Cultura

Relíquias acompanhadas pelo conjunto "Merengues"

Jomo Fortunato

Cantor e compositor, Rui Morais considera o ano de 1969 como sendo o marco do início da sua carreira musical, período em que integrou o conjunto “Os anjos”, do qual foi um dos fundadores, como vocalista e executante de tarolas, formação que se exibia na Zona do Laranjeira, Sambizanga, e teve como principais integrantes, Cipriano, viola baixo, Xixi, viola solo, Jajão, viola ritmo, e Adãozinho, nas tumbas.

Relíquias acompanhadas pelo conjunto "Merengues"
Fotografia: Edições Novembro

 A iniciativa em encontrar uma designação para grupo, um baptismo de inspiração religiosa, foi um aspectoque demonstra o empenho de Rui Morais na consolidação do conjunto “Os Anjos”. Durante a sua curta existência, o conjunto “Os anjos”, já sem Rui Morais, gravou, em 1977, entre outros registos em fita magnética na RNA, Rádio Nacional de Angola, os singles, "Angola rumo ao progresso" e "Lamento dos pais", “Choro de Oliveira”, um sucesso de dimensão nacional, e “Avante juventude”, com o selo da CDA, Companhia de Discos de Angola, gravado nos Estúdios Norte, com supervisão musical de Carlitos Vieira Dias e sonorização de João Canedo.
Embora os seus integrantes tivessem muita vontade em prosseguir uma carreira artística sólida, a verdade é que o conjunto “Os anjos” teve pouca duração, consequência da falta de equipamento, situação que foi determinando a irregularidade no cumprimento dos contratos das várias solicitações, sobretudo os convites dos centros recreativos da época. Perante tal situação, Rui Morais decidiu enveredar por uma carreira a solo, de 1971 a 1973, com concertos reiterados no Centro Recreativo Faria e Braguês, localizados no Bairro Sambizanga, acompanhado pelos Jovens do Prenda, Kiezos, Anjos, Gingas e Ana Ngola.
Filho de José de Couto Morais e de Feliciana Domingos Adão, João José de Couto Morais, Rui Morais, nasceu em Luanda, Bairro Sambizanga, no dia 29 de Maio de 1953. Membro da União Nacional dos Artistas e Compositores, como atesta uma declaração datada de 28 de Outubro de 2016, Rui Morais conta, até à actualidade, com uma carreira de quarenta e oito anos com sucessivos interregnos involuntários.
Rui Morais foi homenageado, em Setembro de 2016, pela importância histórica do conjunto da sua obra, no âmbito do programa cultural “Em defesa do semba”, no Centro Recreativo “Muximangola”.

Temas musicais
Os temas mais recorrentes na escassa mas significativa criação musical de Rui Morais, vão desde alusões à morte e pensamentos em memória da morte do seu pai, José de Couto Morais, como em “Ubanzelouá tateto”, pensamentos do meu pai, tema em que o cantor fala do desaparecimento do seu pai. Conta o cantor que na tentativa de ir procurá-lo, aconselhado pela sua mãe, no percurso só encontrou a camisa do seu pai no capim, em pleno mato, e nunca mais voltou a vê-lo. No tema “Sembanguimeseneua mufumo” o compositor reconhece que é mestre na sua profissão graças ao contributo inestimável da sua mãe, constituindo o tema uma criação de agradecimento. Em “Rumba ngongo”, o cantor fala de um amigo que morre em consequência do cumprimento do serviço militar na tropa colonial, na canção Rui Morais aconselha e consola a mãe do seu amigo a não chorar. Em “Mona uaxala sem tata”, filho que ficou sem pai, o autor narra mais uma vez a tropa como consequência da orfandade de um filho que fica sem pai, “mãe não chore cria sempre bem o teu filho, se morreu foi pela pátria”, narra o cantor numa canção de lamento, muito característica nos compositores da época colonial.
 
Discografia do músico
Na sequência do sucesso deste conjunto de espectáculos, o cantor foi convidado a  gravar o seu primeiro single, com o selo CDA, Companhia de Discos de Angola,em 1973, com as canções “Rumba Ngongo” e “Sembanguimeseneua mufumo” e segundo single, em 1975,  com os temas “Ubanzeluuatat'etu” e “Mona uaxala se tata”, acompanhado pelo Conjunto “Merengues” que à época integrava supervisor musical, Carlitos Vieira Dias, viola baixo, José Keno, viola solo, Gregório Mulato, bongós, Joãozinho Morgado, tumbas, Zeca Tyrilene, viola ritmo, e  Vate Costa, dikanza e voz.

Participações
Depois do 25 de Abril de 1974, Rui Morais, na sequência dos seus sucessos gravados em disco, participou em diversos espectáculos de natureza política e cultural organizado pelo DOM, Departamento de Organização de Massas do MPLA e da OMA, Organização da Mulher Angolana, muitos dos quais realizados no Estádio da Cidadela, Cinema Atlântico, Cinema Karl Marx e Cinema São João, Centros Recreativos e Unidades Hospitalares. Em 1979 participou no Programa, “Tribuna Cultural” da Televisão Pública de Angola.

Merengues
Da prestigiada carteira da CDA, para além dos referenciados singles de Rui Morais, consta um espólio discográfico, de cantores acompanhados pelo conjunto “Merengues” do qual destacamos, pela sua importância estética e dimensão patrimonial, os seguintes singles e LP’s, em vinil: Urbano de Castro, “Camarada Presidente” e “Revolução de Angola”, Carlos Lamartine, “Pala ku nu abesa ò muxima” e “Kuale ngo valolo”, Nelas, “Muxima uami Santo” e “Lutangu”, João Anesse, “Josefina”  e “Otchili”, Tino diá Kimuezu, “Tino mungu ió dimba diobe” e “Kibela kiami”, Buarque, “kalunga nguma”, “Tua kua ngola tua xixima”,  Maiuka,  “Batuque é feitiço” e “Viva Cabral”, Sabú, “Manuelé” e  “Monami ualo kata”, Maró Ribas, “Kéuia Zénzé” e “jinvunda”, Cardoso Soares, entre outros.

 

  Depoimento do compositor Bernardo António "Dikambú"

Compositor, intérprete, guitarrista e notável conhecedor da história da Música Popular Angolana, Bernardo António, vulgarmente conhecido por, Dikambú, ficou também conhecido  por ter sido a alternativa à substituição do carismático Dominguinho, guitarrista solo do conjunto “Dimba Ngola”.
A generalidade da crítica reconhece a sua importância, enquanto historiador, sobretudo em relação à consistência dos seus depoimentos e à qualidade da tradução das canções, do Kimbundo para língua portuguesa, no  programa “Caldo do poeira”, da Rádio Nacional de Angola. Amigo de Rui Morais, Dikambú, fez o seguinte depoimento sobre o cantor: “Conheci o Rui Morais no tempo dos “kutonocas”, espectáculos de rua do promotor Luís Montez, realizados na época colonial, e sempre reconheci nas suas criações musicais a matriz da angolanidade, um facto que nos identifica, culturalmente, quanto o ouvimos cantar.
Julgo pertinente lembrar que ele esteve próximo de conquistar o “Disco de ouro” da CDA, Companhia de Discos de Angola, na sua edição de 1974. Compõe e fala com assinalável fluência em Kimbundu e língua portuguesa e os seus versos contêm mensagens de forte pendor educativo que reflectem a vivência característica dos luandenses tal como tema “Ubanzelouá tateto” e outras canções em que aconselha o trabalho como forma de dignidade.”

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