Cultura

Religiosidades na exposição “Vida e Fé” de Ricardo Kapuca

Jomo Fortunato

Inaugurada no passado dia 23 de Março, a exposição “Vida e Fé” está patente ao público no prestigiado “ELA, Espaço Luanda Arte”, até ao dia 25. A mostra possui o mérito fundamental de constituir uma proposta diferente do mundo da transfiguração plástica, pela reutilização criativa e ousada de têxteis estampados com ícones da religião católica.

Kapuca tem obras em colecções em Portugal e Canadá
Fotografia: DR

  Ricardo Kapuca argumenta do seguinte modo, a sua mais recente proposta plástica, “ Quando os colonos invadiram o continente berço da humanidade, a que chamaram, “África”, encontraram religiões locais com os seus próprios conjuntos de sistemas culturais, crenças, visões do mundo e símbolos que relacionavam a humanidade com espiritualidade, consubstanciadas nos seus mais profundos valores morais.  Muitas religiões acompanharam os escravos e existem, ainda hoje, registos, inequívocos, no “Mundo Novo”.
Os colonos ignoraram essa riqueza local, impuseram a sua religião e pregaram a fé cristã, entre outras confissões. Nesta era-pós colonial, será que o continente ainda está em processo de contínua descolonização? Qual é o estado da religião no continente africano, e o papel que ainda deve ou pode ter? Será que os africanos devem resgatar para si as suas práticas, crenças, rituais e religiões novamente? E a sua própria fé?
 Contudo, não havendo arquivos em ordem para um tal resgate, será que a religião pode ser reinventada no continente, e quem o poderá fazer? Quem serão os nossos profetas? Onde podemos encontrar ou descobrir os novos conjuntos de sistemas culturais e crenças? Talvez na rua? No povo?…  procuro com esta exposição,  relançar o debate”…
Ricardo Kapuca fez a sua primeira mostra de trabalhos em 1987, quando contava apenas onze anos de idade, na sede da TPA, Televisão Pública de Angola, da Província de Benguela, uma pequena exposição comentada, de forma positiva, pelo falecido artista plástico, Délio Baptista, 1947- 2013, antigo membro efectivo e delegado da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos, em Benguela.Embora seja um auto-didacta, no domínio das artes plásticas, Ricardo Kapuka sempre teve a intenção de dar consistência e impacto artístico ao seu trabalho, e, por esta razão, frequentou, em 2003, o curso de “Desenho de animação”, em 2D, na “Neuroplanet”, Lisboa, Portugal, e em 1994 teve uma formação em “Artes gráficas”, no Centro Profissional da Amadora, igualmente em Portugal. Ricardo Kapuca possui obras representadas em colecçõesparticulares em Portugal, Canadá, e Angola, num conjunto em que se destaca a colecção de arte do Banco Caixa Totta, em Angola.
Filho de Félix Ângelo e de Inês de Fátima Alfredo Ângelo, Ricardo Kapuca  Alfredo Ângelo nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1976, no município Catumbela,  província de Benguela, e residiu em Portugal de 1994 a 2009. Fez parte do “IMARGEM”, juventude do “Colectivo de Artistas Plásticos de Almada, em Portugal, e nesta condição participou em diversas exposições colectivas, no período de 1998 a 2002. No ano de 2012, Ricardo Kapuca, foi distinguido com o “Prémio “ENSARTE”, edição especial, províncias, Pintura, Benguela, e, em 2016, foi agraciado com os prémios Alliance Française, ENSARTE, e o segundo grande Prémio “ENSARTE” Pintura, Angola. 

Exposições
Ricardo Kapuca possui no seu histórico várias exposições individuais, das quais destacamos as seguintes, “Pinturas de Kapuca”, Galeria Benamor, 2010, Benguela, “Antes de Tudo”, Galeria Kanawa, Restinga,2011, Lobito, e  “7 dias / antes e depois”, com curadoria de Nuno Sacramento, Ílhavo, 2016,  Portugal. Ainda em 2010, Ricardo Kapuca fez as seguintes exposições colectivas, “Leigos para o Desenvolvimento”, Museu de Ar-
queologia, Benguela, “Vin-te e cinco anos da Chá de Ca-
xinde”, Lobito, “Exposição alusiva à visita da Ex-Primeira Dama, Ana Paula dos Santos, Museu de Arqueologia, Benguela, “Nós e os outros”, com a artista plástica, Eurídice Cruz Neto, Museu de Arqueologia, Benguela, “Bakalhau”, pintura escultura e fotografia, 2013, Ílhavo, Portugal, com curadoria de Nuno Sacramento, “Arte 100 Fronteiras”, MACLOB, Mostra de Arte Contemporânea do Lobito, 2013, Correios do Lobito, no âmbito das “Comemorações do Centenário da Cidade”, ENSARTE, pintura, Benguela, 2016, e “A figura humana na arte angolana”, Banco Económico, 2017, Luanda.

Espaço “Ela”
Dominick Tanner, curador-produtor britânico e director-geral da “ELA,  Espaço Luanda Arte”, vive e trabalha em Angola há nove anos e durante este tempo, produziu e desenvolveu um conjunto de projectos que visam enaltecer os artistas, fomentar a arte angolana e valorizar as instituições que têm apoiado a criação artística.
 O “ELA” não é somente um espaço comercial de vendas, está particularmente engajado e vocacionado em valorizar a pesqui-
sa, oferecendo duas residências individuais e três residências colectivas, por períodos de dois a três meses,  permitindo a exposição de obras pesquisadas e criadas a pensar no espaço, valorizando o diálogo numa área para mesas redondas, debates, palestras, exposições individuais, mostras colectivas e tudo que seja inovador.
O “ELA” tem trabalhado quase em regime de exclusividade com artistas nacionais e já passaram pelo “ELA”, nomes como Paulo Kapela, Van, Pedro Pires, Babú, Grácia Ferreira, Don Sebas Cassule, Fernando Vinha e Úolofe. Foram expostos, mais recentemente, trabalhos dos fotógrafos Mário Macilau de Moçambique e Baudouin Mouanda, Congo Brazzaville.
 O “ELA” tem desenvolvido projectos de diplomacia cultural, pela via da participação em importantes feiras internacionais, tais como a Feira “1:54” em Londres, 2015, Feira “FNB Jobug Art Fair”, 2016, Feira de “Cape Townart fair” e “Art Paris Art Fair”, 2017, e, mais re-centemente, na décima edição do “FNB Jobug Art Fair”, onde expôs um projecto museológico que celebrou os cinquenta anos da carreira do artista plástico, António Ole, com três grupos de fotografias e uma vi-deo-instalação, todos traba-
lhos menos conhecidos do artista. 

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