Cultura

Retratos da Chicala no Memorial

“Convocatória, Chicala forever”, do artista plástico Nelo Teixeira, é inaugurada hoje, às 18h30, na galeria de exposições do Memorial Dr. António Agostinho Neto (MAAN), em Luanda.

Mostra individual de Nelo Teixeira é aberta hoje na galeria de exposições do Memorial António Agostinho Neto
Fotografia: DR

A mostra fica patente até ao dia 2 de Maio, e resulta de recordações do artista sobre o bairro da Chicala, zona costeira adjacente ao Museu das Forças Armadas e a Ilha de Luanda, onde Nelo Teixeira vive há largos anos, desde a adolescência.
Os quadros foram produzidos com materiais reciclados, estampagem, colagem, pintura, servindo-se da abstracção, figurativo e  surrealismo, e evocam recordações, nem todas agradáveis por que a inspiração deve-se à degradação e demolição do bairro em que o artista partilhou bons momentos, um deles os primeiros passos para se dedicar às artes.
“A Chicala foi o bairro que me deu a energia para ser o artista que sou hoje, por esta razão a exposição “Convocatória, Chicala forever”, tem uma importância simbólica para mim”, recordou, Nelo Teixeira.
“Convocatória, Chicala forever” aparece como um processo de reconstituição afectiva e espiritual do bairro da Chicala. A mostra apresenta um conjunto de objectos considerados “lixo” para um olhar crítico longe de um sentido artístico.
“Retrato a vida dos bairros, fundamentalmente da Chicala II, onde vivo e todos os dias é erguida uma nova casa, os jogos das crianças, os gritos dos pescadores. É nesse ambiente que encontro a inspiração para fazer o meu trabalho”, explicou, para quem dar “vida” ao lixo significa “radiografar uma parte da nossa história”.  Segundo o artista, “Convocatória, Chicala forever” retrata a vivên-cia e memória do passado de uma geração que viveu na Chicala que tinha os seus sonhos. Estas gerações, muitas das quais nasceram na-quele espaço, foram transfe-
ridas para o Zango e outros lugares, e houve como que uma transmutação de desejos, paixões e projectos.
 A influência do tio leva-lhe a trabalhar com materiais reciclados, enquanto que outras formas de produção artística surgiram pela convivência com os seus colegas do grupo Os Nacionalistas, em que perfilam Lino Da-mião, Yonamine, Thó Si-mões, Kiluanji Kia Henda, entre outros artistas da mes-ma geração. 
A principal aposta é retratar o quotidiano luandense, ilustrando com materiais que são despejados nas ruas pelos transeuntes e que “procuro dar um novo sentido, reciclando e fazendo uma obra de arte”.
Mestre em carpintaria, Nelo Teixeira tem como ídolo - mestres - na pintura, o holandês Vincent Van Gogh, os espanhóis Salvador Dali e Pablo Picasso, e o italiano Leonardo da Vinci. Por cá, é admirador das obras dos pintores  António Ole, Jorge Gumbe  e Van. Nelo Teixeira trabalha e reside, desde 1993, no bairro da Chicala onde criou o atelier “Só Bumba”, que tem desenvolvido várias parcerias com movimentos artísticos e projectos solidários. Produz, também, máscaras, além de reciclar metais, plásticos, alumínios, vidros, tintas, papéis e cartolina.
Desde a década de 1990, integra o grupo Os Nacionalistas, além de ser membro da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), desde 1996. Participou, em 2000, em várias mostras colectivas, na galeria Celamar, Humbiumbi, no espaço Elinga Teatro, na galeria “Soso” Arte Contemporânea, Associação 25 de Abril e BAI-Arte.
Em 2015 fez parte da ex-posição colectiva no  Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza, Exposição Internacional de Arte,  que teve lugar no Palazzo Pisani, em Campo Santo Stefano, com a exposição “Sobre as Formas de Viajar”. Em 2016 participou no stand do  Espaço Luanda Arte, na nona edição da Feira de Arte “FNB Joburg Art Fair”, na África do Sul. No mesmo ano fez exposição individual, “Kilapi” no “ELA” e outra no Banco Económico, denominada “Not Bok”, que marcou uma virada na carreira do artista, sendo a primeira em que usou material reciclado, re-alçando a história da cidade de Luanda, os bairros e zo-nas turísticas.

Obras em colecções
As obras de Nelo Teixeira pertencem às colecções  Paulo Múrias, colecção privada, António Seguro, Fundação Arte e Cultura,  Nuno de Lima Pimentel Collection,  Colecção do Fundo Soberano de Angola, Colecção Presidente Business Centre, colecção António Nascimento,  e colecção Costa Lopes, Lisboa, Portugal.
Nelo Teixeira, natural de Mbanza Kongo, estudou pintura e escultura nos “Workshops” promovidos pela UNAP. Formado em carpintaria, criou cenografias para os filmes “A cidade vazia”, de Maria João Ganga, “Herói”, de Zezé Gamboa, “Ponto de Encontro”, de Hugo Vieira da Silva, e nas peças teatrais, “As bondosas”, de José Mena Abrantes, e o “Preço do Fato”, de Adérito Rodrigues.
Participou na segunda edição dos Jovens Artistas Angolanos (Jaango), movimento de arte angolana contemporânea, no Museu Nacional de História Natural de Luanda, em 2013.

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