Cultura

Referências simbólicas à música na poesia de Agostinho Neto

Jomo Fortunato

Há uma musicalidade intrínseca aos desígnios e propósitos mobilizadores da luta de libertação de Angola, na época da guerrilha com o conjunto “Nzaji”, na qual a liderança de Agostinho Neto teve um papel de suma importância, e um outro segmento artístico, igualmente de índole musical, que celebra a mística do sagrado, realça os mais nobres preceitos litúrgicos da religiosidade africana e universal, está na base da essência da cultura angolana e se projecta na poética de Agostinho Neto.

Agostinho Neto privilegiava os desdobramentos semânticos no universo da arte
Fotografia: DR

São inúmeras as referências à música na poética de Agostinho Neto, no entanto há versos que pela sua densidade literária e estética, são mais propícios a uma sólida argumentação interpretativa e que realçam a música na sua dimensão simbólica, privilegiando os seus possíveis desdobramentos semânticos no universo da arte musical e da construção poética de Agostinho Neto.  
Agostinho Neto terá sido influenciado pela liturgia da igreja protestante, o pai foi pastor, um aspecto da sua formação que ditou o ritmo e a génese temática dos seus versos, sendo evidentes, na globalidade da sua obra, reiteradas referências à música, no sentido lato do termo.
Os gritos de revolta ecoavam, intempestivos, na  música e na esperança do povo angolano, num compasso sincopado, rumo à heróica luta que ditou a independência e a     consequente conquista da liberdade.   Foi assim no engajamento político e de modo semelhante, acorreu na arte poética de Agostinho Neto.  Política, literatura e música surgem assim como três factores de clara socialização que se irmanam, “misturados em estranha orquestração”, numa poesia que se reputa intemporal, visionária, humanista e de clara afirmação universal.   

Musicalidade
Ritmo, harmonia e melodia atravessam a poesia de Agostinho Neto: Ansiedade/ ao som da viola/ acompanhando uma voz/ que canta sambas indefinidos (...) (Sábado nos Musseques, in Sagrada Esperança)  eram assim as nostálgicas tertúlias dos musseques, retratados em versos, nos encontros musicais da época.  O poema «Aspiração» transborda literalmente de música: Ainda o meu canto dolente/e a minha tristeza/ no Congo, na Geórgia, no Amazonas (...). Aqui a musicalidade atravessa a história do mundo, particularizada pelo canto «triste» e «dolente» do poeta, numa voz que se divide ao longo dos trajectos escarpados da escravatura. Pode-se ainda subentender, nestes versos, o prenúncio da emanação dos primeiros acordes do jazz, na América do Norte, e a expansão da cultura africana pelo mundo.
No mesmo poema, o poeta celebra a musicalidade da noite africana e do seu canto, entendidos como leitmotiv (fio condutor)  do engajamento na luta anti-colonial: Ainda/ o meu sonho de batuque em noites de luar/ ainda os meus braços/ainda os meus olhos/ ainda os meus gritos/ Ainda o dorso vergastado/ o coração abandonado/ a alma entregue à fé/ ainda a dúvida// E sobre os meus cantos/ os meus sonhos/ os meus olhos/ os meus gritos/ sobre o meu mundo isolado/ o tempo parado (...). (Aspiração in Sagrada Esperança).
A música também acontece como antídoto à  pobreza e ao sofrimento do homem africano plasmada na  sonoridade dos instrumentos: Ainda o meu espírito/ ainda o quissange/ a marimba/ a viola/ o saxofone/ ainda os meus ritmos de ritual orgíaco (...) ... E nas sanzalas/ nas casas/ no subúrbios das cidades/ para lá das linhas/ nos recantos escuros das casas ricas/ onde os negros murmuram (...) Ainda// O meu desejo/ transformado em força inspirando as consciências desesperadas. (In Sagrada Esperança).

Universalidade

As referências expressas à música e à generalidade dos ritmos negros do mundo, sustentam parte substancial da estética e da literariedade da poesia de Neto, ora como factor de equilíbrio entre a história e a construção literária, em contraponto à dimensão épica do texto, ora como alusões de uma filosofia endógena, concretizada por uma manifestação artística tipicamente africana. É uma homenagem à música e à dança, solidarizando-se ao sofrimento dos seus irmãos negros: Palpitam-me/ os sons do batuque/ e os ritmos melancólicos do blue/ Ó negro esfarrapado do Harlem/ ó dançarino de Chicago/ ó negro servidor do South/ Ó negro de África/ negros de todo o mundo/ eu junto ao vosso canto/ a minha pobre voz/ os meus humildes ritmos. (Voz do sangue, in Renúncia impossível).

Metáfora
Quando a música, e todo o universo semântico a ela ligada, não aparece de forma expressa, ocorre de forma metaforizada associada, amiúde, a elementos do mundo animal e vegetal: Sons de grilhetas nas estradas/  cantos de pássaros/  sob a verdura húmida das florestas/  frescura na sinfonia adocicada/ dos coqueirais/ fogo/ fogo no capim/  fogo sobre o quente das chapas do Cayatte (...) e o reforço anafórico, a dado passo, do lexema «ritmo»: ritmo/ Ritmo na luz/ ritmo na cor/ ritmo no movimento/  ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços/   ritmo nas unhas descarnadas. /Mas ritmo/  ritmo. /   Ó vozes dolorosas de África! (Fogo e Ritmo, in Sagrada Esperança)

Africanidade

Sentindo a música, Agostinho Neto se revela, de forma criativa, se revê na sua africanidade, desconstruindo toda a intencionalidade que impõe, como únicos, os valores da cultura ocidental. O  negro, e a sua cultura, são categorizados,  pela versificação, à condição de elementos de reflexão filosófica, conceptualizando uma dimensão existencial própria e endógena.
Tanto é assim que ficou conhecida a afeição que Agostinho Neto nutria pelo Agrupamento Kissanguela (1974-1980), uma das mais importantes formações da música de intervenção, o que nos ocorre terminar com a grande homenagem de Agostinho Neto ao conjunto, “Ngola Ritmos”, paradigma da modernidade estética da Música Popular Angolana, e  ao seu amigo, Liceu Vieira Dias: Quando voltei/as casuarinas tinham desaparecido da cidade/ e também tu/ amigo Liceu/voz consoladora dos ritmos quentes da farra/nas noites dos sábados infalíveis/também tu/harmonia sagrada e ancestral/ ressuscitada nos aromas sagrados do Ngola Ritmos… (“O Içar da Bandeira, Poema dedicado aos heróis do povo angolano”, Cadeia do Aljube, Lisboa, Agosto, 1960).

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