Cultura

Rei desfila com elegância no palco do Show do Mês

Honorato Silva

Na viragem do curto Fevereiro, com todo o seu romantismo, para o mais robusto Março, afectivamente ligado à mulher, as noites de sexta-feira e sábado foram preenchidas, no anfiteatro do Real Plaza Hotel, em Talatona, com a homenagem a Elias dya Kimuezo, o “Rei da Música Angolana”, na abertura da quinta temporada do Show do Mês, projecto cultural da produtora de espectáculos Nova Energia.

Elias dya Kimuezo abriu a quinta temporada do programa “Show do Mês” da Nova Energia
Fotografia: Jaimagens/Fotógrafo

Depois do fecho do quarto ano consecutivo dos encontros intimistas, em Dezembro, com Carlitos Vieira Dias, na sua profundidade estética, o regresso dos músicos ao palco já considerado o grande barómetro do movimento artístico teve de ser feito dentro da “realeza”.
Assim, coube a vez ao seu expoente máximo, cuja voz, agora mais rouca e embargada, fruto da acção do tempo, só se faz ouvir no kimbundu correcto ensinado pela avó Domingas,  mestra no apontar do caminho transformado em mais de 60 anos dedicados à música, com o suporte de centenas de sucessos gravados e muitos a reivindicar o aconchego de uma  obra discográfica, como os célebres “Yá Kala Yá” e “São Nicolau”, o seu grito de liberdade, no fervor do movimento conducente à independência de Angola.
Sábado, na noite da apoteose, porque no Show do Mês o primeiro dia é para os “showistas” uma espécie de ensaio geral com plateia, o ritual foi seguido à risca. Pontualmente às 21h00, Salu Gonçalves subiu ao palco e deu as boas-vindas aos presentes, passando de seguida a palavra a Yuri Simão, o rosto visível da máquina organizativa. Havia pressa de ouvir o Rei, mas sobrou paciência para algumas confidências, como a da filha da senhora das refeições dos músicos, que, com as propinas pagas pela mãe, está prestes a concluir a licenciatura em Direito, no somatório dos cinco anos. A outra boa-nova foi a entrada da Face CARE e as suas ambulâncias equipadas com tecnologia de ponta.
Ao som do hino do projecto, as cortinas foram descerradas, sob a batuta de Yuma Simão, a directora de palco. Estava lá Elias dya Kimuezo, sentado na poltrona e com a coroa empunhada. E não
foi só. Levou consigo outros “monstros” sagrados da mú-sica de Angola. Joãozinho Morgado, nas tumbas, Teddy Nsingui (solo), Quintino, Banda Movimento (ritmo) e Mias Galheta (baixo) reforçaram o elenco artístico.
“Mona Ndengue” foi a canção escolhida para abrir as duas horas de actuação do ícone temperado no bairro Margoso, nos festejos do carnaval, formando mais tarde o conjunto “Makezo Dyage”, com Tony Cubango, Paizinho, André e Capetróleo, segundo conta o próprio na obra “O percurso do Rei dya Kimue-zo”, chancelada pela editora “Cão que Lê”.
Na partilha dos holofotes com os seus convidados, a estrela da noite, distinguida pela sua simplicidade, interpretou, à entrada, “Mwa Lunga” e “Caminho de Ferro”, essa a lembrar os seus 19 anos, período em que trabalhou como aprendiz sem salário nos serviços ferroviários. Era ajudante de João Wilson. Seguiram-se “Mana kudile ngo”, “São Nicolau”, “Nzala”, “Nzon Nzon”, “Kalumba”, “Ressurreição”, “Samba Makia”, “Zé Salambinga” e “Akalakadi”.

Lágrimas de gratidão

“Nga ku menekena, tata Elias” (já lhe agradeci, papá Elias), disse Massoxi Kim. Sem conseguir esconder a emoção, com os olhos banhados em lágrimas, o homenageado respondeu: “nga sakidila” (obrigado)! A noite era de kimbundu, sem precisar de tradução, porque a boa mú-sica é entendida em qualquer língua.  
As restantes 13 das 25 músicas inscritas no alinhamento do show foram ouvidas nas vozes de Paula Daniela (Gingas do Maculusso), fez três duetos com o Rei, Cabaleto, Massoxi (Banda Movimento) e Mister Kim, que interpretaram “Ka-tonhontonho”, “Muimbu Uami”, Leonor, “Kalunga Nguma”, “Kwieku”, “Mu-xima”, “Agostinho Neto”, “Lamento de Mãe”, “Entrudu”, “Xamavo”, “Ua Zuata”, “Lu-imby” e “Un’Gamba”.   
Calabeto “Kota Bué” contou a história da “Leonora”, a fã que deixou de gostar de Elias Dya Kimuezo, por esse ter supostamente ignorado a sua chamada, enquanto passava pela rua. De acordo com o relato do músico, aplaudido da fila da frente pelo governador de Luanda, Adriano Mendes de Carvalho, assim nasceu “Leonor”, no calor de uma discussão.  
As marcas do desporto praticado na infância também estiveram patentes no palco, levadas pelo vigor que sustenta a longevidade do Rei, antigo velocista do mítico Atlético de Luanda.

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