Horácio da Mesquita (concertina e piano acústico).

Zé Keno

Zé Keno, figura emblemática dos Jovens do Prenda, é um nome que marcou de forma indelével a história da Música Popular Angolana. Em 1953, com apenas três anos, sai de Mucasa, província de Malanje, para Luanda, com a mãe, e solta, aos dezoito anos, os primeiros acordes da sua guitarra.
A criatividade plena, e o desempenho de um fraseado musical com laivos de improvisação jazzística, são alguns dos atributos de um guitarrista que afirma, de forma resoluta, ter sido influenciado pelo Duia do conjunto os  Gingas, Marito Arcanjo, dos Kiezos, Liceu Vieira Dias,  do Ngola Ritmos, e Doutor  Nicó Kassanda, da orquestra “African Fiesta Sukisa”.  
Quando contava apenas dezoito anos, José João Manuel extraía da sua guitarra acordes musicais que encantavam a juventude da sua época. Zé Keno era um jovem que assitia, interessado, o desfile de grandes nomes da música angolana no Salão dos Passos, no Bairro Prenda.
José Pequeno ou Kedy, pseudónimo com o qual gravou dois singles a solo,  “Filho doente” e “Jipambo”, começou em 1968 nos “Sembas” com Sansão (vocal) e Gama (viola baixo de seis cordas) no Bairro Margoso, local onde se situa, actualmente, a conhecida Clínica do Prenda. Zé Keno passou pelos “Jovens do Catambor”, formação de duração efémera, que passou a “Jovens dos Prenda” logo após a sua mudança para o Bairro Prenda.
Criador de uma afinação única, diferente da clássica, Zé keno inventou as suas próprias posições na guitarra e revolucionou a estrutura harmónica de um espolio considerável de muitas canções angolanas. De notar que, muito antes da dissolução dos “Jovens do Catambor”, o guitarrista Zé Keno já tinha sido convidado a integrar este grupo, convite que então declinara. No entantto teve uma passagem fugaz pelos “Águias Reais” e “África Show” e foi autor dos grandes êxitos dos “Merengues”, no seu período áureo.
Com a concretização efectiva, da referida dissolução Zé keno aceita o repto com uma única condição,  levar consigo antigos companheiros dos “Sembas”: Gama (viola baixo) e Sansão (vocal) que se juntaram ao Didi, Augusto, Inácio (tambor baixo) e Chico Montenegro (tambor solo) formando, assim, a primeira e mais sólida formação dos “Jovens do Prenda”. Nesta época dirigia o grupo, o empresário Juca.
Num quintal contíguo ao local onde ensaiavam os “Jovens do Prenda” trabalhava o grupo “Estrela da Maianga” formado por : Antoninho (guitarra), António do Fumo (vocal e dikanza) e Kangongo (tamborim). O desenvolvimento rápido e seguro dos “Jovens do Prenda”, atraiu o Kangongo e o António do Fumo, duas figuras que  emprestaram ao grupo maior elasticidade artística, sobretudo ao nível da composição.  Zé Keno deixa às gerações vindouras, a singularidade de uma afinação e um cunho inequivocamente pessoal de execução da guitarra.

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