Retorno simbólico e triunfal do património angolano

Jomo Fortunato |
7 de Março, 2016

Fotografia: Cláudia Veiga

O retorno a Angola de duas máscaras e uma estatueta do povo chokwe, do século XIX, e a consequente entrega simbólica ao Presidente da República, marcou o início de uma escalada negocial, de dimensão internacional, que levou a recuperação de mais uma peça, num processo que poderá levar à restituição completa do património escultural, disperso pelo mundo, caracterizado por um espólio de incalculável valor cultural, e de grande magnitude mercadológica.

No acto de entrega simbólica das duas máscaras e uma estatueta do povo tchokwe, do século XIX, ao Presidente da República, José Eduardo dos Santos, no dia 4 de Fevereiro de 2016, Sindika Dokolo, patrono da Fundação homónima, considerou a cerimónia de grande significado cultural e histórico, num discurso que marcará, decerto, os anais da história da cultura angolana: “Sinto-me honrado e profundamente agradecido por poder exprimir em poucas palavras, na presença de Vossas Excelências, a minha satisfação pela realização desta singela cerimónia carregada de grande significado cultural e histórico. Esta é uma circunstância verdadeiramente excepcional, pois, neste dia de aniversário do início da Luta Armada pela Independência de Angola, temos reunidos, aqui nesta sala do Palácio Presidencial, o Chefe de Estado da República de Angola, o Rei dos tchokwe, e obras de arte do Século. XIX, julgadas desaparecidas”.
A guerra e a ausência de infra-estruturas em Angola, que foi durante muito tempo o argumento para apropriação indevida do património artístico angolano, foi uma justificação que, segundo Sindika Dokolo, perdeu validade: “De facto, os negociadores ou coleccionadores internacionais de Arte Clássica Africana, quiseram justificar a sua indevida apropriação, invocando quer o perigo que a guerra representava para a preservação de tão importante património, quer a falta de infra-estruturas adequadas para as proteger e manter. Agora, estes argumentos caem totalmente pela base. A guerra em Angola pertence ao passado. Graças à visão estratégica do desenvolvimento de Angola assinalado desde 2002, Dundo já é uma cidade provincial acessível e em pleno desenvolvimento, como evidenciado pela criação da nova cidade do Dundo, com os seus edifícios modernos e as suas novas infra-estruturas urbanas”.
Para além da nobre presença do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, presenciaram o acto solene de entrega das máscaras, a Primeira-dama da República de Angola, Ana Paula dos Santos, Sua Majestade Rei Mwene Muatxissengue Wa-Tembo, o 10º rei no trono da Lunda tchokwe, reconhecido mundialmente nos termos de sucessão colectiva e de fundamentos jurídicos dos tratados de protectorado de 1885 a 1894, altos funcionários da Presidência da República, e da Fundação Sindika Dokolo.

Agradecimento

Sindika Dokolo considerou o dia da entrega das máscaras, um momento inesquecível, tendo considerado e felicitado o Presidente da República, pela autoria da iniciativa, visão cultural, e por ser o grande inspirador do projecto de recuperação: “Este dia, há-de representar na minha vida de amante de África e da sua cultura, um momento inesquecível. Por isso, agradeço profundamente ao Senhor Presidente da República esta feliz iniciativa de Vossa Excelência. Permita-me, Excelência, neste momento, ser a voz da comunidade cultural e intelectual de toda a África e apresentar as felicitações pela visão cultural de Vossa Excelência que inspirou este projecto de repatriamento e de reapropriação deste grandioso património cultural de Angola, e do nosso Continente”.

Efeméride


A recuperação das máscaras, só foi possível pela luta contra injustiça, e a exploração colonial, protagonizada pelos heróis do 4 de Fevereiro, de 1961, tendo o patrono da Fundação, estabelecido, curiosamente, o seguinte paralelo: “O dia 4 de Fevereiro, relembra-nos os momentos mais gloriosos da nossa história em que os nossos antepassados foram inspirados pelo mais nobre dos sentimentos – o amor à Pátria, insurgindo-se contra a injustiça e a exploração colonial. Através deles, toda a Nação se ergueu. Os angolanos de todas as regiões, mas também de todas as épocas, traçaram a partir desta data o destino que transformou Angola contemporânea, e moldará a Angola de amanhã”.

Recuperação

Em relação à nova máscara, “Mwanapwo”, recentemente recuperada, lemos, na semana que findou, a seguinte informação, que consta num prospecto divulgado pela Fundação Sindika Dokolo: “Na sequência do desenvolvimento do projecto que visa a identificação e o regresso do Património Artístico Angolano, o Presidente da Fundação Sindika Dokolo tem a honra de informar que foi reencontrada, em Paris, na posse de um “marchand” de arte, que preferiu permanecer anónimo, uma máscara Pwo, extremamente importante, datada do fim do século XIX.
Um acordo foi estabelecido com o referido “marchand” para que seja devolvida esta importante obra de arte do Museu do Dundo, província da Lunda Norte, de onde foi furtada. A Fundação Sindika Dokolo terá a honra de apresentar ao grande público esta obra de excepcional qualidade, aquando da inauguração do Museu da Moeda do Banco Nacional de Angola, cuja construção foi recentemente concluída”. No discurso em referência, Sindika Dokolo anunciava: “É tempo, agora, de todos os tesouros culturais desaparecidos encontrarem o seu lugar em Angola e poderem desempenhar, na plenitude, o seu papel na obra de edificação da cultura, do conhecimento, da valorização e do aumento de auto-estima do nosso povo. Como uma fundação de utilidade pública ligada a Arte e a Cultura, vamos continuar a desenvolver acções no sentido do resgate do nosso património cultural e do seu enriquecimento em todas as vertentes, apoiando as gerações artísticas mais novas”.

Histórico


Tudo começou com o anúncio de Sindika Dokolo, em conferência de imprensa realizada no dia 30 de Outubro de 2015, no “The Club attheIvy”, em Londres, que noticiava a recuperação de duas máscaras “Mwana Pwó”, e uma estatueta, pertencentes ao Museu do Dundo, instituição criada pela antiga Diamang, em 1936, a partir de uma colecção privada do falecido José Redinha, antigo funcionário administrativo de Tchitato. No entanto, sabe-se que a Fundação Sindika Dokolo vem lutando pela restituição do património artístico nacional, disperso pelo mundo, perseguindo objectivos não só estéticos e artísticos, mas prestigiando a história política de Angola e de África, na sua relação com o mundo, através da valorização da arte clássica africana.

Tradição

Há uma tradição ancestral dos tchokwe de esculpir máscaras, estatuetas e objectos, que desempenham uma função estética e utilitária, representativa da vida em comunidade, caracterizada por ocorrências do quotidiano, ritos que celebram mitos, contos e preceitos filosóficos.
As peças de arte dos tchokwe, gozam de um papel predominante na generalidade dos rituais culturais, representando a vida, morte, a passagem para a fase adulta, a celebração de uma colheita nova ou ainda o início de uma estação de caça. O nome Tshokwe apresenta algumas variantes a saber: Tchokwe, Chokwe, Batshioko, Cokwe e, entre os portugueses, ficaram conhecidos por Quiocos. A região Lunda-Tchokwe é constituída pelas províncias da Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico, cada uma comportando diversos grupos étnicos, sendo os Tchokwe, o grupo maioritário seguindo-se outros como: os kakongo ou bandinga, suku, bângala, luba, xinge, matapa, songo, Khari, kafia, kakete, holo e bondo.

Máscara

A máscara, “Mwanapwo”, e suas variantes, representam uma personagem ancestral, adulta, madura, simbolizando a beleza do sexo feminino. Cheia de dignidade e espiritualidade, a peça representa todos os atributos positivos da mulher ideal, simbolizando o protótipo da figura feminina tchokwe. Assim sendo, na dança, Pwo representa a encarnação de uma personagem feminina que concede a fertilidade, o bem e a criação. Embora as máscaras “pwo” sejam usadas por jovens do sexo masculino durante os rituais de iniciação ou de puberdade na “Mukanda”, elas são usadas para honrar a mulher, especialmente as mães dos jovens que participam no ritual. Recentemente “Pwo” ficou conhecida como “Mwanapwo”, o ideal de beleza jovem feminina, que representa a mulher que foi submetida ao ritual de iniciação, estando pronta para o casamento.

Programa

No âmbito da III Trienal de Luanda da Fundação Sindika Dokolo, que vai até Novembro de 2016, e acontece sob o signo “Da utopia à realidade”, a semana que ora findou, ficou marcada pela estreia do teatro, com a peça, “Laços de sangue”, representada pelos actores Meirinho Mendes, e Raúl Rosário, na quinta-feira, pela “performance” da  Massemba, com os Novatos da Ilha de Luanda,  no domínio da dança, da actuação do grupo Kituxe com Zé Fininho, dikanza, Inocêncio Gonçalves, Inô, tambor solo, Raúl Tolingas, tambor baixo, Jorge Henrique, Mulumba, puíta e hungo, e Fernando Francisco, Nandinho, Mukindo, isto em relação à música tradicional, e pela intervenção do DJ, Ruca Moreira, na última sexta-feira.  No sábado, os destaques foram para a literatura, com a leitura das “Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena”, do livro, “A outra face do homem”, e  a exibição do documentário, “I love kuduro”, de Mário Patrocínio. Por último, a cantora e compositora, Anabela Aya, fechou, com êxito assinalável,  o cartaz de sábado com: Nino Jazz, piano, Mayó Bass, Baixo, Dilson Groove, bateria, e Inês Vieira, no violino.

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